O que o Brasil não faz em Washington, por Andre Motta Araujo

Meus interlocutores dizem que impressiona no Departamento de Estado a humildade do Brasil, que se agravou neste Governo, mas não é uma novidade.

O que o Brasil não faz em Washington

por Andre Motta Araujo

Um dos maiores países do mundo, pela extensão continental do território, pelos recursos naturais e ambientais, pela população, pela História ímpar na América Ibérica, o Brasil tem uma atuação e presença pífia em Washington, como se fosse uma outra Honduras, não se apresenta como grande País, muito menos como potência regional, situação que não é deste governo apenas, mas que foi agora enormemente agravada pela subserviência.

Um grande amigo do Departamento de Estado, hoje aposentado, que também foi da cúpula do Conselho Nacional de Segurança da Casa Branca, com larga experiência nas relações com o Brasil, Argentina e Colômbia, cuja opinião é sempre solicitada em Washington, foi também por muito tempo assessor da Comissão de Relações Exteriores do Senado, especialista em América Latina. Republicano de raiz, com quem converso habitualmente, manifesta sua estranheza e, sendo amigo e admirador do Brasil, lamenta a timidez, a apatia, a falta de postura do País  que nada pede, nada exige, nada propõe, não tem presença à altura de sua grandeza geopolítica, um gigante apagado e ausente, quase que se escondendo para não ser percebido.

Não foi sempre assim, mas está sendo assim. O último grande brilho do Brasil em Washington foi no governo de Juscelino Kubtschek, quando John Kennedy era Presidente dos EUA. Juscelino propôs e Kennedy aceitou uma grande ação de desenvolvimento da América Latina com apoio dos EUA, daí surgiu a Operação Pan Americana, a Aliança para o Progresso e o Banco Interamericano de Desenvolvimento, ideias do Brasil aceitas e concretizadas.

Foi um momento alto do Brasil em Washington, pela ação vigorosa de JK, os Embaixadores foram Amaral Peixoto e Walther Moreira Salles, dois pesos pesados da cena brasileira. Peixoto, genro de Vargas e figura de proa na política e Moreira Salles, que já tinha sido antes Embaixador em Washington no segundo governo de Vargas, grande banqueiro e homem do mundo. Mas foi a ação de JK que impulsionou a presença do Brasil, assessorado por Augusto Frederico Schmidt, doublé de intelectual e homem de negócios, era bom poeta e dono da primeira rede de supermercados no País, foi o primeiro Assessor Internacional da Presidência, cargo inventado por ele.

O Brasil brilhou e liderou nessa segunda metade dos anos 50, levado por homens brilhantes, com plena consciência da importância do Brasil, ninguém era humilde e subserviente, houve forte pressão de JK sobre Washington, JK jogou na economia mais com a Alemanha do que com os EUA, justamente para mostrar a Washington que não dependia dos EUA como eles pensavam.

Meus interlocutores dizem que impressiona no Departamento de Estado a humildade do Brasil, que se agravou neste Governo, mas não é uma novidade.

A estrutura de poder nos EUA é muito diferente daquela em que os brasileiros estão culturalmente acostumados. O poder é fluido e disperso muito mais que no Brasil, um País que tem interesses nos EUA precisa atuar em muitas plataformas e não apenas na Casa Branca. A formação de consenso se dá em vários níveis, em múltiplos círculos, a burocracia e os núcleos deliberativos fluem de baixo para cima, é preciso atuar em muitas frentes.

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O Congresso é fundamental, está aberto a interação com outros países, a presença do Brasil é nula quando, sendo o maior Pais da América Latina, deveria estar todo o dia nas comissões temáticas das duas casas, o Brasil tem muitas áreas de interesse comum com os EUA, precisa estar presente de FORMA CONTÍNUA, não é de vez  em quando. A presença do Brasil também   é fundamental nas grandes instituições formativas de opinião em Washington, como o American Heritage Foundantion, o American Enteprise Institute, o Center for Strategic and International Studies, centros conservadores e também nos centros liberais como Brookings Instituition, as entidades ambientalistas. E na grande mídia, raramente sai uma matéria boa para o Brasil por falta completa de interação do governo do Brasil com a mídia americana, sempre aberta a um grande País como o Brasil.

Pouco antes da posse do atual Presidente, o jornal The Washington Post solicitou uma entrevista com o Presidente eleito, viria para entrevistar a Editora Senior do jornal, Lally Weymouth, minha amiga e para quem consegui as primeiras entrevistas internacionais de Lula e Dilma, mas agora nada feito.

