O império e suas armas – Terceira parte (a guerra do Brasil), por Nilson Lage

No caso do Brasil, tomado em conjunto, dois foram e são relevantes: a vulnerabilidade dos formadores de opinião a surtos depressivos, em que a autoestima se abala e o passado se avilta; e o viés autoritário, que alimenta, nos escalões intermediários, ressentimento, desprezo e ódio pela base da sociedade.

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O império e suas armas – Terceira parte (a guerra do Brasil)

por Nilson Lage

Em tempos difíceis, 

lembrem êxitos do passado, 

augurem futuro radiante, 

e tenham coragem.”

(Mao Tse-Tung, em tradução livre)

A guerra dos Estados Unidos contra o Brasil — iniciada em 1945 e que, agora, parece prestes a concluir, de um modo ou de outro — propõe este questionamento: há 170 anos, a ideologia é tida como projeção na percepção coletiva de embates essencialmente econômicos; chegou a hora de refletir mais profundamente sobre a dialética dessa relação e o efeito das ações que, manobrando a tecnologia em contexto liberal, visam o domínio das consciências..

Trata-se de uma agressão de natureza dominantemente psicossocial, voltada para as classes intermediárias, mas também para a base da sociedade. 

Para que se efetivasse, o Brasil tornou-se mais conhecido, em vários aspectos, pelos norte-americanos do que por qualquer brasileiro. Foram exploradas a estrutura oligárquica estaduaiss, o  corporativismo e o compadrio; identificados os latentes choques étnicos e culturais; esmiuçadas as instituições do Estado nacional; e corroído, até onde foi possível, o amálgama (reduzido, nesse discurso, à condição de “hipocrisia”) que cimentando contradições, dava ao país única e surpreendente imagem de convivência pacífica. 

Por que o caminho demorado de infiltração e implosão foi o escolhido, e não ação armada, como tantas nesse período, da Guatemala à Síria? Basicamente porque países grandes e populosos como o Brasil não podem ser ocupados e dificilmente vencidos pela força, por mais frágeis que sejam suas defesas militares.

Toda alavanca de persuasão depende de pontos de apoio. 

No caso do Brasil, tomado em conjunto, dois foram e são relevantes: a vulnerabilidade dos formadores de opinião a surtos depressivos, em que a autoestima se abala e o passado se avilta; e o viés autoritário, que alimenta, nos escalões intermediários, ressentimento, desprezo e ódio pela base da sociedade. Esta, tornada carente de ação solidária pela crise do sacerdócio católico no papado de João Paulo II, seria facilmente cooptada pela maré das igrejas-negócio, de denominação cristã mas ideologia compatível com aqueles negociantes e financistas que, segundo relatos do Novo Testamento, Jesus expulsou do templo de Jerusalém.

A depressão é provavelmente eco ou herança do sebastianismo, sentimento de perda que marcou a decadência do império português após a batalha de Alcácer-Quibir, em que morreu o rei Sebastião, em 1578. Eça de Queirós, no quarto final do Século XIX, em um rascunho de novela não publicado em vida, relata suposta invasão de Portugal por tropas inglesas e resume o sentimento coletivo em uma sentença típica: “É uma choldra”. 

Fora períodos breves e extremados de exaltação, a tendência à autodepreciação se alimenta de versões que situam em passado local e remoto — e não nas circunstâncias e pressões externas sobre este país dependente — as raízes da frustração dos projetos de autonomia e prosperidade.

Quanto à feição radical e violenta das burocracias — comum em toda a América Latina, mas acentuada no Brasil — decorre do encargo brutal de, a serviço de ínfima minoria de senhores, conter a massa de brancos pobres, mestiços, índios e negros — escravos, libertos ou foragidos — que constituiu a base primeira de nossa população. 

A brutalidade desses embates é geralmente omitida nos livros de História, embora presente, tanto agora quanto antes. Ela se manifesta não apenas nos choques físicos, mas também na constituição de uma cultura bacharelesca em que a Justiça se distribui de maneira diferente conforme a classe social dos beneficiários, litigantes ou réus. Considerando que o Direito foi o caminho escolhido pelos colonizadores para formação de seus primogênitos — incumbidos de tomar terras e calar resistências –, não surpreende a visão de mundo que alimenta o punitivismo ser tão comum, não só entre magistrados, promotores e policiais, mas também nas classes médias e populares. 

