O que significa o colapso da “Vaza Jato”?, por Jessé Souza

Todos já sabemos o principal: a Lava Jato, a joia da coroa do moralismo postiço brasileiro, foi para o brejo

O que significa o colapso da “Vaza Jato”?

por Jessé Souza

em seu site 

Glenn Greenwald, com sua coragem, mudou a vida da sociedade brasileira contemporânea. Aquilo que só iríamos descobrir quando nada mais importasse, como na ação americana no golpe de 1964, sabemos agora, quando os patifes e eles são muitos ainda estão em plena ação. Muito ainda está por vir, mas todos já sabemos o principal: a Lava Jato, a joia da coroa do moralismo postiço brasileiro, foi para o brejo. Houve “armação política” de servidores públicos, procuradores e juízes, que, por dever de função, deveriam manter-se imparciais. Em resumo: traíram seu país e sua função enquanto servidores públicos para enganar a justiça e a sociedade. São, portanto, objetivamente, criminosos e corruptos. A verdadeira “organização criminosa” estava no Ministério Público (MP) e no âmago do Poder Judiciário. Simples assim. FHC e outros cretinos da mesma laia vão tentar tapar o sol com a peneira. Mas não vai colar. Perdeu, playboy!

Isso vale não apenas para Moro e Dallagnol que já morreram em vida, embora ainda não saibam, mas também para boa parte do aparelho judicial-policial brasileiro envolvido na “Vaza Jato”. Para o juiz e o jurista “a ficha ainda não caiu”, mas em breve serão tratados como quem possui uma doença incurável e transmissível. Se não se livrar de Dallagnol, o MP irá ao esgoto com ele. Se não se afastar de Moro, o Judiciário perderá o pouco de legitimidade que ainda lhe resta. Segue pelo mesmo caminho esse pessoal do judicial-policial que quis aproveitar a “boquinha” de ocasião, fazendo o “serviço sujo” para a elite e sua mídia venal de afastar o PT por meios não eleitorais e se apropriando, sem peias, do Estado, das riquezas públicas e do orçamento público. Na outra ponta do “acordo”, os operadores jurídicos ficavam com as sobras do banquete. Tramoias bilionárias, como o fundo da Petrobras, para Dallagnol e sua quadrilha, e cargos políticos, como a vaga no STF, para o “trombadinha da elite do atraso” Sérgio Moro.

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Alguns irão dizer que é precipitado afirmar isso, visto que eles ainda são poderosos, têm os interesses dos bancos e a Rede Globo ao lado deles, envolvida até o pescoço no esquema criminoso. Bolsonaro ainda é presidente e ele faz parte dessa armação podre, e a elite quer colher os milhões do esquema, este sim, verdadeiramente criminoso. É verdade, não tenho “bola de cristal” e confesso que não sei quanto tempo a farsa ainda vai durar. O que eu sei, no entanto, é que toda ação humana precisa ser justificada moralmente. Pode-se provocar mudanças na realidade exterior, mas sem legitimação moral essas mudanças têm vida curta. Toda a história humana nos ensina isso.

Desde 1930 a elite brasileira desenvolveu, com seus intelectuais orgânicos que pautavam a direita e a esquerda, uma concepção de moralidade – da qual eu trato em detalhes no meu livro A elite do atraso: Da escravidão a Bolsonaro – que amesquinha a própria moralidade, ao ponto de abarcar apenas a suposta “corrupção política”. Para os brasileiros, moral deixa de significar, por exemplo, tratar todos com dignidade e ajudar os necessitados, como em todos os países europeus que transformaram a herança cristã em social-democracia, para se resumir ao suposto “escândalo com o dinheiro público”, desde que aplicado seletivamente aos inimigos da elite. A elite de proprietários pode roubar à vontade. Seu roubo “legalizado” passa a ser, inclusive, uma virtude, uma esperteza de negociante.

Como a mesma elite possui como aliada a imprensa venal, e, por meio dela, manipula a opinião pública, a “escandalização”, sempre seletiva, é usada como arma de classe apenas contra os candidatos identificados com interesses populares. Assim, a função real dessa pseudomoralidade amesquinhada passa a ser, ao fim e ao cabo, criminalizar a própria soberania popular e tornar palatáveis golpes de Estado sempre que necessários. O esquema pseudomoralista foi utilizado contra Vargas, Jango, Lula e Dilma, ou seja, todos que não entregaram o orçamento do Estado unicamente para o saque da elite via juros extorsivos, isenções fiscais criminosas, perdão de impostos, livre sonegação de impostos, “dívida pública” e outros mecanismos de corrupção ilegal ou legalizada.

