O Brasil que devemos querer, por Eliseu Raphael Venturi

O Brasil que devemos querer é o único país que moralmente podemos admitir em maturidade emocional e intelectual: o país dos governos que preservam este Estado e esta história e toda a sua fortuna histórica intangível

Cicero Dias. Composição com estátua e monstro[i]. 1928.

O Brasil que devemos querer

por Eliseu Raphael Venturi

O Brasil que devemos querer é o único Brasil que podemos querer, por um imperativo de convivência e por outro de sobrevivência: é um país que exalta a vida, e não um país que cultiva sistematicamente a morte, porque respeita a vida e a morte, seus sentidos e mistérios, e é um país que sabe que a vida digna de cada um dos outros, o outro mais amplo e distante e estranho possível, é condição da liberdade de si mesmo, do próximo e do familiar, em uma compreensão tal que se apagam as fronteiras do egoísmo e da solidariedade, das confrarias e das fraternidades, das marcas e das condecorações, em prol de uma continuidade vital indissociável, de uma comunidade genuinamente política que apenas significa na medida em que se afirma, inclui, expande, constrói, conserva e preserva, uma corrente sem prisão, uma unidade sem unificação destruidora e de supremacia; o Brasil é um coração que pulsa, nem negação nem negacionismo.

O Brasil que devemos querer é o único país que moralmente podemos admitir em maturidade emocional e intelectual: o país dos governos que preservam este Estado e esta história e toda a sua fortuna histórica intangível, de erros e acertos, de incontáveis contradições e vícios, que reconhecem o sofrimento constitutivo de uma nação da desigualdade e da opressão, e que assumem severas responsabilidades éticas, políticas, morais e jurídicas ante os tensionamentos e conflitos, que não são acobertados, que utilizam rigorosamente a linguagem dos direitos e dos deveres, que operam reiteradamente suas ações de modo transparente, público e republicano, no espaço cívico e da civilidade, que respeitam as liberdades individuais e públicas, que reconhecem na laicidade o único meio de garantia do pluralismo religioso.

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O Brasil que devemos querer é o país em que um Poder não sequestra o outro, e nem um poder sequestra o outro ou se transmuta em cadeias de privilégio e confusão, nem que os agentes transitam em um sem-fim de interesses e projetos próprios de poder em espúrias metamorfoses incontáveis por um talento ou posse superior da verdade e da correção, é um país sem nome, sem rosto e sem dono, sem dedos apontados de acusações de idealismo, posto que é um país de normatividade, seriedade e profissionalismo, compromisso e sinceridade, da consciência da necessidade constante da limitação das forças intelectuais, econômicas, políticas, comunicacionais sem que isso signifique censura, ditadura, totalitarismo. É um Brasil em que Educação e Trabalho não são ícones sucumbidos de uma desesperada e perversa castração e encarceramento, mas são fontes do sentido partilhado e compartilhamento de sentidos, sem o sonho nefasto da totalização de qualquer forma.

O Brasil-instituição, Brasil-sociedade e Brasil-meio ambiente que só existe na trama integrada destes marcadores simbólicos, e que em toda a sua vastidão e exuberância, em toda a sua diversidade e criatividade, em toda a sua farta projeção volta-se àquela simplicidade que lhe constitui, silenciosa nos recônditos do solo, nas sombras e entremeios das florestas de madeira ou de pedra, indescritível em bandeiras, incontível em hinos, incompreensível em poucas cores e inexplicável pelo simbolismo reducionista de todas estas formas, é o Brasil das ruas, das periferias, das condomínios e do território que amarra e sangra toda esta violência legítima ou não, força ou poder, é a terra que vibra o rubro da vida e o rubor das mazelas. Uma República Federativa, um Estado de Direito, que precisa se autoconhecer para então poder pensar em novos vôos, que precisa se realizar para almejar novos horizontes.

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O Brasil de todos os Brasis, o Brasil em que a Constituição não é um expediente retórico nem objeto da propriedade exclusiva ou privativa dos seus intérpretes supremos, mas é uma arena de confluência das Declarações por excelência, das Leis por excelência, da juridicidade profunda e intensa, profícua e producente, o Brasil feito por todos aqueles que sonham, trabalham, descansam, colaboram, que renega as autoridades-por-si, é o país em que a petulância não é virtude, nem a ignorância motivo de orgulho, em que a crítica não é destruição, mas compromisso visceral com a projeção democrática e suas limitações, com o olhar para conjunturas potenciais mais amplas, mais possibilidades de existência, de vidas boas, mais viabilidade de convivências, mais limitação de exclusões, extinções, eliminações de todas as ordens, em que a identidade é apenas alcançável por meio do reconhecimento das singularidades, pluralidades, multiplicidades e diferenças, em que se concebe a contemporização e o diálogo não como garantias de sucesso e êxito, mas como tentativas permanentes de uma aproximação possível, de uma construção constante, de uma cultura histórica, temporal e humana.