Não é diferente o percurso histórico da ação repressiva no passado nos Estados Unidos, mas, lá, alguns contrapesos que aqui não existem foram introduzidos. Quando militares, policiais, magistrados e professores de Direito foram induzidos a importar procedimentos, conceitos e doutrina norte-americanos — leituras radicais decorrentes da  common law inglesa, inculpação por probabilidade, uso abusivo de armas etc, — dissolveu-se facilmente o verniz de civilidade e garantia universal de direitos impresso na retórica jurídica e evidente em episódios como a campanha pela abolição da escravatura.

Quando a ideologia assume o comando

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A suposição de que a política responde automaticamente à economia tem sido frequentemente criticada, mas é raro que se coloque a questão de como a ideologia consegue reverter por longo tempo um percurso econômico previsível. Trata-se do caso de produtores que, ao receber estímulos do Estado, embora convenientes e lucrativos, comportam-se no oposto ao que seria racionalmente seu próprio interesse..

Essa é uma questão teórica interessante e atual.

O  processo que levou à eleição de Bolsonaro e à sufocação do setor produtivo brasileiro não é novidade. Como contou Gilberto Maringnoni em artigo recente, no GGN, Getúlio Vargas, no início da década de 1930, comandou uma política anticíclica — pré-keynesiana — ao promover a industrialização com saldos resultantes da política de valorização do café. Os beneficiários, no entanto, burgueses de São Paulo, arrumaram “uma ideologia liberal postiça para chamar de sua”.

Não diria dessa forma. Preferiria sustentar que os barões do café, tornados industriais, continuaram a ser barões do café — como tal, atentos aos mercados centrais e incapazes de pensar o Brasil como nação.

O deslocamento,nas últimas décadas, do núcleo de poder das grandes empresas industriais para corporações bancárias — coisa que se observa na composição do governo americano (e do Conselho de Relações Exteriores) ou na montagem da União Europeia — reforçou essa tendência, ao proporcionar fontes de recursos e, principalmente, vias atraentes de aplicação de capital, embora arriscadas (a crise de 2008 e, em particular, a descapitalização de empresas sólidas, como a Sadia, então em  plena fase de expansão); não foi, como se vê, o que a crioua criou.

A oposição ao projeto de um segmento empresarial efetivamente nacional de liderar o progresso da Nação, independente e autônoma, vem desde a fundação da USP, e o início da luta teórica contra qualquer discurso que assumisse identidade cultural diferenciada e integradora da população — ascensão social de multidões excluídas, convivência étnica, soft power e gestão política das relações exteriores,  aproximação com países não centrais e promoção de formas elaboradas de arte fundadas em culturas regionais diversificadas. Trata-se de uma visão que pressupõe a inviabilidade desse caminho e a necessidade de preservar o alinhamento com a potência dominante herdeira do passado colonial.

A liquidação da Panair do Brasil, de uma coleção de outras empresas importantes e da imprensa diversificada — burguesa — que tínhamos, no imediate o após o golpe de 1964 antecipa uma conduta que se acentuaria com a maré global do neoliberalismo, nas décadas de 1980 e 1990. Como aconteceu com a fabrica de linhas de cozer de Delmiro Gouveia, em 1919, jogamos as máquinas no rio e os barões do café, agora assustados embaladores de importados e investidores em bolsas, tratam de reassumir o papel dos bandeirantes, dispostos a desbravar esse país enorme, que eles não conhecem, dialogando com as cortes do reino ou império.

Não se sabe se serão necessários.

É do senso comum que o domínio da opinião pública se efetiva essencialmente por via do controle dos meios de comunicação de massa. Recentemente, com a hegemonia da Internet, modelos estocásticos têm sido implementados, ora com base nos nódulos em que se difundem as informações em rede, ora na inundação de mensagens com diferentes objetivos estratégicos, por operadores humanos, automáticos ou geridos por inteligência artificial.

De fato, a arte oferecida às massas embute valores interesseiros, Isto é evidente nos seriados de TV financiados, direta ou indiretamente, por agências do governo norte-americano, em que os vilões variam com o tempo: já foram alemães, japoneses, russos, chineses, cubanos, ultimamente norte-coreanos e traficantes alojados, por absurdo, na bloqueada Venezuela. Há pregações mais sutis em histórias que promovem o individualismo e a segmentação entre as diferentes faces do humano — grupal, sexual, agressiva-libertária, possessiva etc.; sublimam, suprimem, regridem ou degradam convenientemente impulsos natos da espécie.

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