O que pode acontecer em 2022?, por Gunter Zibell

Desde 1989 há uma polarização da sociedade brasileira entre 1+2 ("direita") e 3+4 ("centro-esquerda".) Cada bloco tem um discurso, uma intenção, um medo.

O que pode acontecer em 2022?

por Gunter Zibell

A) Há quatro cenários principais.

1) Bolsonarismo + Centrão continuam. Felizmente hoje anda pouco provável, porque a rejeição aumentou muito nestes 20 meses (desde a passeata #elenão.) Um público saudoso do autoritarismo, entre 15 e 20%, desperdiçou sua oportunidade (que não esperava realmente ter) e deve voltar a seguir PSDB, DEM, MDB.

2) Centro-direita democrática (Doria, Huck, etc.) Tem chances, tanto pela tendência de longo prazo (endireitização do Brasil) como pela postura proativa no combate à pandemia.

3) Centro-bloquinho (Cid-PV-PSB-Rede-PDT.) Já desde 2010 tem chances, mas sempre enfrenta a barreira da ida ao 2º turno frente à polarização.

4) Centro-esquerda (PT-PCdB-PSoL.) Estava em baixa de longo prazo desde 2010, cedendo votos em 1º e 2º turnos para 2) e 3) mas o desastre de 1) pode levar a um efeito Orloff (no Chile e Colômbia, apesar de Piñera e Duque lembrarem mais Macri que Bolsonaro, também.) Afinal, 2019 foi péssimo para toda a América do Sul.

Eu tenho medo do cenário 1), vivo normal no cenário 2) e prefiro 3). E não tenho receio do cenário 4), pois pode ser que leve ao conserto parcial da montanha de erros do período 2019-2022.

Comentarei apenas as possibilidades para 4).

B) Desde 1989 há uma polarização da sociedade brasileira entre 1+2 (“direita”) e 3+4 (“centro-esquerda”.)

Cada bloco tem um discurso, uma intenção, um medo.

1+2 têm o discurso da gestão, o propósito de não transferir renda via tributação progressiva e o medo (nonsense) de ‘socialização’.

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3+4 têm o discurso da inclusão e da biodiversidade, 4 tem o propósito de maior poder para estamentos estatais e ambos, como parte de 2), receiam (com toda a razão neste caso) a transformação do Brasil em uma anocracia populista (como já aconteceu no Irã, Rússia, Turquia, Polônia, Índia, Indonésia, Tailândia e Egito.)

Novamente desde 1989, cada grande bloco mobiliza os discursos, as intenções e os medos dos eleitores. E consegue entre 30 e 45% de endosso eleitoral, deixando entre 25 e 30% para abstenções e nulos/brancos.

E, também desde então, percebe-se que apenas cerca de 15% são oscilantes. Estes às vezes mudam de lado subitamente, como em 2002. Às vezes mudam aos poucos, como de 2010 a 2018.

Tem cerca de 30% sempre direita, 30% sempre centro-esquerda, estes com rejeição recíproca, e cerca de 20% sempre indiferentes. Não vale a pena tentar convencer conhecidos desses grupos. Vale a pena, no entanto, expor suas convicções para os 15%. Afinal, cada bloco já levou 4 eleições. O sub-bloco 1 tirou em 2018 a primazia do PSDB. E o sub-bloco 3 conseguia 10% antes e ultimamente chegou a 20% (neste caso em votos válidos.)

C) o caminho para o PT.

Depende de algumas coisas.

– ir para 2º turno. Isso deve ser fácil, pois em 2018, com toda a propaganda negativa (recessão da Dilma, Lava-Jato) manteve-se 29% dos válidos;

– recuperar algo como 4 a 5 MM de votos de Bolsonaro. Isso é possível se houver mudança de posição entre homens com renda de 2 a 5 sm do Centro-Sul. Esse foi o único subgrupo sócio-demográfico que mudou de lado vitorioso entre 2010 e 2018. (Houve uma erosão para o PT em todos os grupos, mas cruzando decisivamente a linha dos 50%, apenas esse.)

– recuperar algo como 3 a 4 MM dos decepcionados (que foram um acréscimo de ‘brancos’ em 2018), o que também pode ser ajudado por um estímulo a votar entre absenteístas (como em 2002.)

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Estes sucessos dependem de uma espécie de ‘perdão’ de 17% dos eleitores médios que o PT teve de 2002 a 2014.

É possível? Eu, pessoalmente, estou no bolo. Continuo não gostando de acordos com bancada BBB. Continuo não gostando de neodesenvolvimentismo. Mas a vida era muito mais fácil. Vai que 8 milhões pensem assim…

(Obs.: esse fenômeno de ‘perdão cíclico’ vê-se em SP-Capital, com o PT elegendo prefeito a cada 3 eleições.)

