O sujeito neoliberal, a vulnerabilização de si e o autoritarismo, por Adriana Macedo

O movimento bolsonarista: o processo de destruição do outro e de si

Parte 3 – O sujeito neoliberal, a vulnerabilização de si e o autoritarismo

Adriana Macedo

Iniciamos essa série de artigos sobre o movimento bolsonarista considerando o comprometimento cada vez maior das relações sociais significativas num contexto de implementação de políticas neoliberais (artigo 1). No artigo 2, aplicamos o modelo analítico, desenvolvido por Grada Kilomba1, ao sistema capitalista como um todo, ressaltando que esse sistema de dominação se sustenta na transferência do que há de pior em si para o outro, ou seja, para os grupos desfavorecidos no sistema social. A eficácia dessa projeção depende também do silenciamento desses outros.

Ainda no artigo 2, destacamos que com o advento da internet e das redes sociais, vozes plurais puderam exercer sua “liberdade” de expressão, o que representa um risco para a ordem posta, pois vozes podem expor segredos silenciados ao falarem sobre a dominação. Por outro lado, as expressões livres e gratuitamente trocadas na rede são capturadas, alimentando o big data e gerando armas de dominação mais eficientes. Hiper seletivas e direcionadas, as informações são feitas sob medida para os indivíduos, de modo a guiar suas emoções e ações, não apenas para o consumo, mas também para a política, eventualmente contra seus próprios interesses. A esse fenômeno, que leva as pessoas à autodestruição, Byung-Chul Han denominou psicopolítica2.

Neste terceiro artigo da série, trataremos do encontro de vozes dissonantes no espaço público em geral, mas particularmente nas redes sociais, e dos efeitos desses encontros.

O dissenso, o choque de perspectivas valorativas distintas não é em si um problema. Para Judith Butler, por exemplo, o que escapa ao enquadramento hegemônico desestrutura nosso “senso de realidade” e possibilita a emergência de novos afetos e do clamor pelo fim da violência e por justiça social3. Para Denise Jodelet, as representações sociais dos sujeitos podem ser reelaboradas em três esferas: subjetiva, relacionada às experiências e aos processos cognitivos e emocionais do sujeito; intersubjetiva, onde ocorre uma negociação na interação cognitiva entre sujeitos, gerando “significações” e “ressignificações consensuais”; e na esfera transubjetiva, onde uma experiência é compartilhada pelos sujeitos4. Nesse sentido, a presença de vozes anti-hegemônicas nas redes pode desencadear esse processo de “desconstrução” das fantasias sobre o eu e sobre o outro.

Esse processo de desconstrução não é fácil. Kilomba nos lembra que a enunciação de verdades desencadeia mecanismos de defesa do ego. Um desses mecanismos seria a recusa em reconhecer a verdade, onde o sujeito, ao negar inconscientemente certos sentimentos ou pensamentos em si, afirma que outra pessoa os tem. Isso seria, por exemplo, dizer ao sujeito negro que “Ele é racista”. Outro mecanismo seria a culpa, onde o indivíduo se encontra em conflito por ter feito algo que não deveria ou por não ter feito o que deveria, preocupando-se com as consequências da infração. Nesse caso, o indivíduo responde racionalizando, elaborando justificativas lógicas como “nós não queríamos dizer isso”, “você entendeu mal”. Um terceiro mecanismo seria a vergonha pela falha em atingir “o ideal de seu próprio ego”. O sujeito começa a se ver pela perspectiva do outro, uma perspectiva que frustra a imagem que ele tinha de si próprio.

Apesar (ou através) desses mecanismos de defesa, a desconstrução pode acontecer quando e se a fase subsequente é atingida, qual seja, a de reconhecimento. Segundo Kilomba, trata-se da passagem da fantasia para a realidade, da idealização do ego para a aceitação da perspectiva do outro. Nesta fase pode surgir a questão: – O que eu faço com o meu privilégio? E dessa questão, podem emergir movimentos na direção da reparação. Tais processos de desconstrução colocam luz sobre as dinâmicas de sustentação dos sistemas de dominação, no caso aqui em tela, do sistema capitalista.