O Presidente se negou a dar entrevista, que seria em espaço nobre. Lally só entrevista chefes de estado, é filha da falecida dona do jornal, Katherine Graham, uma lenda do jornalismo americano. Por que perder uma oportunidade desse quilate, para expor suas ideias e planos de governo?

The Washington Post, assim como o New York Times, é lido pela elite mundial do poder, são jornais formadores de opinião global, será que não sabem?

A ATUAL SITUAÇÃO

Se esse contexto já vem de longe, no atual governo a coisa virou surreal. O Brasil simplesmente nada pede, nada propõe, oferece vantagens de graça, não há plataforma de negociação que é o caminho tradicional da relação entre os grandes países. O Brasil tem peso geopolítico para propor e pedir trocas de vantagens recíprocas, não tem sentido dar qualquer benefício a troco de nada, isso simplesmente não existe no campo diplomático.

Até hoje não se sabe o que Brasil ganhará com a cessão da base de Alcantara, com a isenção de tarifas para o etanol de milho americano, quando o etanol brasileiro é tarifado e sempre foi tarifado para entrar nos EUA, qual a lógica da bondade do Brasil? A isenção de vistos para americanos sem reciprocidade para brasileiros é humilhante, é princípio tradicional entre países o tratamento similar entre cidadãos de cada País, sob pena de se considerar superior o que recebe isenção e inferior o que precisa de visto, algo ofensivo à dignidade de qualquer País, mesmo se pequeno fosse.

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A elite governamental e empresarial brasileira se ilude pensando que um jantar por ano em Nova York significa bom relacionamento, não vale nada ir alguma personalidade passando pelo Wilson Center ou pelas Câmaras de Comércio, o esforço deve ser mais contínuo e mais em baixo, nas assessorias, especialmente do Senado, no Conselho Nacional de Segurança, no Departamento de Energia. O que existe hoje é um relacionamento vicioso com o Departamento de Justiça CONTRA O BRASIL, CONTRA O ESTADO BRASILEIRO E CONTRA NOSSAS EMPRESAS, o Brasil só perde com esse abraço de cascáveis tramando contra os interesses econômicos brasileiros em nome de uma moral etérea, logo nos EUA, cuja História de corrupção é insuperável.

A PRESIDÊNCIA DO BID

Cito um exemplo do qual fui testemunha, a escolha do presidente do Banco Interamericano de Desenvolvimento, ideia de JK, porque NUNCA O BRASIL conseguiu a presidência desse banco, onde ninguém senta na cadeira de presidente sem apoio dos EUA, MAS outro Pais conseguiu porque muito bem relacionado em Washington, a Colômbia. Seu ex-Embaixador nos EUA, Luis Alberto Moreno foi eleito em 2005 contra a candidatura do brasileiro João Sayad, que saiu derrotado por falta de articulação com o governo dos EUA, que tem 30% dos votos. Neste ano haverá nova eleição para a Presidência do BID, dos grandes países da América Latina dois ainda não elegeram presidentes, Brasil, Argentina e Peru, mas o Peru já tem a presidência da CAF, outro banco de desenvolvimento importante da América Latina, então restam Brasil e Argentina. Pela lógica tem que ser o Brasil, o nome de Maria Silvia Bastos Marques está circulando, mas é preciso articulação, não só com os EUA, mas com todos os países membros, até com a Venezuela. Está sendo feito?

Em 2005 não foi feita articulação alguma, até a Venezuela, intima do então governo, votou contra o Brasil, assim como a Bolívia de Evo Morales.

Uma reunião preparatória da eleição se realizará em Barranquilla no próximo mês, nesta altura os acordos já deveriam estar fechados. Não adianta entrar muito tarde, como na eleição de 2005 na disputa entre Moreno e Sayad, que já estava no banco como Vice Presidente de Finanças e tinha boas chances de eleição. Perdeu por pouco, mas Moreno e o governo da Colômbia já estavam articulando há muito mais tempo. Moreno está no banco desde 2005 até hoje, ele e sua esposa Graziela davam jantares diários na conquista de votos. Algum dia conto os bastidores dessa eleição.

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O NOVO EMBAIXADOR DO BRASIL

A Comissão de Relações Exteriores do Senado acaba de aprovar por unanimidade o nome de Nestor Forster para Embaixador em Washington. O indicado nunca foi Embaixador antes desse seu primeiro posto, sua credencial é ser discípulo de Olavo de Carvalho. É inacreditável que o Senado passe batido uma indicação tão fora do usual. O Senado dos EUA, país tão adorado pelo atual titular do Itamaraty, é rigoroso para aprovar seus Embaixadores, currículo é fundamental, rejeições de indicados acontecem. O Presidente Obama teve a indicação de seu Assessor Especial Norman Eisen rejeitada para Embaixador na Tchecoslováquia. As sabatinas de indicados para Embaixadas podem durar semanas, no Senado brasileiro duram 15 minutos ou nem tem sabatina. Os Senadores brasileiros deveriam ter questionado por que o Presidente não indicou um diplomata de maior experiência para a principal embaixada do Brasil, mas evidentemente ninguém entende coisa alguma de relações exteriores e nem sabem do que trata a matéria e sua essência, votam para agradar.

