26 de junho de 2026

O lucro que vem do esgoto, por Ricardo de Sousa Moretti e Edson Aparecido da Silva

Apesar de lucro bilionário, Sabesp não investe no tratamento de esgoto no Estado de São Paulo
Foto: Divulgação

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por Ricardo de Sousa Moretti* e Edson Aparecido da Silva**, da Rede BrCidades

Na ótica da qualidade de vida urbana, do meio ambiente, ou da saúde pública, a pergunta do título parece ter uma resposta óbvia demais. Quem ousaria dizer que é conveniente que praias fiquem impróprias para o banho, que rios inteiros sejam transformados em valões de esgoto, que se gaste bilhões de reais em tratamento de doenças de transmissão hídrica, quando com gastos muito menores em saneamento estas doenças praticamente não existiriam?

As prestadoras de serviço de saneamento seguem lançando parte significativa dos esgotos coletados, sem tratamento, nos corpos d’água. Alguém pode pensar que é apenas por falta de recursos para que se faça o tratamento, mas com certeza a questão não é tão simples. Algumas prestadoras de serviço de saneamento que apresentam lucros bilionários, simultaneamente apresentam resultados péssimos com relação ao tratamento de esgotos e proteção dos corpos d’água.

Na ótica exclusivamente dos bons resultados financeiros das prestadoras de serviços de saneamento, que é a ótica hegemônica mesmo nas prestadoras públicas, tratar esgotos pode ser considerado um mau negócio. Caso avance a privatização dos serviços não há dúvida que esta ótica será reforçada.  Diferentemente do que acontece em vários países mais desenvolvidos, não há uma cobrança efetiva de resultados sobre a melhoria da qualidade dos corpos d’água no Brasil. As metas principais são físicas, de ampliação de domicílios atendidos pelas redes. E na maior parte dos casos, as prestadoras de serviços de saneamento recebem tarifas pelo fornecimento de água e outro igual tanto pela coleta de esgotos, quer  sejam tratados ou não. Nesta ótica, por que a pressa em tratar os esgotos, então?

Fonte: A Precificação dos Serviços de Saneamento de Água e Esgoto e o Objetivo Social. Dissertação de Sávio Mourão Henrique, 2017, p.59

São Paulo apresenta um quadro ilustrativo nesta discussão. A SABESP, prestadora de serviço estadual, que atende 375 municípios no Estado, apresentou lucros da ordem de  2,3 bilhões de reais líquidos em 2021. Esse positivo quadro financeiro não é acompanhado pela rápida evolução do tratamento de esgotos. Na Região Metropolitana de São Paulo, que é onde se concentram os maiores faturamentos da prestadora, é muito difícil encontrar um corpo d’água que não esteja completamente comprometido pelo lançamento de esgotos sem tratamento. A SABESP é uma empresa de capital aberto, que tem ações negociadas na bolsa, e o governo do Estado de São Paulo, por enquanto, detém 50,31% de suas ações. Os resultados financeiros da prestadora estadual nos últimos anos fazem com que seja surpreendente a atual proposta de uma privatização total da empresa. Cumpre destacar que o governo do Estado de São Paulo recebe anualmente algumas centenas de milhões de reais de dividendos distribuídos pela lucrativa empreitada. Recursos que, na sua maior parte, infelizmente, não são reinvestidos em saneamento, indo simplesmente reforçar o caixa geral do governo estadual.  Importante exceção é o Programa Pró-Conexão, criado em 2012, com o objetivo de conectar as instalações sanitárias de clientes de baixa renda às redes de coleta e beneficia famílias que recebem até três salários-mínimos mensais. Nestes casos, os custos de instalação são divididos entre a Sabesp e o Governo do Estado, que custeiam 20% e 80% das obras, respectivamente.

O Estado de Minas Gerais teve uma experiência exemplar, de separação da tarifa de esgotamento sanitário em duas parcelas, sendo uma referente ao serviço de coleta dos esgotos e outra referente ao seu tratamento. É um procedimento lógico e justo, que visa impulsionar o interesse da prestadora de serviços de saneamento em avançar mais rapidamente no tratamento dos esgotos coletados. Esta orientação vai na direção das conclusões dos estudos realizados pela Universidade Federal do ABC, que apontaram a necessidade de revisar os procedimentos de tarifação e cobrança pelos serviços de saneamento, para efetivamente assegurar a universalização dos serviços. O então  pesquisador deste grupo, Savio Mourão Henrique, foi nomeado Conselheiro de Orientação de Saneamento da Agência Reguladora dos Serviços Públicos do estado de São Paulo, (ARSESP) representando a Federação Nacional dos Urbanitários (FNU) e conseguiu mobilizar esforços para debater e aprovar a mudança dos critérios tanto da aplicação da tarifa social dos serviços de saneamento, como da cobrança pelos serviços de esgotamento sanitário, separando-se a cobrança pela coleta daquela feita para tratamento dos esgotos.

