O discurso de Bolsonaro e a psicologia das massas, por Michel Aires de Souza Dias

A primeira característica da propaganda fascista é a personalização do líder. Em seus discursos e na publicidade todo líder sempre procura falar de si mesmo.

O discurso de Bolsonaro e a psicologia das massas

por Michel Aires de Souza Dias

No atual estágio de nossa civilização, a racionalidade técnica atingiu todas as esferas da vida social. O mundo se tornou cada vez mais administrado. Os indivíduos foram transformados em objetos de organização e coordenação em larga escala. O capitalismo, por meio da técnica, foi capaz de criar padrões, modos de comportamento, atitudes e formas de pensar que se impõe ao indivíduo massificado no interior das práticas sociais. Desse modo, o sujeito só pode assegurar sua sobrevivência se for capaz de aceitar padrões externos de adaptação, integração, desempenho e eficiência. Hoje, vivemos em uma sociedade cada vez mais enclausurada, cada vez mais socializadas, determinada pelos controles técnicos. O resultado disso são sujeitos fracos, impotentes e dessubjetivados, que procuram compensar sua fraqueza se identificando com as estruturas do poder. As pesquisas do filósofo Theodor Adorno mostraram que é a partir do enfraquecimento do eu que surgem as predisposições fascistas na sociedade. A personalidade autoritária não surge de uma determinada ideologia política conservadora, mas surge da impotência e da incapacidade do indivíduo reagir ao descomunal aparelho técnico-econômico que o subjuga. Nas próprias palavras de Adorno: “Personalidades com tendências autoritárias identificam-se ao poder enquanto tal, independente do seu conteúdo. No fundo dispõe de um eu fraco, necessitando, para se compensarem, da identificação com grandes coletivos e da cobertura proporcionada pelos mesmos” (ADORNO, 1995, p.37).

Freud no início do século XX, em seu livro Psicologia das massas e análise do Eu (1921), foi capaz de prever o surgimento e a natureza dos movimentos de massa fascistas em termos psicológicos. A partir das ideias de Gustave Le Bon, ele procurou compreender as transformações psicológicas que passa o indivíduo ao fazer parte de uma coletividade. Ao retomar as ideias de Totem e Tabu, ele defendeu a tese de que os laços que ligam os indivíduos em um grupo ou massa é determinado por Eros (Amor), reproduzindo os mesmos laços emocionais da horda primitiva.

Freud observou que há uma grande mudança na psicologia e no comportamento dos indivíduos quando eles participam de um grupo ou de uma massa. A principal mudança é a de que os processos conscientes são substituídos por processos inconscientes. Os indivíduos perdem sua capacidade crítica, adquirindo um grande sentimento de poder, dando vazão aos seus instintos mais primitivos. Desse modo, comportam-se como seres irracionais, em um estado hipnótico, sendo guiados pela sugestão. Eles são sugestionados pelo líder ou por aquele que conduz a massa, perdendo totalmente sua autonomia. Eles também tornam-se predisposto ao contágio, imitando as atitudes e comportamentos irracionais que se manifestam em todo grupo. Com isso, comportam-se contrariamente às interdições morais da sociedade, em oposição aos seus hábitos e caráter. Assim, “todas as inibições individuais são anuladas e todos os instintos cruéis, brutais e destrutivos, que dormitam no indivíduo como restos dos tempos primitivos, são despertados para a livre satisfação dos impulsos” (FREUD, 2019, p. 52)

O principal fator inconsciente que move os indivíduos é a necessidade de pertencerem a uma coletividade, sendo amados, respeitados e felizes como partes dessa totalidade. Freud percebeu essa motivação principalmente na igreja e no exército. Nessas instituições, o líder torna-se, depois de Eros, o principal motivo dos vínculos libidinais entre os indivíduos. Todos se unem na mesma ilusão de que há um líder, na Igreja Católica Cristo, no exército o general, que ama a todos de modo incondicional. Os indivíduos se ligam ao líder por identificação e por laços emocionais com seus semelhantes por características afetivas em comuns. Nesse sentido, o líder torna-se o “ideal do eu” dos indivíduos, um modelo a ser imitado e seguido, mantendo o grupo unido: “O mecanismo que transforma a libido no vínculo entre líder e seguidores, e entre os próprios seguidores, é o da identificação” (ADORNO, 2015b, p.166).