O novo Embaixador, indagado sobre a situação dos BRASILEIROS DEPORTADOS, sai pela tangente com platitudes, alegando que “muitos gostam de voltar” esquecendo a situação humilhante de uma deportação de nossos patrícios, este ano já é a 3ª deportação com desembarque em Belo Horizonte.

Não deve se esperar qualquer atitude protetiva desse Embaixador, faz parte do grupo olavista chefiado pelo Chanceler Ernesto Araújo, que é absurdamente subserviente ao governo Trump e nem por sonho pensa em defender nossos nacionais caçados como bichos e chutados para fora dos EUA, como se fossem bandidos, quando são apenas brasileiros desesperados a procura de trabalho fora do Brasil, já que o desemprego lhes fecha as portas aqui.

As relações Brasil-EUA, com a rastejante humilhação frente a Trump com derivação para a mesma bajulação em relação a Israel, está causando imensos prejuízos ao prestígio e à imagem do Brasil como grande País, hoje globalmente considerado um protetorado menor dos EUA. Deveria ao menos aproveitar a situação para exigir muita coisa em troca, mas não pede nada, desconhecendo o princípio de que, em geopolítica, ninguém dá nada de graça.

 

Estados civilizados protegem seus nacionais, por Andre Motta Araujo

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10 comentários

  1. “…Peixoto, genro de Vargas e figura de proa na política e Moreira Salles, que já tinha sido antes Embaixador em Washington no segundo governo de Vargas,..” Cabeça vira em rabo. Mas brigamos com a História e mantemos o Estado Ditatorial Absolutista Fascista Assassino Caudilhista Esquerdopata. Mudamos demais desde 1930!! Plantamos abacateiro, e em 2020, ainda queremos colher maçãs? Mas como não deu certo?!! Roosevelt vem conhecer o seu quintal no Governo Vargas. Truman vem saber se sua Interferência e Empresas, já estão bem infiltradas na Cultura e Economia Brasileiras no Governo Dutra. Carmen Miranda e Zé Carioca (depois de 30), ao invés de Machado de Assis (antes de 30). Keneddy quer saber de JK, se seu Dólar Barato e Juros Irrisórios está fazendo a tal Industrialização Brasileira de 50 anos em 5. Em 5 anos tudo já era NorteAmericano?! Como? E cremos que Privatarias é coisa de FHC? Diga para Nós, Gudin. O “Cérebro Econômico” de GV? Mas quanta coincidência?!!!! Moreira Salles, como JK, como Itamar Franco, como tantos exemplos, subproduto da ‘República de Juiz de Fora’ que retorna na década de 1930, com o Familiar de GV, um tal Tancredo Neves. Outros parceiros de cunho esquerdista e socializante como seus Familiares Leonel Brizola e João Goulart, além de Luiz Carlos Prestes, garantem apoios progressistas e sindicais. Mesmo que um apoio pelego. Mas é tudo coincidência !!!! John Fitzgerald Kennedy, que num discurso na Universidade do México, afirma que seu país tem o dever e o direito de se impor, e a sua visão de mundo, seguida por seu país, a todos outros países que considera subdesenvolvidos e atrasados. É necessário guiá-los, mesmo que á força. Juscelino Kubscheck, nesta foto, está dizendo : AMÉM. Mas não entendemos como chegamos aqui, em pleno 2020. Pobre país rico. Mas de muito fácil explicação.