Por um lado, a difusão das múltiplas vozes nas últimas décadas forçou os grupos dominantes a se confrontarem com as verdades do outro, com as verdades “negadas, reprimidas e mantidas guardadas, como segredos”, como coloca Kilomba. Por outro lado, entretanto, afetos como medo e raiva contra essas vozes e seus interlocutores foram alimentados nas mesmas redes sociais, gerando sensação de insegurança e vulnerabilidade frente a esse outro. Ou seja, a possibilidade de vozes plurais na internet serviu ao sistema de dominação capitalista para gerar o seu contrário: ao invés de liberdade de expressão e pluralismo, passou-se ao controle cada vez mais violento das vozes dominadas que vinham em processo de autoexpressão. Ocorre, assim, a produção de novas formas de controle para impedir a crítica e manter a autopreservação do sistema. Para Byung-Chul Han, enquanto a sociedade disciplinar atuava essencialmente no controle dos corpos, gerando delinquentes e loucos – e acrescentaríamos desajustados ou anormais -, a sociedade do desempenho atua no controle da psiquê, gerando depressivos e fracassados5. Consideramos, entretanto, que o controle disciplinar se soma à nova forma de controle emergente.

Na esfera da experiência, o sistema capitalista é potencialmente destruidor e o neoliberalismo realiza essa destruição “por dentro”. A sensação de vulnerabilidade para os segmentos que não pertencem à elite aumenta com as dívidas financeiras, a aceleração do tempo, o excesso de trabalho, a perda da nitidez entre o espaço do trabalho e o de casa, a informalidade, o desemprego, a perda do sentido da vida. As representações sociais hegemônicas não colocam a classe dominante como fonte dos males sociais, mas a classe política que serve aos interesses da primeira, que não pode ser exposta. Assim, a classe dominante se torna cada vez mais invisível, financeirizada, proprietária dos aplicativos, gerenciadora (e exploradora) da relação entre produtor e consumidor, entre trabalhador empreendedor de si e consumidor.

 Coerente com essa invisibilidade crescente da elite e com a precarização geral da vida, a nova forma ideológica dominante – um novo tipo ideal de sujeito, no sentido weberiano –, é o sujeito neoliberal ou sujeito do desempenho2,5. Byung-Chul Han o define não mais como aquele trabalhador vinculado a uma empresa, por ela capacitado e que se aposentaria ao final de um determinado tempo de trabalho, mas como um sujeito que não é mais um sujeito, mas um projeto, sempre em construção para o mercado, o empreendedor de si5. Tal sujeito pensa ser livre e Han vai descrevê-lo como um servo sem senhor, um servo absoluto. Han diz que a queda da instância dominadora, o patrão (e nós acrescentaríamos: e reguladora – o Estado), “não leva à liberdade. Ao contrário, faz com que liberdade e coação coincidam”. Na persona do empreendedor de si, “o explorador é ao mesmo tempo o explorado. Agressor e vítima não podem mais ser distinguidos”2.

A classe dominante, que direciona as políticas públicas de retirada de direitos e minimização do papel do Estado na garantia desses direitos é apresentada como a que possui atributos morais para amparar os cidadãos, dar emprego e acesso a produtos, se o Estado não atrapalhar. O sujeito neoliberal se vampiriza e se autodestrói, pois a cobrança externa e explícita do sistema passa para dentro do indivíduo. O sujeito neoliberal está sempre se “aperfeiçoando” para atender as exigências crescentes do mercado, num processo de autocobrança. Sem lugar, mas, buscando eternamente o seu lugar ao sol, o sujeito se aprimora, faz cursos online, dorme menos, se desdobra, ingere medicamentos para despertar seu corpo exausto, para poder estudar mais, trabalhar mais, ser mais eficiente. Ao mesmo tempo, coerentemente porque internalizou esse modelo, ele defende a retirada de seus próprios direitos e a minimização do papel do Estado na garantia desses direitos, contribuindo para a sua vulnerabilização. Para Han, a instância repressiva do sistema ficou para trás, pois o controle ocorre na mente5. Compreendemos, ao contrário, que as formas de dominação se somaram, que a psicopolítica e a necropolítica se retroalimentam.