Para Freud, a identificação é uma manifestação precoce de ligação emocional entre dois indivíduos. Ela surge pelo Complexo de Édipo, onde a criança ao querer substituir o pai, identifica-se com ele. O pai passa a ser o ideal do Eu da criança, que posteriormente foi chamado pela psicanálise de superego. É pela identificação que o líder assume a figura do pai, mediante o seu amor, une todos os indivíduos uns com os outros e pela mesma percepção da realidade.

As ideias de Freud foram de enorme importância nos estudos de Adorno sobre a propaganda fascista, procurando entender como os agitadores fascistas são capazes de criar uma ambiente emocional de hostilidade, guiando os indivíduos para fins políticos. Em seu artigo, Antissemitismo e a propaganda fascista (1946), Adorno mostra três características da abordagem psicológica da propaganda autoritária.

A primeira característica da propaganda fascista é a personalização do líder. Em seus discursos e na publicidade todo líder sempre procura falar de si mesmo. Eles falam sobre seu cotidiano, sobre sua intimidade, sobre sua família e sobre suas preferências. Eles sempre se apresentam como homens comuns, humildes e religiosos. Eles também falam de suas fraquezas e não possuem a pretensão de superioridade. Apresentam a imagem de homens simples, mas ao mesmo tempo de grandes líderes: “Eles se identificam com seus ouvintes e colocam particular ênfase em serem simultaneamente tanto homens pequenos e modestos quanto líderes de grande calibre” (ADORNO, 2015a, p 138-9). Essa característica pode ser corroborada na campanha eleitoral do presidente Jair Bolsonaro. Em seus discursos, Bolsonaro sempre falava de si mesmo e de sua família. Ele passava a imagem de um homem comum, religioso, honesto e que se identificava com qualquer outro brasileiro. Era normal vê-lo andando de chinelos, cortando o cabelo, rezando em alguma igreja ou de bermuda, comendo pão com leite condensado.  Nunca se apresentava como intelectual, mas como um indivíduo simples e pragmático. Ele colocava-se como a imagem e semelhança de seu eleitor.

A segunda característica elencada por Adorno é a de que os agitadores fascistas substituem os fins pelos meios. Eles propagandeiam a ideia de um grande futuro, de um grande movimento, de uma grande organização, que deve possibilitar a renovação da nação, que esperam realizar. Nesse sentido, eles enaltecem a ação e estabelecem o compromisso de um grande pacto. Eles se colocam como visionários daquilo que está por vir, tal como Hitler fazia em seus discursos.  Essa característica também pode ser encontrada no discurso de posse do presidente Jair Bolsonaro. Nesse discurso ele afirma que sua grande missão é a de restaurar e reerguer a pátria, “libertando-a definitivamente do julgo da corrupção, da criminalidade, da irresponsabilidade econômica e da submissão ideológica”. Ele fala de um “verdadeiro pacto nacional entre a sociedade e o os Poderes executivo, legislativo e Judiciário, na busca de novos caminhos para um novo Brasil”. Ele também afirma que sua grande “prioridade é proteger e revigorar a democracia brasileira”. (BOLSONARO, 2019, Folha de São Paulo).  O que é notório em sua fala, é que ele não diz como esses objetivos serão alcançados, como o pacto se conduzirá e quais ações devem ser tomadas. Seu discurso é retórico e emocional.  Ele almeja convencer os indivíduos manipulando seus mecanismos emocionais e inconscientes, sem apresentar ideias objetivas ou argumentos. Na verdade, o discurso fascista nunca apresenta ideias objetivas, ele sempre é astuciosamente ilógico e pseudoemocional.