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  2. Bolsonaro sabe, porque alguém das nossas decadentes FA o advertiu: ou faz TUDO o que os US querem ou é apeado do governo em semanas. Então, simplesmente ele concorda com tudo, e como não é inteligente e muito menos culto- e ainda por cima tem um grande telhado de vidro, pratica a subserviência mais grotesca possível, ainda que causando prejuízos irreparáveis ao país. Mas talvez não o tenham avisado, de que é perigoso também, ser um subalterno desmedido dos US, em razão de,TODOS, terminarem eliminados e com a imagem e “o nome” jogados nas mais sórdidas lixeiras. Exemplos não faltam mas, me vem agora o nome de Sadam HUssein, aquele outro da Líbia, O Xá, abandonado a si mesmo, outro ainda, ditador africano muito famoso (LUmumba?) e, para nós, os inesquecíveis Fulgêncio Batista e Anastácio Somoza. A Venezuela é o maior e mais recente exemplo do que acontece com quem pretende impor uma política com objetivos próprios- com alguns erros ou não!!!!. E isso desde Roosevelt, com a “política de portas abertas” Nem o UK escapou!!! Outros exemplos estão no BR mesmo: Júlio Prestes ( ou Washington Luis, agora não lembro) Getúlio Vargas, o próprio Juscelino, Jânio, Jango, Collor de Mello, Dilma, e por aí vai ( até Lula (amigão do Bush), acabou na cadeia em um processo infame). E sim, as nossas chamadas elites, que sequer moram no BR, estão também sempre prontas para mostrar fidelidade ao Império.

  3. Pelo visto, o rato já nem ruge mais em Washington. Só ficou mais rato.

    E ficaria ainda mais, muitíssimo mais, com a presidência do BID nas mãos da ratazana Maria Silvia Bastos Marques. Você sabe muito bem disso, André. Então, qual o motivo que o leva a mencionar o nome dessa nulidade como algo positivo para a presença do País em organismos internacionais? É estranho. Uma total, absoluta contradição em relação ao que disse antes.

    Essa senhora abriu, escancarou, as portas do BNDES para o indiciamento que se provou inepto de dezenas de funcionários, pela PF e o MPF, no governo Temer. Essa personagem abjeta de tudo sabia antecipadamente e agiu, na presidência do Banco, contra o corpo de funcionários. Prova disso é a entrevista que ela dá ao programa “Show Business”, apresentado pela Sonia Racy, um ou dois fins de semana antes da condução coercitiva de funcionário à PF. Ela tinha informação de cocheira sobre o cerco policial, a canalhice, e a passou pouco sutilmente no tal programa, em maio de 2017 (https://www.youtube.com/watch?v=3RKYWn2X0dA). Uma completa calhorda. E é essa personagem que você quer ver nos representando no BID? É isso?

    Sinceramente, prefiro muito mais um estadunidense com um mínimo de esclarecimento na presidência do BID a essa escroque, entreguista, da sua preferência. E também uma fracassada, pois por onde ela passa vem a falência ou a derrocada. Basta ver o currículo da nefasta mulher.

    Se ela quiser mais essa sinecura, ela que banque os bem regados jantares e as bandejas de prata tão apropriados a uma escolha desse nível.

    • Não defendo sw modo algum o nome de Maria Silvia, uma nulidade neoliberal, eu apenas citei o fato
      de uma articulação que parece que esta em andamento. Perto dos nomes que estão se candidatando a presidencia do banco dos BRICS Maria Silva é uma genia, estamos em empos de seca total.

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  4. Complementos:
    1) Humildade é diferente de subserviência. Humildade frequentemente pode até ser esperteza.
    Não é o caso.
    2) A rápida aprovação de Nestor Foster pode ter sido resultante do fedor deixado na sala pelo bode Eduardo Burger.
    3) A impressão que se tem é que ao invés de uma relação entre países, o que há é uma subordinação de um país ao sub-sub do outro. Nossa diplomacia e respectivo chanceler parecem gerentes locais (no braZil) do DoS.
    Nosso ministro da Justiça, gerente da seção braZileira do DoJ (ou será mais baixo, chefe de seção, subordinado à CIA ou mesmo FBI?).
    Nosso cargo mais alto é o de “Country Manager”, onde Bozzo responde (talvez) diretamente ao DoS.
    E fica exultante quando consegue falar com o “Chairman”.
    Com declarações apaixonadas de surpresa pelos corredores.
    Esta é a nossa deprimente “current situation”.
    Espero que consigamos sair dessa!

  5. Aos críticos do PT,bom mesmo foi na era Sarney, Itamar,FHC e Temer, NÃO É QUESTÃO DE SER PETISTA OU NÃO E SIM RELEMBRAR E VALORIZAR TD Q OCORREU,pobre Brasil!(de intelectuais)

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  6. Não se esqueça de que no “tudo que ocorreu” temos que lembrar o desastre ferroviário do período Dilma, que não pode, de modo nenhum, ser “valorizado”. Mas já virou história.

    • Acompanhei de perto o esforço feito para a nomeação do Patriota. E o efeito do muito mal resolvido rojão do caso Molina. Após isso, só cresceu a apatia com que tratava a diplomacia.
      Depois a dupla dinâmica de Temer e a era das olavates. Implodiram a casa de Rio Branco!

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