O Brasil que devemos querer é este país que nos foge, do qual nos furtam, o qual sistematicamente é atacado, ofendido, vilipendiado, menosprezado, debochado, ironizado, barateado, infantilizado, sucateado, entregue, mas é esse Brasil que nos permitiu a existência e o olhar, a leitura e a escrita, a cujos rios de sangue e tinta devemos devoção e continuidade, consideração e ancestralidade, este Brasil que não é dádiva nem presente, mas é condição, vínculo, adesão, projeto, planejamento, pauta e ata, compromisso, norma, direito, história, em que a ordem, o progresso, a disciplina e a hierarquia não são fetiches nem fins, em que nem tudo é ideologia, nem tudo é público, nem tudo é privado, nem tudo é mercadoria, nem barateável, nem precarizável, nem manifestável, nem postável, nem impostável. Um país em que se pode falar, sem que se pretenda que a palavra seja a flecha envenenada do destecimento, em que o comentário não é ácido, em que o dever não é obrigação e em que o desejo não é descritível, imponível. O Brasil que devemos querer é o único Brasil que podemos querer na nossa mais interna apreciação, no nosso mais silencioso sentido, no nosso mais sincero existir finito que, por isso mesmo, nos diz de frente: este país está em nossas mãos, agora, mas quem jamais olhou para as próprias mãos, ou nela constituiu calos, jamais o verá.

 

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Eliseu Raphael Venturi é doutor em direitos humanos e democracia pela UFPR.

[i] COMPOSIÇÃO com Estátua e Monstro. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2020. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/obra2798/composicao-com-estatua-e-monstro>. Acesso em: 06 maio 2020.

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3 comentários

  1. Nunca fez tanta falta a clareza sobre o tipo de sociedade em que vivemos: uma sociedade capitalista com as características de desenvolvimento combinado (o que se costuma chamar de capitalismo tardio).

    Nenhuma tese culturalista vai resolver nosso problema nacional. O problema é político, político, político, mil vezes político. Até hoje, só foi desenvolvida uma perspectiva científica a sério sobre a política na sociedade capitalista: o Marxismo. Mas texto após texto após texto, sempre a mesma obtusidade, a falta de compreensão sobre qual a morfologia da sociedade, logo qual a morfologia da luta política, logo sobre o que deve ser feito.

    Abundam as teses sobre o “caráter”, a “moral”, a “cultura”, mas sempre falta essa lucidez de quem diz: para fazer a canja, tem-se de degolar a galinha. Nunca na história de um povo a paz foi concedida. Ela sempre teve de ser conquistada com violência. “Sibi pax, para bellum”, o problema já estava posto há 2000 anos.

    Só existe um meio para a democracia no Brasil (e vale lembrar, isso é provado pela derrubada da ditadura militar): a MOBILIZAÇÃO DAS MASSAS. Qualquer tese que não situe a centralidade do problema democrático nisso é uma total perda de tempo. Será mais um desses artigos que sobrevivem 20 minutos na internet e não mudam absolutamente nada.

    • Meu caro, é apenas uma crônica, ou talvez apenas um artigo que não sobreviva nem apenas 20 minutos na internet. Não é uma proposta de solução do mundo, tampouco a posse da verdadeira resolução das coisas – até porque, nesse assunto, já estamos bem representados, incluindo esta fé mística na solução violenta.

      • Tudo bem, meu querido, entendo a defesa que esse texto faz de um estado de espírito, de uma generosidade farta, do que amamos na brasilidade.

        O que coloco é que, embora sonhemos, temos que tomar logo o caminho que nos garanta que, adiante, não estejamos comendo alpiste. Há os que pensem ser possível a conquista desse sonho com amor e namastê. Mas quem estuda a história do mundo e do nosso país não se pode dar ao luxo dessas iusões.

        Na verdade, o que escrevi é um complemento lógico, político, ao que você escreveu. Não há aqui uma contradição, e sim uma consequência.

        O importante é o debate.

        Abraço!

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