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Só a sonegação de impostos da elite em paraísos fiscais, uma corrupção abertamente ilegal, chega a mais de 500 bilhões de dólares, segundo os especialistas de universidades britânicas que compõem o Tax Justice Network. Isso é centenas de vezes maior que o dinheiro recuperado pela “Vaza Jato”, mas a imprensa venal da elite nunca divulga essas informações. É como se não existisse, até porque é crime compartilhado pelos barões da mídia. Lógico que a corrupção política dos Palocci e dos Cunha é recriminável e tem de ser punida. No entanto, não é ela quem deixa o país mais pobre nem quem rouba nosso futuro. Mas a estratégia da elite é “desviar” o foco do seu assalto sobre todo o restante da população e criminalizar a política e o Estado, que são, precisamente, quem pode diminuir o crime de uma elite da rapina, que domina o mercado e o Banco Central, sobre uma população indefesa. Indefesa posto que lhes foram retirados os mecanismos para compreender quem provoca sua ruína e sua pobreza.

A “Vaza Jato” é a forma moderna desse esquema criminoso e faz o mesmo que Lacerda fez com Getúlio Vargas em 1954. Com o apoio da mesma Rede Globo, dos mesmos jornais e da mesma mídia. Também não ficara provado que Getúlio tivesse roubado um centavo, assim como não ficou provado que Lula tivesse cometido qualquer ilegalidade. Mas a “Vaza Jato” fez mais que Lacerda. Uma turma de deslumbrados medíocres meteu os pés pelas mãos e comprometeu a dignidade do MP e da Justiça ao fazer justiça com as próprias mãos. Processos sabidamente falsos e manipulados mudaram a vida política brasileira e empresas criadas com o esforço e a luta de várias gerações de brasileiros foram entregues de bandeja aos americanos e seus aliados. A elite nacional fica com as sobras desse roubo. Tudo graças ao “trombadinha da elite do atraso”, Sérgio “Malandro” Moro, e à sua quadrilha no MP.

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Mas o pior componente dessa história é o fator que explica a colaboração maciça da classe média branca ao seu herói: o racismo covarde contra os mais frágeis, os negros e os pobres. Se a elite quer roubar à vontade, a classe média branca, majoritariamente italiana em São Paulo e no Sul como o próprio Moro e portuguesa no Rio de Janeiro e no Nordeste, quer humilhar, explorar e impedir qualquer ascensão social dos negros e pobres. Nossa classe média branca, importada da Europa, foi criada para servir de bolsão racista entre elite e povo negro e mestiço. Se retirarmos a capa superficial de “moralidade”, mero enfeite para Moro e sua quadrilha, o que sobra unindo e cimentando a solidariedade de toda essa corja é o racismo cruel e covarde contra a população negra e mais humilde, o foco do lulismo.

Em virtude disso, o ódio a Lula é a mera “personalização” do ódio ao negro e ao pobre. Como o racismo entre nós não pode ser explicitado, nem por psicopatas como Bolsonaro e Witzel, devido à nossa tradição de “racismo cordial”, a “corrupção seletiva” sempre apenas dos líderes populares foi criada para ser uma capa de “moralidade” para o racismo real. Assim, todos os canalhas racistas que elegeram Bolsonaro e se identificam com Moro podem, ainda, dormir com a boa consciência de que representam a “fina flor da moralidade”. É com essa canalhice brasileira que a revolução de Glenn Greenwald está ajudando a acabar.

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17 comentários

  1. Em minha opinião e gostaria que o GGN fizesse uma ampla reportagem sobre o tema, é que um dos maiores crimes que o FHC fez em seu governo foi a venda da Cia Vale do Rio Doce, atual VALE. Pelo que me lembro ela já estava lucrativa e seu lucro anual era de aproximadamente 800 milhões de dólares. E foi vendida/doada por 1,5 Bilhão de dólares, financiados pelo BNDES à serem pagos em 30 anos. E o que me deixa entristecido também é que mesmo sabendo de toda essa podridão o Lula e o PT nada fizeram assim que tomaram posse. NASSIF, gostaria e acredito que a maioria de seus leitores tbm gostariam de saber a Verdade Verdadeira deste assunto. E sobre a Auditoria da Dívida Pública professor Jessé, que o Sr fazia parte do Governo do PT, a auditoria da dívida foi aprovada hipocritamente pelo congresso e obviamente a Dilma vetou. O que o Sr a qual eu muito respeito tem a dizer ? Vamos mesmo desta vez passar o Brasil a limpo ? Estou sem trabalhar há 4 anos, já sem forças por diversos motivos que não vem ao caso eu enumerar aqui, mas uma coisa é certa… minha vida está em colapso… o que me restou ainda foi a dignidade e a vontade de lutar contra todo este sistema.

