O movimento bolsonarista: o processo de destruição do outro e de si II, por Adriana Macedo

Os “cidadãos de bem” são as vozes que devem falar a narrativa invertida onde o dominador “intrusivo” torna-se “vítima compassiva, ou seja, o opressor torna-se oprimido e o oprimido, o tirano”

Mas a curva de óbitos está em plena expansão. É um movimento previsível: depois do salto nos casos, salto nos óbitos.

O movimento bolsonarista: o processo de destruição do outro e de si

Parte 2 – Inversão discursiva e psicopolítica

por Adriana Macedo

Na série de artigos nos quais nos propusemos a explorar a relação entre neoliberalismo, psicopolítica e autoritarismo, tratamos introdutoriamente da importância psíquica do pertencimento e da formação de grupos, aspectos que a extrema direita soube capturar através dos novos dispositivos de poder das redes sociais. Neste artigo, abordaremos a ideia da existência do outro como ameaça ao eu e o papel da psicopolítica na intensificação dessa sensação de ameaça. Os demais artigos buscarão partir dessas ideias centrais para analisar o bolsonarismo.

Grada Kilomba, no livro Memórias da plantação: episódios do racismo cotidiano, usa a máscara de Flandres para analisar o colonialismo e suas “políticas sádicas de conquista e dominação e seus regimes brutais de silenciamento das/dos chamadas/dos Outras/os”. A máscara é classificada pela autora como um objeto de tortura usado com o pretexto de evitar que o indivíduo negro se alimentasse durante a colheita na lavoura. Kilomba coloca a boca como um órgão central a ser controlado no processo de dominação e pergunta: “Quem pode falar? O que se pode falar? O que acontece quando falamos? E sobre o que podemos falar?”[1]

Deslocaremos a análise de Kilomba, que pensa a construção do racismo no colonialismo a partir do controle da boca, para compreender a ascensão dos movimentos reacionários de extrema direita.

Diferentes representações sociais interagem no espaço público. As representações dominantes são apresentadas com maior frequência e por atores e instituições específicos dentre aqueles socialmente considerados com legitimidade para falar. Contudo, o encontro entre sujeitos com diferentes histórias de vida e representações sociais pode influenciar mudanças, num processo de troca de diferentes percepções, ideias e narrativas, nas leituras da realidade. As contradições e incoerências dos discursos podem ser expostos e elaborados em processos que Denise Jodelet (2009) chama de subjetivos, intersubjetivos e transubjetivos.[2] Nesse sentido, há um esforço constante para controlar e direcionar esses processos através das instituições capitalistas e da circulação de informações via mídia hegemônica e ciência.

A figura do especialista é central nesse sentido, bem como o papel da classe média. Dessa classe saem aqueles que lidam diretamente com o público, que alcançam as massas: os jornalistas, radialistas, professores, médicos, pesquisadores, etc. São os chamados formadores de opinião, defensores, majoritariamente, dos interesses dominantes. A Frase de Marilena Chauí “eu odeio a classe média” é pouco compreendida, mas, diz respeito ao papel reacionário desta classe, que trabalha na sustentação do sistema e das agendas capitalistas de avanço sobre a exploração do trabalho das demais classes sociais.[3]

O controle das bocas é essencial nos sistemas de dominação e elas devem enunciar uma narrativa invertida. Kilomba exemplifica que, apesar de o fruto da terra ser produto do trabalho do indivíduo negro, o colonizador inverte a narrativa e o acusa de roubar sua colheita. Para Kilomba “[…] o sujeito afirma algo sobre a/o outra/o que se recusa a reconhecer em si próprio […]”[4].