Se o campo direita baixar de 58 MM em 2018 para 53 MM, o que não é impossível (vide a redução do PSDB de 1998 para 2002, com um governo FHC-2 muito melhor que Bolsonaro-1)…

E se o campo centro-esquerda subir de 47 MM para 55 MM, o que é muito menos do que foi visto em 2022…

Bom, nesse caso a centro-esquerda vence. E o PT volta.

O ‘centro’ (Ciro, Marina, Cristovam, Barbosa) pode ficar chateado. Mas, gente, é questão de fazer narrativa melhor no ciclo. Eu apoiaria.

A ‘centro-direita’ (Doria, Huck) pode ficar chateada. Mas, novamente, é questão de narrativa. Cabe entregar com maior vontade os anéis da tributação progressiva, sustentabilidade e da inclusão.

Quem ficará chateada mesma é a turma da ultradireita. Que bom!

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7 comentários

  1. “Quem ficará chateada mesma é a turma da ultradireita. Que bom!”

    Isso se a ultradireita respeitar o resultado da eleição. Aécio não respeitou, e junto com Cunha e Moro pariu isso que está ai.

  2. Gosto dos números, sobretudo quando um nasce e outro morre, sempre será 1. As porcentagens oscilam e dão vitória para um ou outro de acordo com os fatos sociais e o xadrez político. A estatística não precisa combinar com os russos, até a hora de chegar à política.
    É o tipo de situação que satisfaz aquela ala que espera o Bolsonaro derreter pra levar voto. É o tipo de comportamento análogo ao post sobre a manifestação antifascista lá no Sul: o pessoal sai na rua, mas quem comenta é o presidente da CUT. Pra ser grosseiro, sem receio, isso é oportunismo e preguiça.
    Como disse o colega: haverá eleição? O Mau Militar está ficando isolado e com a Justiça no calcanhar. Se tiver que vender metade do país pra se proteger (claro, uma hipótese baseada no comportamento indistinto entre a coisa pública e a coisa privada), fará.
    Pelo menos tem um lado positivo: é a esquerda que enfrenta a direita, e não a esquerda que enfrenta a esquerda pois sabe que ela não vai descer a borracha. Só pra cutucar os covardes das “jornadas de junho”, sempre reinventando a narrativa pra não achar que pariram o Bolsonaro.

  3. Em 2018, o denominado sub-grupo 3 obteve 13,47% dos votos válidos (12,47 PDT e 1% Rede)e não 20% conforme informado, e o sub-grupo 4 obteve 29.91% (PT 29,28%, PSOL 0,58% e PSTU 0,05%).

    Bolsonaro só não foi derrotado por Haddad no segundo turno, evitando a tragédia anunciada que vivemos, em função de um motivo mensurável, faltaram a Haddad 5.378.471 dos votos válidos ou seja 5,13%, e outros dois imensuráveis, impedindo que obtivesse os tais 5,13% dos votos faltantes:

    A refugada do sub-grupo 3 em juntar forças para impedir Bolsonaro presidente eleito no segundo turno, por calar mais fundo o desejo do PT derrotado e a inimaginável e vergonhosa interdição da campanha no segundo turno, operada pela mídia e justiça eleitoral, para não exporem ao contraditório o candidato que lhes restou para impedir o PT retomar a presidência no voto e derrotar o golpe da classe dominante a qual a dita mídia pertence.

  4. Não há como discordar que a leniencia das instituições observada com a formacao de milicias vai promover a ruptura institucionalizada no país. Neste momento, são incertas as eleições de 2022, e a pretensão de se adiar as municipais, como ja manifestado na alta corte eleitoral, prepara o terreno para que, caso a comunidade internacional se posicione contrária, um novo golpe tome novamente uma forma “democrática”, usando reflexos da pandemia e a postergacao das eleições municipais.

    A globo ja colhe os espinhos do seu apoio ao golpe de 2016 e do seu alinhamento com Moro, uma das tres maiores fraudes hoje presentes na vida politica do Brasil (bozo e militarização são as outras duas). Criou-se um ambiente fertil para que as ratazanas mostrassem suas caras e parissem ratos agressivos sob sua proteção.
    https://g1.globo.com/politica/noticia/2020/05/25/falta-de-seguranca-faz-jornalistas-do-grupo-globo-deixarem-plantao-no-alvorada.ghtml

    A hora do enfrentamento é agora.
    Mas não uma reação fora da democracia e da Constituição que permita o genocidio de inocentes pretendido por alguns elementos deste desgoverno, esta missão cabe ao Congresso e ao Judiciário.

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