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  2. Pensando nesse último vazamento e a avaliação de alguns de que a bomba não seria tão grande quanto a do primeiro. Discordo. A maior parcela de apoiadores dos “herois” ex-juiz/LJ acreditava (ou preferia acreditar) que eles eram os grandes guerreiros contra a corrupção em geral (pra essa gente manipulada pela mídia corporativa a corrupção noticiada é recente e é a fonte de todos os nossos problemas). Eles não são “só” antiLula, anti-PT. Aliás, nas conversas, confrontados com os malfeitos dos demais partidos, eles gostavam de ressaltar: todos vão rodar, “vamos” tirar um a um. Limparemos tudo! Primeiro vai Dilma, depois temer. Enfim, a tal “velha política”… Esse pessoal, os LJ-minions, aceita na boa excessos “de meio” da LJ para o fim da limpeza geral. Os bozo/moro-minions largaram alckimin e os tucanos. E é justamente pra esse grande contingente que a última revelação é a maior das bombas: havia sim seletividade no combate aos corruptos, havia sim politicagem, seletividade e tolerância com a “parcela politicamente amiga” dos “corruptos” por parte do ex-juiz. O discurso “limpeza geral” vai por terra. Reaparece o “uso” do processo para fins politiqueiros e não para a nobre causa de exterminar o “mal”. A “velha política” e a seletividade aparecem no DNA do ex-juiz/LJ (“melindre” não combina com combate cego à corrupção; “perder apoio importante”, não combina com nova política; proteger o iFHC para não gerar comparativo com o iLILS não é “meio legítimo” para pegar os corruptos, sejam eles quem forem).
    Os formadores de opinião já devem ter percebido isso! Os caça-corruptos prenderam um (Lula) e blindaram outro, o do “apoio importante” (FHC); quebraram um instituto (iLILS) e preservaram outro (iFHC), sendo que ambos tinham a mesmíssima prática e moro e a LJ sabiam disso . Parece que na cabeça do ingenuo-anticorrupcao (a-tia-que- não-é- fascista), isso é imperdoável. Eles perdem o discurso e a referência. Percebem que foram usados…

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  3. Em vários países civilizados o Estado auxilia o cidadão com benefícios sociais, detalhe convenientemente ocultado pela mídia…..
    Aqui demoniza-se a previdência, como se fosse um gasto qualquer…..não é, aposentadoria tem o caráter de alimentos, ninguém aplica o que ganha no mercado financeiro..
    O governo tem a OBRIGAÇÃO de prover o sustento dos mais necessitados, se falta dinheiro, que vá buscar com os mais aquinhoados, que deixe de fazer mais uma droga de obra, mas não jogue a culpa nos despossuídos enquanto gasta quase metade do orçamento dando dinheiro para banqueiros, isso não é um Estado de bem estar social, mas um Estado GENOCIDA……
    O mais triste é ver o apoio envergonhado do PT a maldita reforma…..fazem, o que Lula um dia disse que os adversários faziam……negam de dia, negociam a noite…….

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  4. Uau! Um beijo no Jessé mas… as vítimas desse processo desumano da “civilização brasileira” são cúmplices da exploração e preconceito que os esmagam. Quando a classe C subiu de patamar nos governos petistas tornaram-se mais conservadores do que a elite que os explora. São eles que espalham as fake news, são eles o núcleo duro que apoia Bolsonaro, afinal a nossa elite não representa 30% da população. E no Brasil atual com uma perspectiva ainda pior: são eles os “cristãos” que enchem as igrejas neopentecostais que empesteiam o Brasil com sua manipulação política e conservadorismo moral. E na igreja católica estão presentes no crescente movimento carismático.
    Não tenho nenhum otimismo sobre o futuro do Brasil. Greenwald acabará sendo a maior vítima de suas denúncias. O Estado e o stablishment brasileiro não se moverão um milímetro perante as denúncias desse processo medieval de que Lula é vítima no que contarão com a comprazimento da população explorada.
    A Idade Média está só começando no Brasil. E Lula, sinto dizer, nunca ganhou e nada ganhará com sua eterna proposta de paz e amor. O Brasil precisa de luta, de marcação de território mas Boulos e Stédile, os dois principais líderes desse seguimento político não são aceitos pela maioria da população oprimida e quando não, são frontalmente odiados e demonizados.

