6 de junho de 2026

O bê-a-bá da velhice, por Hildegard Angel

Quanto mais envelheço, mais eu me convenço de que a velhice não é uma condição, é opção
Crédito: Tânia Rego/ Agência Brasil

– Reflexão sobre a velhice e a aceitação do envelhecimento, destacando a importância de manter-se psicologicamente ativo e feliz.
– Descrição do aniversário de um amigo de 80 anos no Clube dos Macacos, ressaltando a presença de personalidades marcantes e suas histórias de vida.
– A importância de abraçar causas e sonhos significativos para manter a juventude interior, ilustrada pela celebração dos 80 anos de Agostinho e Dulce Pandolfi.

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O bê-a-bá da velhice

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Por Hildegard Angel

Às vezes me surpreendo, quando me tratam com os cuidados e a deferência que se deve a um velho. Se eu não tivesse espelho em casa, até me esqueceria do detalhe. Nas ultimas décadas, repetidamente, pedi para não me chamarem de “senhora” – não me sentia como tal. Agora, aceito, com um misto de conformidade e bom humor, como se por dentro risse de quem assim me considera. Certo, ando meio distraída, e confesso minha dificuldade com as senhas, cada vez mais numerosas, e para acompanhar o ritmo das mudanças das regras nos aplicativos que frequento. Uma ginástica que faço com regularidade é a mental. Ela me confere a habilidade de improvisar e dar meu jeito no trato com a tecnologia digital. Quem já nasceu e cresceu nela, não precisa do “jeitinho”, é pena.

Uma das prerrogativas de se estar velho é acertar pelo menos uma questão do último Enem: “Os desafios do envelhecimento e o etarismo”. Quanto mais envelheço, mais eu me convenço de que a velhice não é uma condição, é opção. Os que resistem ao declínio psicológico, mesmo sofrendo de algum declínio físico, vivem bem. São felizes. Não há desafio, há uma disposição ou não de envelhecer.

Ontem, fui ao aniversário de um amigo, 80 anos, no Clube dos Macacos, no Jardim Botânico. Lotou com cabeças, barbas e barbichas brancas. Nenhuma cirurgia plástica, nenhum traço de botox. Vidas plenas, rostos e corpos assumidos. Não eram corpos nem rostos, eram condecorações por serviços prestados ao Brasil. Neles estavam impressos sonhos e lutas, que viraram livros de memória e História, se tornaram teses, cátedras, dissertações. Se havia desafio para aquela turma da esquerda no aniversário de Agostinho Guerreiro – o sobrenome o explica – era a escadaria de acesso ao Clube. Contudo, os que militaram durante a ditadura militar, foram às ruas, caíram na clandestinidade, trocaram de identidade, reuniram-se em aparelhos, pegaram ou não em armas, foram presos, torturados, perderam seus companheiros, partiram para o exílio, sobreviveram, retornaram e reconstruíram suas vidas escalaram a escadaria numa boa. Eu, que não fiz nada disso, fui salva pelo corrimão.

Todas as pesquisas sobre a velhice que fiz esta semana para escrever este texto, que incluíram das obras de Machado, Clarice e Lúcio ao memorando do Departamento de Estado dos EUA às suas missões diplomáticas no exterior para que sejam negados vistos aos obesos, doentes e idosos, todo esse conhecimento reunido não me deu a resposta, que encontrei ali, na escuridão do Clube dos Macacos, entre palmeiras centenárias e vibrantes amigos, quase centenários, numa entusiasmada confraternização adolescente: o tônico da juventude é abraçar causas e sonhos que valham o preço da própria vida.

E vivam os 80 anos de Agostinho, *Dulce Pandolfi e todos os presentes àquela festa, que virou texto, que vai virar livro. Muito obrigada por mais esta lição. Os bancos escolares não fecham as portas para quem não se fecha a eles.

*Dulce Pandolfi é aquela presa política que foi usada como “modelo” pelos militares em suas “lições de tortura” aos novatos torturadores.

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