A discussão sobre mudanças da estrutura tarifária aconteceu durante o ano de 2020 e foram formalizadas na Deliberação nº 1.150, de abril de 2021, da ARSESP onde se previa a separação da tarifa de esgotos em duas parcelas, uma relativa à coleta e outra relativa ao tratamento dos esgotos. Surpreendentemente, em março de 2022, a ARSESP publicou a Deliberação nº 1.278 que versa sobre o reajuste tarifário de 12,8% das tarifas e que sem justificativas convincentes, suspende a aplicação dos novos critérios tarifários, inclusive o de cobrança separada pela coleta e tratamento de esgotos.

A deliberação da ARSESP que suspende a aplicação da nova estrutura tarifária constitui um sério, grave e desrespeitoso retrocesso, num contexto em que a prestadora dos serviços de saneamento não consegue cumprir a contento sua função social de tratamento dos esgotos coletados, apesar dos excelentes resultados financeiros que apresenta.

Entende-se que é fundamental que se cumpra o que foi originalmente previsto na estrutura tarifária aprovada e que o serviço de coleta e tratamento de esgotos seja remunerado de forma diferenciada, como forma de impulsionar o efetivo tratamento dos esgotos. Considera-se ainda que a ARSESP precisa incorporar metas de evolução da qualidade dos corpos d’água que se reflitam na remuneração dos serviços de saneamento, seguindo uma tendência que já foi adotada há décadas em países que conseguiram mudar o patamar da qualidade da água no ambiente urbano, fator primordial para que se consiga avançar também na redução das doenças de transmissão hídrica.

Não podemos aceitar que nossas praias, que nossos córregos e rios sigam como simples valas de lançamento de esgotos sem tratamento.

Texto original disponível em: https://www.holofotenoticias.com.br/eco/apesar-de-lucro-bilionario-sabesp-nao-investe-no-tratamento-do-esgoto-no-estado-de-sao-paulo

*Ricardo de Sousa Moretti é professor do Programa de Planejamento e Gestão do Território da UFABC, integrante do Conselho de Orientação do ONDAS- Observatório Nacional dos Direitos à Água e ao Saneamento e colaborador da Rede BrCidades.

**Edson Aparecido Silva é Mestre em Planejamento e Gestão do Território pela UFABC e Secretário Executivo do ONDAS – Observatório Nacional dos Direitos à Água e ao Saneamento

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem um ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected].

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  1. ze sergio/sorocabanoburaco

    11 de agosto de 2022 5:28 pm

    Apesar do Lucro Bilionário da SABESP, o Paulista fica de fora deste lucro nos seus ganhos, mas amarrado a pagá-los nos seus custos e tarifas. Apesar do Lucro Bilionário das ESTRADAS PRIVATIZADAS de CCR e tantas outras, o Paulista fica de fora deste lucro nos seus ganhos, mas amarrado a pagá-los nos seus custos, tarifas e pedágios. APESAR DOS LUCROS BILIONÁRIOS de TELESP, TELEBRAS, CSN, AEROPORTOS, PORTOS, CIA. DOCAS de SANTOS, CEDAE, FURNAS, PETROBRÁS, VALE do RIO DOCE e suas milhares de Minas de Ferro, Bauxita, Cassiterita, Ouro, Diamantes, Prata, Brilhantes, Nióbio,…os Brasileiros ficam de fora deste espetáculo devido ao Projeto de Poder destes 92 anos. Indústria do Atraso, Analfabetismo, Miséria. O Projeto Esquerdopata-Fascista implantado pelo Ditador Assassino e perpetuado por seus Lacaios e Nepotismo que sobreviveu até 2018, esperando pela última pá de cal, agora em 2022. Já fede muito, deveria ter sido enterrado lá mesmo em 1930. 30 milhões de famintos, brigando por ossos? 40 anos de farsante e corrupta Redemocracia de Anistiados de 1979. Pobre país rico. Mas de muito fácil explicação.

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