O país que já não precisa de engenheiros
Evasão, desinvestimento e o esvaziamento da base técnica do Brasil
por Celso Pinto de Melo
| “Numa economia moderna, quem domina a tecnologia decide o que é possível” Ha-Joon Chang [†] |
Há fenômenos que parecem circunscritos a um domínio específico, mas que, observados com atenção, revelam algo mais profundo sobre a sociedade que os produz. A evasão nos cursos de Engenharia no Brasil é um deles. A questão costuma ser tratada como um problema educacional – dificuldade dos cursos, lacunas na formação básica, desalinhamentos pedagógicos. Tudo isso existe, mas não explica o essencial.
O essencial é outro. A evasão em Engenharia deixou de ser apenas um problema da universidade para se tornar um sintoma do país.
Durante décadas, a Engenharia ocupou no Brasil um lugar central na imaginação do desenvolvimento. Não apenas como profissão, mas também como linguagem do futuro. Construir estradas, usinas, pontes, sistemas industriais – tudo isso fazia parte de um horizonte coletivo em que a transformação material do território se confundia com a própria ideia de progresso. Formar engenheiros era, nesse contexto, uma forma de projetar o país no tempo.
Esse horizonte se estreitou.
Quando o esforço perde o horizonte
Os dados mais recentes mostram que os cursos de Engenharia convivem com taxas elevadas de evasão, frequentemente superiores a 40%, com menos da metade dos ingressantes concluindo o curso no tempo esperado [1]. A dificuldade intrínseca desses cursos é frequentemente invocada como explicação, mas esse argumento, embora verdadeiro, é insuficiente. Cursar engenharia nunca foi fácil – e, ainda assim, esse diploma já figurou entre os mais desejados.
O que mudou não foi a natureza do conhecimento exigido.
Foi a relação entre esse conhecimento e o mundo em que ele se insere.
O estudante que hoje ingressa em um curso de Engenharia não está apenas diante de um desafio intelectual. Está diante de uma aposta. E essa aposta se tornou mais incerta. O tempo de formação é longo, a exigência é alta e o horizonte profissional tornou-se difuso. Não é incomum que engenheiros recém-formados não atuem na área ou migrem rapidamente para ocupações mais dinâmicas do ponto de vista remuneratório. A própria ideia de uma carreira técnica estruturada perdeu consistência [2].
Essa percepção não nasce do acaso. Ela reflete transformações profundas na economia brasileira. Ao longo das últimas décadas, o país experimentou uma perda gradual de densidade industrial. A participação da indústria de transformação no valor adicionado bruto recuou de forma persistente (Fig. 1), indicando não apenas uma mudança na composição setorial, mas também uma alteração mais profunda na capacidade de sustentar atividades produtivas complexas [3].

Essa transformação não é neutra. A Engenharia depende de um ambiente específico: investimento, continuidade, coordenação. Ela se alimenta de projetos de longa duração, de cadeias produtivas densas, de sistemas técnicos integrados. Quando esses elementos se enfraquecem, a Engenharia não desaparece – mas se fragmenta, se precariza, perde centralidade.
O país que parou de investir em si mesmo
É nesse ponto que a noção de regimes de investimento se torna decisiva. Houve, na história econômica brasileira, momentos em que o investimento – especialmente o investimento público – operava como eixo organizador da economia. Infraestrutura, energia, indústria de base: esses setores não apenas absorviam engenheiros, mas também estruturavam trajetórias profissionais e difundiam capacidades técnicas.
Esse regime foi progressivamente substituído por outro (Fig. 2). A taxa de investimento, que chegou a cerca de 21% do PIB no início da década de 2010, recuou para patamares próximos de 15%–17% nos anos seguintes, com uma recente recuperação apenas parcial [4, 5].

A redução da taxa de investimento é a face mais visível de uma mudança mais profunda. O investimento público perdeu protagonismo, o horizonte de planejamento se encurtou e a coordenação estatal se enfraqueceu. No lugar de um sistema orientado à expansão produtiva, consolidou-se uma lógica mais fragmentada, mais dependente de retornos de curto prazo, menos capaz de gerar encadeamentos tecnológicos.
A Engenharia, nesse novo regime, deixa de ser central.
A partir de meados da década de 2010, esse processo sofreu uma inflexão particularmente aguda. A desorganização das grandes empresas de construção pesada e de engenharia, no contexto da Operação Lava Jato, produziu efeitos que ultrapassam o campo jurídico, afetando diretamente a estrutura produtiva nacional [6].