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  5. Bela matéria! Tocou no ponto exato, especialmente no trecho que cita a colaboração da classe média branca. Isso ficou muito claro : foi a passagem de um racismo oculto para um racismo explícito, onde encontraram em bolsonaro e moro os capitães do mato modernos capazes de tentar aniquilar os quilombos, em franca ascensão, e colocar ordem na senzala. Para isso, deram carta branca insana, já que destruíram seus próprios direitos trabalhistas, entregaram nossas reservas e todo esse circo de horrores que estamos assistindo.
    Mas faltou somente citar, dentro do contexto social, o avanço do fundamentalismo religioso dessas novas igrejas pentecostais, reacionárias e intolerantes.

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  6. texto que cabe em qualquer antologia
    sobre sociedade brasileira….
    sobre sociologia ou antropologia, pela
    amplitude e significação das infamias que
    vivemos na nossa contempoeraneidade
    cruel e inominavel/
    abominável..

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  7. Porque o $érgio Moro vazou as conversas da Dilma, do Lula e da Família do Lula, vazou as delações do Palocci mas é contra o vazamento das suas conversas?

    Ora, porque pau que bate em Chico não pode bater em Francisco

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  8. UM PAÍS DOENTE:A elite não abrirá mão de suas benesses,nem do preconceito,basta um pobre ganhar dinheiro,e já está humilhando os outros,FALTA CULTURA !.

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  9. Os Super-Heróis (sérgio moro – batma o homem morcego das trevas) e o dallagnol (robin o puxa saco), foram desmascarados, agora cabe a justiça brasileira corrigir seus erros.

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  10. Eu leio e me envergonho. Sou dessas pessoas que ascendeu socialmente após os governos do PT, sou professora da educação básica e demorei para entender meu papel na história.. achei que meu exemplo de pobre que estudou faria a diferença, quando me dei conta passaram-se 15 anos e comecei a enxergar a falta de oportunidade e racismo estrutural que fazem meus alunos abandonarem a escola e as diferenças de gênero só me cairam no colo quando fui mãe e percebi o quanto fui privilegiada por ter tido oportunidade de estudar sem precisar parar para trabalhar.
    Não sabia que eu estava na conta (mulher, negra e pobre) acho que assim as pessoas que hoje são classe B e C também desconhecem…
    Quando percebi que ao invés de falar de uso de drogas (consequência) eu deveria falar em iniquidades, injustiças e busca pela cidadania plena…. já era tarde pois onde o estado esteve ausente, o tráfico de drogas e as igrejas neopentencostais se apresentaram como opção…
    Acho que é isso, a classe C tenta saie do lamaçal e olha pra cima …o discurso de cima é grotesco mas quem é que quer olhar com empatia para o outro nessa sociedade de desumanidades…
    A vergonha é de ver tantos como eu que ascenderam e cospem no prato que.comeram …

  11. Eu leio e me envergonho. Sou dessas pessoas que ascendeu socialmente após os governos do PT, sou professora da educação básica e demorei para entender meu papel na história.. achei que meu exemplo de pobre que estudou faria a diferença, quando me dei conta passaram-se 15 anos e comecei a enxergar a falta de oportunidade e racismo estrutural que fazem meus alunos abandonarem a escola e as diferenças de gênero só me cairam no colo quando fui mãe e percebi o quanto fui privilegiada por ter tido oportunidade de estudar sem precisar parar para trabalhar.
    Não sabia que eu estava na conta (mulher, negra e pobre) acho que assim as pessoas que hoje são classe B e C também desconhecem…
    Quando percebi que ao invés de falar de uso de drogas (consequência) eu deveria falar em iniquidades, injustiças e busca pela cidadania plena…. já era tarde pois onde o estado esteve ausente, o tráfico de drogas e as igrejas neopentencostais se apresentaram como opção…
    Acho que é isso, a classe C tenta saie do lamaçal e olha pra cima …o discurso de cima é grotesco mas quem é que quer olhar com empatia para o outro nessa sociedade de desumanidades…
    A vergonha é de ver tantos como eu que ascenderam e cospem no prato que.comeram …

  12. Jessé, com seus belíssimos estudos sobre a sociedade brasileira faz uma leitura profunda e torna mais claras as causas do abandono e os papéis das classes dominantes na história de nosso povo tão sofrido. Ele fala que à esquerda faltou questionar o monopólio da rede globo, o próprio Lula admitiu isso em suas entrevista mais recente. Gostaria de lembrar que o único político que enxergou isso com lucidez e prometeu agir nesse sentido foi Leonel Brizola, que o grande Jessé esqueceu de referir!

  13. + comentários

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