O perigo das neo-terapias salvadoras do imediatismo, por Matê da Luz

O perigo das neo-terapias salvadoras do imediatismo

por Matê da Luz

Coach, barras de access, tethahealing, EFT… se você vive neste século muito provavelmente já ouviu falar sobre estas técnicas terapêuticas, as neo-terapias. Talvez eu seja um tanto quanto crítica a estas práticas pelo simples motivo de ser old-school, das antigas mesmo, e acreditar que para alguns processos não existem atalhos e, portanto, a terapia convencional, psicologia, psiquiatria, essa coisa toda que exige anos de estudo e aprofundamento, amparada por órgãos reguladores etc e tal, bem, que estes sejam caminhos mais seguros pra tratar de algo tão fundamental quanto a saúde mental.

Nunca, em tempo algum, houve tanta atenção quanto à temática das doenças psíquicas. Daí, claro, desde que o mundo é mundo, acontece a lei da oferta e procura: quanto mais gente doente, maior o campo das curas ofertadas. Aos meus olhos, é aí que mora o perigo. Afinal de contas, quantos destes neo-terapeutas está devidamente embasado para curar a mente de um indivíduo? Para estar credenciado com aptidão para conduzir a aplicação das barras de access, uma técnica que por meio da pressão de diferentes pontos na cabeça permite  “que comecemos a desfazer todos os pensamentos, ideias, atitudes, decisões e crenças limitadoras que bloqueiam e atrasam a nossa vida.” – uma promessa e tanto, não é mesmo? – por exemplo, uma pessoa passa por um curso de oito horas. Oito horas para estar apto a promover uma mudança enorme e fundamental para a vida de pelo menos 99% da população mundial.

Os coaches, por sua vez, têm origem em práticas de treinamento que são de fato eficazes para questões práticas e até pontuais, vá lá. Coach, em inglês, é treinamento. Pode ser minha personalidade dramática, mas eu acho um ultraje que alguém venha me dizer que é “coach em perdão”, uma vez que esta temática vem sendo abordada desde os tempos bíblicos como umad as primordiais para a humanidade. A impressão que eu tenho é que existe um quê de aproveitar a necessidade emergencial de todo mundo no contexto atual pra propor uma cura, um caminho curto, rápido e sei lá se eficaz, pois essas técnicas têm menos que 10/15 anos em prática, enfim, tenho resistência em achar que tudo isso é de fato indolor, que não trará sequelas graves pra esta já doente sociedade imediatista. Mas pode ser que eu só seja old-school, das antigas mesmo.

Acho que sou burra/imbecil/idiota, pois me encaminho para a faculdade de psicologia, economizando centavos e predispondo pelo menos cinco anos dos meus já passados trinta para me tornar uma profissional completa e apta a lidar com a profundidade dos problemas psíquicos da humanidade, enquanto um pessoal estuda um final de semana e sai curando quase tudo o que existe de problema por aqui e acolá, ganhando muito dinheiro, é claro, com tudo isso. Mas, ainda, seja por intuição, antiguidade ou credibilidade mesmo, ainda acho caríssimo o valor do curto caminho longo, como bem exemplifica o rabino Nilton Bonder em A Alma Imoral: “Há um olhar que sabe discernir o certo do errado e o errado do certo. Há um olhar que enxerga quando a obediência significa desrespeito e a desobediência representa respeito. Há um olhar que reconhece os curtos caminhos longos e os longos caminhos curtos. Há um olhar que desnuda, que não hesita em afirmar que existem fidelidades perversas e traições de grande lealdade. Este olhar é o da alma.”

Sabendo e sentindo minha alma pulsar tranquila, sigo, seguimos. 

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