O que estamos esperando?, por Clarisse Gurgel

A tal “manobra midiático- jurídico-parlamentar” que resultou na queda de Dilma parece ter sido o ensaio cínico da política em quarentena.

O que estamos esperando? 

por Clarisse Gurgel

A máscara de Bolsonaro não caiu. Foi tirada por ele mesmo: a economia, de fato, é oposta à vida. Ao menos, a economia conduzida por ele e Paulo Guedes. Mais precisamente, a economia capitalista. Esta, de fato, é oposta à vida. De tal modo que, por trás da máscara de Bolsonaro, está revelada a disjunção entre vida e capitalismo.

Esta é uma caraterística dos psicóticos: falam as mais duras verdades e optam pelo que há de pior nelas, sem qualquer remorso. Mas há sempre uma dose de perversidade. E, neste caso, o dilema de Bolsonaro é um falso dilema: se estamos entre a economia e a vida, do lado da vida, os índices de óbito só crescem. Do lado da economia, cresce o número de miseráveis e desempregados. Do lado de cá, faltam leitos, EPI e testes. Do lado de lá, temos a continuidade da agenda neoliberal por meio de Medidas Provisórias, que seguem injetando dinheiro em bancos e empresas, sem nenhuma contrapartida, sem garantia dos empregos, e, agora, com mecanismos que afastam, ainda mais, trabalhadores de seus meios de proteção sindical e que seguem o modelo do negociado sobre o legislado.  De tal modo que, entre a economia liberal e a vida sob risco, não há muita diferença. Bolsonaro está entre a morte e a morte. E ele escolheu as duas. 

A Economia é justamente a forma como organizamos nossa vida. Em sua origem etimológica, “economia” é administrar a casa. Mais do que nunca, em quarentena, este significado tem um sentido muito claro para nós. Podemos organizar nossa casa para morrermos ou para vivermos nela. E lembremos, a economia é uma ciência, assim como a biologia. Esta – a biologia -, como uma ciência da natureza, mantem, no entanto, sua altivez, pelo objeto que investiga e as verdades irreversíveis que revela. 

Quando a ciência econômica estiver a serviço desta aptidão de revelação, produzirá verdades para além da morte. Para isto, ela tem que estar a serviço de um olhar metódico e disposto a aceitar resultados que não dependem de sua vontade. Esta é, justamente, a diferença entre a ciência e a fé. Esta última é uma aposta. Ela não se verifica e tem seus riscos como sagrado sacrifício. 

Curiosamente, este aspecto universal da ciência é o que carrega proximidade com a própria natureza da morte. Ela é para todos e, em grande medida, definitiva, determinante. Deste lúgubre estado inanimado da morte, extraímos sua máxima potência de verdade. É esta que precisamos perseguir. E só o fazemos se dirigirmos nosso olhar a verificações, a treinos, a testes, a experiências que expliquem fenômenos que se repetem. Hoje, a mudança epistemológica que está colocada, em que a biologia serve de guia para a política e a economia, instaura um ponto de partida – a instância de verdade -, que se impõe com mais força a todas as ciências. A morte, mesmo para os espíritas, é um limite. Para muitos é o fim, definitivo. É neste caráter definidor, determinante, que a morte e as decisões econômicas se encontram.

O senso de responsabilidade e de urgência precisa, portanto, estar presente não só entre os profissionais da saúde, mas entre os profissionais da política e da economia. Em especial, aqueles que atuam no campo progressista, seja nos sindicatos e nos movimentos, seja no parlamento.  A política segue sendo uma atividade essencial e sua omissão pode resultar em danos dificilmente reversíveis. Seus agentes conhecidos serão cobrados. No rumo das coisas, o médico matará no varejo e o economista matará no atacado.

Este é o caráter científico da política. Seus atores, por suas experiências em espaços coletivos com modelos decisórios coletivos, carregam uma capacidade distinta de prever o futuro. O mesmo se podendo dizer daquele que, constantemente, dedica-se a organizar o dia-a-dia de uma coletividade: a capacidade de prever o futuro, naquilo que envolve a distribuição de recursos e a garantia de dignidade a todos da comunidade. Neste esforço de previsão, não são poucas as evidencias de que o futuro do Brasil, pós-pandemia, é o desemprego em massa e a liberação generalizada da exploração. Fatos incontestáveis até para os ideólogos mais míopes, independentes, pois, de suas vontades. 

O governo Bolsonaro é caso de morte, de alta letalidade. E o que estamos esperando para encarar, com urgência e responsabilidade, esta verdade? Esta urgência, porém, só pode ser atendida se todas as ciências forjarem o lugar da verdade em suas investigações.  O caminho para isto é ético, de compromisso moral. O nome da responsabilidade social é impeachment. 

Mas o que estamos esperando? A oposição segue vacilante. Dentre as razões, está: 1. a correlação de forças no parlamento; 2. a impossibilidade de realização de protestos; 3. a clareza de que, saindo o Bolsonaro, seguirá sua equipe de parasitas, comandada, agora, pelo plácido Mourão; e 4. a máxima: “Nunca interrompa o inimigo, quando ele estiver errando”. São cálculos razoáveis. Mas não estamos em tempo de cálculo. Se queremos ir na contramão, de fato, precisamos parar de calcular. 

Ainda, assim, tratemos de cada um dos argumentos. O primeiro parece ser fruto dos demais. Isto porque, a despeito do oportunismo de Rodrigo Maia, sentado sobre vários pedidos de impeachment, uma correlação pode ser construída, desde que seus responsáveis afastem seus próprios fatores de vacilação; Quanto a estes, os obstáculos para a pressão popular parecem nos convocar a criar velhas formas de ofensiva, que conjuguem anseio de massa, consciência e impotência de massa (três fatores muito familiares à esquerda).  A tal “manobra midiático- jurídico-parlamentar” que resultou na queda de Dilma parece ter sido o ensaio cínico da política em quarentena. Lembremos que as manifestações de rua, nesta época, já eram vistas como claques dispensáveis. E, se estamos reconhecendo a importância dos enfrentamentos de rua, sua atualização implica ultrapassar seu caráter de meras demonstrações, que, sem pano de fundo e trabalho de coxia, resultaram, no mundo, em contra insurgência sem insurgência. Cabe pensar como organizar a indignação do povo, em face de Bolsonaro, de tal modo que sua queda tenha a face autêntica da pobreza e não seja meramente superestrutural; sobre a inevitabilidade da sucessão por Mourão, é preciso que entendamos a função de Bolsonaro de “ventilador pulmonar”. Bolsonaro dá o respiro, a reserva de legitimidade que precisam muitos: Globo, Guedes, Gilmar Mendes… Todos esses mantem a defesa da retirada dos direitos sociais, tendo seus lugares reservados ao céu, quando cumprem o protocolo moral de criticar os excessos de Bolsonaro. Assim, a agenda segue. E este aspecto correcional é o que nos leva ao último argumento, aquele que carrega a crença de que o presidente estaria errando. Razão pela qual não deveríamos interrompê-lo. Caberia a nós pensarmos se Bolsonaro não segue no mesmo compasso: enverga a vara bem à direita para que ela fique no meio. Assim, os servidores não são detidos, mas perseguidos, e os trabalhadores não são demitidos tacitamente, mas têm suas demissões negociadas, em condições desiguais, em um banco de horas em que o devedor é o já desempregado. 

Se Bolsonaro cai, fica exposta a verdade, que ele, sarcasticamente, expõe, e que, diante de seu horror costumeiro, nos distrai dos horrores estruturais de sua equipe. 

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