O discurso capitalista atual transfere e projeta sobre o outro “a informação original e elementar”, nos termos de Kilomba. Aquele que expropria do trabalhador os meios de produção, rouba o fruto do seu trabalho – em uma troca por migalhas, imposta na dinâmica social; aquele que melhora suas condições de vida na mesma medida em que explora o trabalho do outro, narra o trabalhador como quem tem a intenção de se aproveitar do patrão, que não gosta de trabalhar e quer vida fácil. Da mesma forma, a estrutura machista e sexista que forçou a mulher a centrar sua existência no trabalho doméstico e no papel de reprodutora da mão de obra do sistema capitalista – como analisou Silvia Federici[5] ao compreender as mudanças impostas às mulheres na transição para o sistema capitalista -, aponta a mulher como ingrata, que não reconhece o esforço do homem em colocar em casa o sustento da família. A perspectiva proposta por Kilomba pode ser expandida para compreensão também da homofobia e transfobia, pois a centralidade da reprodução da força de trabalho capitalista leva ao controle dos corpos na direção da imposição de uma forma de sexualidade e de papéis de gênero determinados, enquanto o seu contrário é enunciado pelo dominador na forma de “eles querem impor a ditadura gay”, por exemplo.

Para Kilomba, esse processo de inversão discursiva se realiza através da projeção da parte perversa do eu para fora de si, criando o outro como antagonista do eu. Apenas a parte positiva do ego é vivenciada como eu, permitindo sentimentos agradáveis em relação a si, ao projetar seu lado perverso para fora. Kilomba não usa o termo perverso e sim as palavras má, ruim, rejeitada e malévola. O que é reprimido no eu se transforma em tabu, em segredo, e eis porque calar o outro é algo tão essencial para a proteção do eu.

As mortes na periferia em decorrência de incursões policiais, bem como a insuficiência de revolta massiva com o assassinato dos indivíduos negros está imersa nessa lógica de construção do outro como o inimigo a ser combatido e do eu como o “cidadão de bem”. O apoio à retirada de direitos trabalhistas e previdenciários segue essa lógica de enxergar os trabalhadores e os excluídos do mercado como aqueles que não querem trabalhar e que querem se aproveitar do Estado e viver às custas dos cidadãos de bem. A violência e o assassinato de mulheres, homossexuais e transexuais está imersa nessa lógica do “eles/elas mereceram”. O discurso invertido é internalizado tanto pelo dominador quanto pelo dominado. Para Kilomba, o sujeito colonizado é forçado a olhar para si pelo olhar do outro e desenvolve uma relação consigo através da “presença alienante do outro branco” – acrescentaríamos homem, rico, heterossexual.

Assim, o sistema de dominação injusto e perverso cria e sustenta a ideia da existência de um certo tipo de violência justa e válida, que combate o inimigo ou os seus supostos vícios. O controle das bocas faz com que as contradições do sistema não sejam o centro dos debates públicos; elas são sempre explicadas pelos especialistas construindo inimigos outros. Os “cidadãos de bem” são as vozes que devem falar a narrativa invertida onde o dominador “intrusivo” torna-se “vítima compassiva, ou seja, o opressor torna-se oprimido e o oprimido, o tirano”[6] A narrativa esconde os segredos enquanto violentam os diversos outros “sem constrangimento ético”, como coloca Zizek ao se referir a essa violência que se julga boa. A fala, tida como forma de comunicação não violenta é, então, repleta de violência, fomenta e esconde as outras formas de violência.[7]

Os avanços das pautas identitárias nas últimas décadas e o aumento potencial do alcance dessas vozes nas redes sociais expõem segredos – que deveriam estar bem calados – e confrontam a fala hegemônica, única até então tida como legítima e imbuída de crédito. Contudo, na rede, todas as vozes e “opiniões”, de grupos progressistas ou não, podem ser usadas pelos grupos dominantes em defesa de seus interesses, o ataque é a melhor defesa.

