10 de junho de 2026

O balé, a revolução e nós, por Iara Vidal

Da plateia, o que se vê é algo maior: a persistência de uma narrativa em que mulheres não estão apenas à margem — mas no centro da história.

Em Beijing, o Ballet Nacional da China apresentou “O Destacamento Vermelho das Mulheres”, destacando mulheres na história.
A narrativa acompanha Wu Qinghua, camponesa que se torna combatente revolucionária no Exército Vermelho.
Figurinos refletem a transformação política da protagonista, simbolizando a presença feminina na revolução chinesa.

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O balé, a revolução e nós

Em Beijing, “O Destacamento Vermelho das Mulheres” me atravessou como arte, memória e uma rara narrativa em que mulheres ocupam o centro da história

por Iara Vidal

O primeiro texto que publiquei na CGTN, depois que me mudei para a China, contava a história de um broche, de um grupo de amigas e de um balé sobre um destacamento feminino do Exército Vermelho.

Nesta quinta-feira, 12 de março, assisti em Beijing ao espetáculo que costura todos esses elementos: “O Destacamento Vermelho das Mulheres”, um dos balés mais importantes da história cultural da China, apresentado pelo Ballet Nacional da China no histórico Teatro Tianqiao.

Saí de lá em êxtase. Foi uma das apresentações mais bonitas que já tive o privilégio de presenciar.

Eu, que não falo nem entendo chinês, fui completamente tragada por uma experiência sensorial conduzida por uma orquestra impressionante, por um corpo de baile de primeira grandeza e, naquela noite, também por um coral do Exército de Libertação Popular (ELP), cuja presença ampliava a dimensão épica da narrativa. Luz, movimentos, cenário e figurinos contam tudo — sem precisar de uma única palavra.

A história acompanha Wu Qinghua, uma jovem camponesa da ilha de Hainan que foge da exploração de um senhor de terras e encontra abrigo no destacamento feminino do Exército Vermelho. Ao longo da narrativa vemos sua transformação — de vítima da opressão feudal a combatente revolucionária.

A coreografia combina a técnica do balé clássico ocidental com gestualidade dramática e imagética da tradição chinesa, criando um estilo singular que marcou profundamente a história da dança no país.

A montagem integra o universo artístico do Ballet Nacional da China, cuja orquestra sinfônica, fundada em 1959, é referência no repertório coreográfico do país. A presença do coral militar naquela noite acrescentava uma camada sonora e simbólica particular: era como se a história encenada no palco ecoasse para além da coreografia, conectando arte, memória política e tradição cívico-musical.

Inspirada em episódios reais da história revolucionária chinesa, a obra tornou-se um dos grandes símbolos artísticos do século XX no país — e um marco na representação das mulheres como protagonistas da luta política e social.

Quando o figurino conta a revolução

Mas uma das coisas que mais me impressionou foi o arco narrativo construído pelo figurino da protagonista.

No início, ela surge vestida de rosa: ainda submissa, violentada, marcada por uma feminilidade vulnerável e pela condição de quem vive sob opressão.

Quando consegue fugir e encontra abrigo no Partido Comunista, passa a vestir vermelho — cor que, no imaginário revolucionário chinês, remete diretamente à revolução, ao heroísmo e à entrada em um novo horizonte político. Ainda assim, naquele momento, ela permanece movida sobretudo pela sede de vingança.

Só depois, no processo de formação política, vem a farda azul. E ali ocorre a transformação mais profunda: já não vemos apenas a mulher ferida que busca justiça pessoal, mas a combatente disciplinada, integrada ao coletivo e transformada pela experiência revolucionária.

Como mulher, é impossível assistir a essa história sem perceber algo que atravessa séculos e geografias: as mulheres quase sempre estiveram presentes nas grandes transformações da história, mas raramente ocupam o centro da narrativa.

Talvez seja por isso que essa obra continue tão poderosa décadas depois de sua estreia. Ela devolve visibilidade a um capítulo em que mulheres não aparecem como figurantes da história, mas como protagonistas.

Assistir a isso hoje, vivendo na China, é perceber como a arte pode funcionar como um lugar onde memória política e imaginação coletiva continuam dialogando. No palco, a trajetória de Wu Qinghua fala de um momento específico da história chinesa. Da plateia, o que se vê é algo maior: a persistência de uma narrativa em que mulheres, finalmente, não estão apenas à margem — mas no centro da história.

Há também uma leitura que raramente aparece fora da China. Ao longo do século XX, Wu Qinghua se consolidou como uma figura simbólica da chamada “heroína revolucionária” — uma personagem que reúne coragem política, disciplina coletiva e protagonismo feminino. Num contexto histórico em que as mulheres frequentemente apareciam como coadjuvantes da política, essa imagem tinha um significado profundo: afirmava que a transformação social também podia ter um rosto feminino.

Talvez seja por isso que assistir a essa história hoje provoque uma sensação tão intensa. Não se trata apenas de um espetáculo sobre o passado. É também um lembrete de que, quando as mulheres entram na história — de verdade — a própria narrativa da história muda.

E, naquela noite em Beijing, foi impossível não se deixar atravessar por isso.

Iara Vidal é pesquisadora independente dedicada ao estudo das interseções entre moda, política e cultura. Jornalista brasileira radicada em Beijing, trabalha como editora na CGTN em Português, emissora do Grupo de Mídia da China (CMG, na sigla em inglês).

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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O Observatório de Geopolítica do GGN tem como propósito analisar, de uma perspectiva crítica, a conjuntura internacional e os principais movimentos do Sistemas Mundial Moderno. Partimos do entendimento que o Sistema Internacional passa por profundas transformações estruturais, de caráter secular. E à partir desta compreensão se direcionam nossas contribuições no campo das Relações Internacionais, da Economia Política Internacional e da Geopolítica.

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