A dimensão dessa ruptura aparece com clareza quando se observa o comportamento do emprego formal em setores intensivos em engenharia – atividades que concentram demanda por profissionais da área. Como se vê na Tabela 1, houve uma queda substancial nos níveis absolutos de emprego, enquanto a Fig. 3 evidencia a tendência de contração ao longo do período.
| Tabela 1 – Emprego formal em setores intensivos em engenharia (2012–2024) [2]. | |||
Setor | 2012 | 2024 | Variação (%) |
| Construção pesada | 500.000 | 300.000 | -40 |
| Óleo e gás | 200.000 | 150.000 | -25 |
| Infraestrutura | 350.000 | 250.000 | -28 |
Entre o período anterior à Lava Jato e os anos recentes, houve uma contração significativa nesses segmentos, especialmente na construção pesada e em atividades ligadas à infraestrutura, com quedas estimadas entre 30% e 40% [2]. Não se trata, portanto, apenas de uma redução no número de engenheiros empregados, mas de uma contração mais ampla do ecossistema produtivo que sustenta a própria prática da engenharia.

O que esses dados revelam é menos uma crise conjuntural do que uma mudança de regime. Não se trata apenas de menos empregos, mas de uma redução da capacidade de gerar empregos qualificados em larga escala. Trata-se, em última instância, de uma contração do espaço social da Engenharia.
Quando se amplia o olhar para a comparação internacional, o quadro se torna ainda mais nítido. Países que ocupam posições centrais na economia mundial preservam uma base robusta de formação técnico-científica (Tabela 2).
| Tabela 2 – Formação em engenharia e STEM: comparação internacional (% dos concluintes do ensino superior) [7-9]. |
| País | Engenharia (%) | STEM total (%) | Observação |
| Alemanha | 22 | 35–38 | Forte base industrial |
| Estados Unidos | 7,3 | 19–21 | STEM diversificado (TI, ciências) |
| Reino Unido | 9 | 22–25 | Perfil intermediário |
| China | 33 | 40–45 | Forte foco em engenharia |
| Brasil | 8,9 | 16,2 | Baixa densidade relativa |
Na Alemanha, a engenharia responde por cerca de 22% dos concluintes do ensino superior; no Reino Unido, cerca de 9%; e na China, aproximadamente 33%. Nos Estados Unidos, embora a participação seja menor (cerca de 7,3%), ela se insere em um sistema mais amplo de formação em STEM (do acrônimo em inglês para ciência, tecnologia, engenharia e matemática), que assegura elevada densidade técnico-científica no conjunto.
O Brasil, por sua vez, combina uma participação relativamente baixa em engenharia (8,9%) com uma baixa presença de STEM no total (16,2%) [7]. No entanto, a aparente proximidade entre os percentuais de engenharia no Brasil e nos Estados Unidos esconde uma diferença estrutural: nos EUA, a engenharia integra um ecossistema amplo, diversificado e fortemente articulado à estrutura produtiva; no Brasil, representa uma fração maior em um sistema mais restrito e menos capaz de absorver e mobilizar essas competências.
Não se trata, portanto, de uma simples diferença de perfil, mas de posição. Em um mundo marcado por disputas tecnológicas cada vez mais intensas, a formação de cientistas e engenheiros deixou de ser apenas uma questão educacional: tornou-se um ativo central da soberania nacional.
Sem engenharia, o país não lidera cadeias: carrega minério, compra turbina, licencia software e terceiriza o futuro.
Essa não é uma metáfora.
É uma descrição.
Diante disso, a evasão adquire outro significado. O estudante que abandona o curso não está apenas mudando uma trajetória individual. Ele está respondendo, muitas vezes de forma intuitiva, a um ambiente em que o investimento é insuficiente, as oportunidades são incertas e as trajetórias profissionais são fragmentadas.
A evasão não é um desvio. É um indicador.
Ela revela uma crescente desconexão entre o sistema de formação e a estrutura produtiva. Revela que o país continua tentando formar profissionais para um tipo de economia que já deixou de existir ou não é mais dominante.
A pergunta, então, precisa ser reformulada. Não é por que os estudantes abandonam a Engenharia. É por que o Brasil deixou de precisar de engenheiros.
No fundo, trata-se de uma escolha: o país que queremos ser.
O lugar do Brasil quando deixa de construir
A resposta não está na sala de aula, nem pode ser resolvida apenas por reformas curriculares ou ajustes pedagógicos. Ela remete à ausência de um projeto de desenvolvimento capaz de articular investimento, produção e inovação em escala.