As formas de controle então se adaptam. Byung-Chul Han, em Psicopolítica – o neoliberalismo e as novas técnicas de poder, afirma que o capitalismo, no neoliberalismo, rumou da biopolítica para a psicopolítica, onde o “poder inteligente lê e avalia nossos pensamentos conscientes e inconscientes” e “até a vontade própria é atingida”. Os big data podem inclusive fazer prognósticos sobre o comportamento humano, controlando a situação. “Trata-se de um conhecimento de dominação que permite intervir na psique e que pode influenciá-la em um nível pré-reflexivo”.[8]

O documentário Privacidade Hackeada[9] expõe esse processo: os dados dos usuários são usados para estabelecer perfis e, então, informações com conteúdo e linguagem apropriadas ao convencimento de cada grupo são geradas e disseminadas. Byung-Chul Han diz que o sujeito neoliberal trabalha para o sistema capitalista mesmo no seu tempo livre, oferecendo ao sistema, de graça, seus dados. Os dados, processados por empresas como a Cambridge Analytica, são usados como arma, metáfora que aparece no próprio documentário. As ideias e preferências dos indivíduos, expostas livremente, se convertem em controle.

As informações direcionadas aos sujeitos não são meramente racionais. Elas consideram os gostos, as preferências e os traços mais ou menos agressivos dos receptores, direcionando suas ações para os interesses daqueles que investiram para vampirizar os sujeitos. Vampirizar significa, por um lado, extrair energia dos sujeitos (seus dados, suas paixões, seus impulsos ativos e reativos). O sistema se alimenta de sua energia vital. Por outro lado, o próprio sujeito se vampiriza, mobilizado por afetos que o conduzirão a ações, na esfera pública, contrárias aos seus interesses de classe, raça, gênero e/ou orientação sexual. Através do processamento das interações dos sujeitos na rede, os algoritmos permitem que os “segredos” voltem a ser calados ou percebidos como não dignos de credibilidade, de confiança, pois, se revelados, são recebidos como vícios de inimigos a combater.

As informações introjetadas pelos indivíduos levam a sua autodestruição. Os sujeitos consumirão sua vida, sua energia, sua capacidade criativa e se manterão aprisionados numa espiral de medo e esgotamento, apesar de toda a retórica da liberdade na qual se baseia o discurso neoliberal. É a partir desses mecanismos, que ocultam o verdadeiro inimigo, que se pode compreender como grande parcela da população apoiou o golpe contra a presidenta Dilma, para a implementação de uma agenda neoliberal, autoritária, machista, racista e homofóbica.

O próximo artigo da série abordará em mais detalhes o influxo de vozes dissonantes nas redes sociais e os mecanismos de defesa desencadeados a partir do encontro com a alteridade.

 

[1] KILOMBA, Grada. A máscara. In: Memórias da plantação: episódios do racismo cotidiano. Rio de janeiro: Copogó, 1.ed, p. 22-46, 2019

[2] JODELET, Denise. O movimento de retorno ao sujeito e a abordagem das representações sociais. Sociedade e Estado. v. 24, n. 3, p. 679-712, 2009.

[3]SOUZA, Renato Santos. Desvendando a espuma: o enigma da classe média brasileira.  Jornal GGN, 2013. Disponível em:< https://jornalggn.com.br/noticia/desvendando-a-espuma-o-enigma-da-classe-media-brasileira/>.

[4] Kilomba, Op.Cit., p. 34.

[5] FEDERICI, Silvia. O calibã e a bruxa. Ed.1. São Paulo: Elefante. 2017

[6] Idem, ibidem.

[7] ZIZEK, Slavoj. Violência. 1. ed. São Paulo: Boitempo Editorial, 2014.

[8] HAN, Byung-Chul. Psicopolítica – o neoliberalismo e as novas técnicas de poder Belo Horizonte: Editora ÂYINÉ. 2018. Tradução de Maurício Liesen.

[9] Privacidade Hackeada. Direção de Jehane Noujaim e Karim Amer. Netflix. 2019.

Adriana Macedo é Professora do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio de Janeiro, Pesquisadora do Laboratório Interdisciplinar de Extensão e Pesquisa Social (LIEPS/IFRJ) e do Núcleo de Estudos do Movimento Humano (NEMOH/UFRJ). É especialista em Biomecânica, Mestre e Doutora em Engenharia Biomédica (COPPE/UFRJ) e graduanda em Ciências Sociais na Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO).

Leia parte I desta série:

O movimento bolsonarista: o neoliberalismo e a defesa do autoritarismo, por Adriana Macedo

 

 

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