A contradição entre o desempenho dos mercados financeiros e o aumento da instabilidade internacional pode ser explicada por três forças que deverão moldar a economia e a política internacional nos próximos anos: a expansão acelerada da inteligência artificial, o avanço do protecionismo e o aumento dos chamados “riscos de cauda” — eventos de baixa probabilidade, mas com potencial de causar impactos globais devastadores.
A afirmação é do cientista político e analista de risco geopolítico Ian Bremmer, que sustenta que a inteligência artificial se tornou o principal motor da valorização dos mercados.
Em artigo publicado no Project Syndicate, Bremmer sustenta que a tecnologia avança em um cenário de fragmentação política internacional que dificulta qualquer tentativa efetiva de regulação.
A segunda transformação apontada pelo especialista é a mudança do paradigma econômico que predominou desde o final do século XX, que começa a dar lugar para uma lógica mais nacionalista e protecionista, e que tem sido acelerada pelo governo do presidente norte-americano Donald Trump graças ao uso de instrumentos comerciais e financeiros para pressão geopolítica.
Embora iniciativas recentes de integração comercial envolvendo a União Europeia, a Índia e o Mercosul indiquem resistência a esse movimento, Bremmer avalia que o protecionismo político tende a permanecer como uma característica estrutural da economia internacional nos próximos anos.
O terceiro fator identificado pelo analista é o aumento dos chamados riscos de cauda — cenários extremos capazes de provocar choques significativos na economia e na segurança internacionais, uma vez que a perda de previsibilidade da política externa norte-americana tem levado aliados e adversários dos Estados Unidos a recalibrar estratégias, ampliando incertezas em diferentes regiões do mundo.
Bremmer também destaca riscos associados à falta de coordenação internacional em áreas emergentes: a ausência de mecanismos globais eficazes para regular a inteligência artificial, combinada ao desenvolvimento de novas tecnologias militares, pode tornar futuros conflitos mais imprevisíveis e destrutivos.
Para o analista, o cenário mais provável é a continuidade do crescimento impulsionado pela revolução tecnológica da inteligência artificial, em meio a um ambiente internacional marcado por maior fragmentação política, aumento das disputas geopolíticas e elevação dos riscos sistêmicos.
Rui Ribeiro
9 de junho de 2026 5:55 amResumo da nossa jornada de aprendizado (para você salvar)
Aqui está o que discutimos e que você pode resgatar comigo a qualquer momento:
A Explosão da Oferta: Existem milhares de IAs e a tendência é de crescimento acelerado pelo barateamento e especialização.
Estratégia dos Modelos Abertos: Empresas como a Meta liberam os pesos dos modelos (como o Llama) para criar padrões de mercado e terceirizar a inovação com a comunidade.
A Polêmica da DeepSeek: A startup chinesa foi acusada pelo Ocidente de model stealing (destilação de conhecimento), copiando o raciocínio das IAs americanas mais baratas.
O Paradoxo da Escada: A contradição das empresas ocidentais que treinaram suas IAs usando dados de toda a internet, mas tentaram proibir concorrentes de usarem suas respostas.
A Bolha de IA: O descompasso entre os investimentos bilionários em infraestrutura e o lucro real gerado.
Fortunas de Papel: Como fundadores viraram bilionários com base na expectativa de valorização de ações (valuation), e não necessariamente pelo lucro atual das empresas de IA.
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