A terceira característica da propaganda fascista constitui um dos seus mais importantes padrões, uma vez que apela ao desejo e ao prazer de bisbilhotar e difamar seus oponentes. Normalmente se contam fatos geralmente inverídicos sobre a vida deles. Constantemente se contam histórias escandalosas, a maioria falsas, como escândalos sexuais, corrupção, violência ou algum excesso. Essa característica também pode ser exemplificada nas propagandas fascistas de Bolsonaro. São as famosas “fake news”. Nas eleições, o seu principal oponente, Fenando Haddad, foi acusado das mais absurdas notícias. Ele foi acusado de distribuir nas escolas kitgays para incentivar as crianças a serem homossexuais; de distribuir mamadeiras de pênis para incentivar a sexualidade nas crianças; de propagar o incesto por meio de livros, de legalizar a pedofilia e de possuir riquezas como uma Ferrari.

Em outro ensaio, A teoria freudiana e o padrão da propaganda fascista (1951), Adorno apresenta todas essas características do discurso fascista e as aprofunda, procurando compreender os padrões que são intrínsecos ao discurso dos agitadores. Neste texto, o que o intrigava era como o líder fascista conseguia o apoio de milhares de pessoas para fins incompatíveis e até contrários aos seus próprios desejos e interesses. Em sua opinião, o material estudado sempre mostrava que a abordagem era muito mais psicológica do que atingir fins objetivos. Não se trata de argumentos ou de fins claramente racionais, mas de convencer as pessoas de modo afetivo, emocional, apelando aos processos inconscientes. Era por isso que o líder conseguia atingir seus fins políticos.  Para Adorno bastava analisar um panfleto ou um discurso para compreender todos as outros. Eles usam sempre as mesmas técnicas.

Segundo Adorno, a técnica fascista é sempre autoritária. Freud já havia mostrado que na Igreja e no Exército o amor é sublimado, não se fala em relações afetivas entre seus membros. O amor sempre aparece como caridade, compaixão pelo próximo, ajuda mútua, amor à corporação ou à pátria. Nessas instituições o amor deve ser sempre reprimido e transformado em dever e obediência. Sobre isso, Adorno (2015b) afirma que Hitler em seus discursos recusou a imagem de um pai amoroso e o substituiu pela imagem de um pai autoritário, assumindo uma posição conservadora e ameaçadora. Já o amor foi sublimado através da ideia de uma Alemanha forte e poderosa. Nós podemos fazer aqui um paralelo com o discurso do presidente Jair Bolsonaro. De modo consciente ou inconsciente, nas eleições ele assumiu a imagem do pai autoritário, conservador e ameaçador. Em seu discurso sempre havia palavras de ordem, de ódio e de ataques aos seus inimigos. Por outro lado, o amor foi transferido para a ideia de um Brasil forte e soberano. Tanto que o slogan de sua campanha era: “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”. Esse slogan era uma nítida referência ao slogan da Alemanha nazista.

Uma importante técnica avaliada por Adorno na propaganda fascista, e que pode ser exemplificado na figura de Bolsonaro, é a ideia de “pequeno grande homem”. Esse recurso se veicula a ideia de personalização. O líder fascista sempre passa a imagem de um homem forte, pragmático, mas ao mesmo tempo um homem como qualquer outro, uma pessoa comum, sem mácula. A propaganda fascista nunca fala em problemas objetivos, uma vez que foca sempre na repetição reiterada da imagem do líder. Há sempre uma dupla imagem, por um lado o líder se apresenta como um ser pragmático, capaz de resolver todos os problemas, mas ao mesmo tempo como um homem do povo, uma pessoa comum. Essa imagem personalizada do “pequeno grande homem” também foi usada na propaganda de Bolsonaro. Vejamos essa passagem de um texto em seu facebook:

O que este homem tem de extraordinário e anormal? A resposta é simples e clara: Nada! E é exatamente este seu cacife. Ele é uma pessoa comum, com seus defeitos que cada um de nós carrega; com sua vontade de ver um país com menos corrupção, menos “esculhambação”, menos desinformação e menos bombardeamento da família etc. O que seus adversários ainda não entenderam é que a questão não é o Bolsonaro; o problema é com eles! O povo não está votando propriamente no Bolsonaro. O povo está “desvotando […]. Não é questão de escolher o mais culto, o mais “preparado”, o mais isso ou mais aquilo… É repulsa mesmo! Contra o Sistema corrupto, apátrida e diabólico que nos encharca, empanzina e causa náuseas. O brasileiro não escolheu Bolsonaro; ele simplesmente está no lugar certo e no momento exato. A maioria, mesmo inconscientemente, está votando em si mesmo. Apenas se achegou a um porta-voz que ia passando e dizendo muito daquilo que você e eu queríamos dizer. Aquilo que estava engasgado há tempos. (https://www.facebook.com/jairmessias.bolsonaro/posts/1203440096471641).

Como Podemos notar, o discurso mostra que Bolsonaro é um homem comum, do povo, que se sente revoltado com a “esculhambação” do país, mas que é capaz de resolver os problemas, podendo tornar-se um porta-voz da população e acabar com toda essa “bagunça”. O site passa a imagem de um homem que não apresenta nada de extraordinário, mas é forte, pois pode ser a solução para corrupção endêmica e o caos em que se encontram as instituições. O texto revela ainda que as pessoas quando votam em Bolsonaro estão votando em si mesmas. Elas são a imagem e semelhança de Bolsonaro. Segundo Adorno, essa “ambivalência psicológica auxilia a operar o milagre social. A imagem do líder satisfaz o duplo desejo do seguidor em se submeter à autoridade e ser ele mesmo a autoridade” (ADORNO, 2015b, p. 172).

O que as pessoas veem em Bolsonaro é o engrandecimento de sua própria imagem, em detrimento das frustrações do seu próprio eu. Uma das características da personalidade fascista analisados por Adorno, a partir do conceito de identificação freudiana, em uma de suas acepções, como o ato de tornar o objeto amado uma parte de si mesmo, é o fato de que a imagem do líder pode representar o engrandecimento da personalidade do próprio indivíduo: “O papel essencial do narcisismo em relação às identificações em jogo na formação de grupos fascistas é reconhecido na teoria de Freud como idealização” (ADORNO, 2015b, p. 168). Os indivíduos propensos a propaganda fascistas padecem de um conflito entre uma instância racional e conservadora e os fracasso em satisfazer seu próprio eu. Esse conflito resulta em impulsos narcisistas que são satisfeitos pela idealização.  A partir da propaganda fascista, o líder procura promover essa idealização de si mesmo em seus seguidores. Desse modo, ao fazer do líder seu ideal, o indivíduo ama a si mesmo no líder, mas se livra de suas frustrações e mal-estar que sente em relação a seu eu empírico (ADORNO, 2015b).

O estudos de Adorno procuraram mostrar de forma incisiva o enfraquecimento psicológico dos indivíduos. Estes ao se deixarem levar pelo líder colocam-no em lugar do seu ideal do Eu, antecipando com grande clareza os átomos sociais carentes de subjetividade e pós-psicológicos que formam as coletividades fascistas. O ideal do Eu como superego é a principal faculdade de resistência no indivíduo, mas ele se tornou enfraquecido com a deterioração da família no mundo administrado, como instância formadora da individualidade.

Por Michel Aires de Souza Dias – Doutorando em educação pela Universidade de São Paulo. E-mail: [email protected]

Referências

ADORNO, Theodor Wiesengrund. O que significa elaborar o passado. In: ADORNO, Theodor Wiesengrund.  Educação e Emancipação. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1995. p.29-49.

ADORNO, Theodor Wiesengrund. Antissemitismo e propaganda fascista. IN:ADORNO, Theodor Wiesengrund. Ensaios sobre psicologia social e psicanálise. São Paulo: Unesp, 2015a.

ADORNO, Theodor Wiesengrund. Teoria Freudiana e o padrão da propaganda fascista. IN:ADORNO, Theodor Wiesengrund. Ensaios sobre psicologia social e psicanálise. São Paulo: Unesp, 2015b.

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