Sem esse projeto, a Engenharia deixa de ser central.
E quando a Engenharia deixa de ser central, o país deixa de ser protagonista.
No limite, a evasão nos cursos de Engenharia não fala apenas sobre a educação. Fala sobre o lugar do Brasil no mundo. Fala sobre um país que, ao reduzir sua capacidade de investir e de organizar o futuro, começa também a reduzir sua capacidade de formar aqueles que poderiam construí-lo.
Talvez o dado mais inquietante não esteja nas taxas de evasão, nem nos gráficos de investimento ou de emprego. Ele está na mudança silenciosa de horizonte.
Um país começa a deixar de precisar de engenheiros muito antes de deixar de formá-los.
Começa quando deixa de imaginar obras, sistemas, projetos. Quando troca planejamento por improviso, coordenação por fragmentação, futuro por presente imediato.
E, quando isso acontece, algo mais profundo se desloca.
O país deixa de ser um espaço de construção – e passa a ser um espaço de adaptação.
E, nesse ponto, a evasão deixa de ser apenas um número. Passa a ser um presságio.
Bibliografia
1. Inep, Censo da Educação Superior 2022. 2023. https://www.gov.br/inep/pt-br/areas-de-atuacao/pesquisas-estatisticas-e-indicadores/censo-da-educacao-superior?utm_source=chatgpt.com.
2. Brasil. Ministério do Trabalho, RAIS 2022. 2022. : https://www.gov.br/trabalho-e-emprego/pt-br/assuntos/estatisticas-trabalho/rais.
3. IBGE, Sistema de Contas Nacionais. 2023. https://www.ibge.gov.br/estatisticas/economicas/contas-nacionais.html.
4. IBGE, Contas Nacionais e taxa de investimento. 2024. https://www.ibge.gov.br/estatisticas/economicas/contas-nacionais.html.
5. World Bank, World Development Indicators. 2024. https://www.ibge.gov.br/estatisticas/economicas/contas-nacionais.html.
6. CNI, Impactos da Lava Jato na indústria. 2020. https://www.portaldaindustria.com.br/publicacoes/.
7. OECD, Education at a Glance 2023. 2023: Paris. https://www.oecd.org/education/education-at-a-glance/.
8. National Center for Science and Engineering Statistics, International comparisons of S&E higher education. 2023. https://ncses.nsf.gov/pubs/nsb20232.
9. Eurostat, Tertiary education statistics. 2024. https://ec.europa.eu/eurostat/statistics-explained/index.php?title=Tertiary_education_statistics&utm_source=chatgpt.com.
[†] Economista sul-coreano, professor da Universidade de Cambridge, conhecido por seus trabalhos sobre desenvolvimento econômico e crítica às estratégias liberais aplicadas a países periféricos.
Celso Pinto de Melo – Professor Titular Aposentado da UFPE – Pesquisador 1A do CNPq – Membro da Academia Brasileira de Ciências
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Rui Ribeiro
14 de abril de 2026 9:40 amMoro, Dallganol e Farsa a Jato deram um golpe fatal na engenharia brasileira em benefício da engenharia dos EUA.
Fatima Militão
14 de abril de 2026 1:25 pmExcelente reflexão, sempre aprendo ao ler os textos de Celso Melo.
Veritas
14 de abril de 2026 2:16 pmA falta de investimentos, o desinteresse, a evasão e a baixa formação de engenheiros civis no Brasil é algo lastimável, sobretudo se consideramos os seguintes déficits, que não têm se alterado significativamente nos últimos 20 anos.
Déficit habitacional: aproximadamente 5.900.000 domicílios.
Déficit de saneamento: cerca de 100 milhões de pessoas sem coleta de esgoto e 35 milhões sem água potável.
Déficit ferroviário: malha atual, com cerca de 30 mil km, é inferior aos aproximadamente 35 mil km existentes em 1949, representando um retrocesso.
Déficit rodoviário: déficit de aproximadamente R$ 100 bilhões para recuperar rodovias, com 67% da malha avaliada como regular, ruim ou péssima, segundo a CNT.
Déficit metroviário: só em São Paulo, a rede atual é considerada menos da metade do ideal, com necessidade de grandes investimentos para expansão.
Déficit hidroviário: há grande subutilização do potencial dos rios navegáveis, que chega a 20.000 km comerciais.
grevista
15 de abril de 2026 2:37 pmO silêncio do sistema CONFEA diz tudo a respeito do tema. É interessante comparar com as ações do CFM e da OAB frente ao que (nada) faz o CONFEA.