O sistema capitalista, destarte, divide a humanidade em vencedores e perdedores, sendo os vencedores uma parcela extremamente pequena da sociedade, e, nesse sentido, o sistema é uma fábrica de fracassados, um sistema cínico que Berardi nomeia como a fábrica da infelicidade6. O não reconhecimento social e o fracasso (inevitável) em atender o ideal do sujeito neoliberal leva a um profundo sofrimento. Embora a classe dominante seja pequena em número, não é apenas ela que propaga seu discurso, pois em todas as camadas, seu discurso se torna a representação social dominante a partir da qual os sujeitos sociais interagem. Nesse sentido, retornamos às linhas iniciais desse texto: o sujeito neoliberal é aquele que violenta o outro e se enuncia “homem/mulher de bem”, enquanto projeta no “fracassado” o fracasso do sistema. Na narrativa invertida, os fracassados são os que não se esforçaram o suficiente, os que escolheram se dar bem às custas dos outros, os sem emprego, sem teto, sem terra e moradores das periferias.

Os sujeitos neoliberais, assim, não estão somente na classe dominante, mas se espalham por todo tecido social, nesse processo de vampirização de si, de produção sucessiva de frustrações, desilusões e fracassos que, associados às informações falsas disparadas em larga escala, direciona a raiva ao outro, o inimigo fabricado. Tal confluência de afetações e sentimentos negativos são centrais no apoio social a governos autoritários e a defesa de agendas de autodestruição. O modelo analítico que Grada Kilomba desenvolve pode ser expandido também para pensar o capitalismo de forma global, a relação entre nações desenvolvidas e subdesenvolvidas, categorias que recalcam a colonização e o imperialismo, formas perversas de dominação.

No próximo artigo, trataremos de como a manipulação dos afetos no contexto do neoliberalismo rumou para a defesa de pautas autoritárias, colocando em risco alguns braços da própria estrutura capitalista, levando ao descrédito de especialistas da mídia corporativa, de cientistas e de setores dos três poderes, quando em desacordo com o líder do bolsonarismo.

Adriana é Professora do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio de Janeiro, Pesquisadora do Laboratório Interdisciplinar de Extensão e Pesquisa Social (LIEPS/IFRJ) e do Núcleo de Estudos do Movimento Humano (NEMOH/UFRJ). É especialista em Biomecânica, Mestre e Doutora em Engenharia Biomédica (COPPE/UFRJ) e graduanda em Ciências Sociais na Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO).

Parte 1 – O movimento bolsonarista: o neoliberalismo e a defesa do autoritarismo, por Adriana Macedo | GGN (jornalggn.com.br)
Parte 2 – O movimento bolsonarista: o processo de destruição do outro e de si II, por Adriana Macedo | GGN (jornalggn.com.br)

Referências

1KILOMBA, Grada. A máscara. In: Memórias da plantação: epsódios do racism cotidiano. Rio de janeiro: Copogó, 1.ed, p. 22-46, 2019.

2HAN, Byung-Chul. Psicopolítica – o neoliberalismo e as novas técnicas de poder. Belo Horizonte: Editora ÂYINÉ. 2018. Tradução de Maurício Liesen.

3BUTLER, Judith. Quadros de Guerra: quando a vida é passível de luto? 1. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2015.

4JODELET, Denise. O movimento de retorno ao sujeito e a abordagem das representações sociais. Sociedade e Estado. v. 24, n. 3, p. 679-712, 2009.

5HAN, Byung-Chul. Sociedade do cansaço. Petrópolis: Editora Vozes. 2017. Tradução de Enio Paulo Giachini.

6BERARDI, Franco. A fábrica da infelicidade: trabalho cognitivo e crise da new economy. Petrópolis: DP&A. 2005.

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