Os bares do happy hour Rio/São Paulo, por Andre Motta Araujo

Os empresários paulistas, ao voltarem para São Paulo, paravam no VILLARIÑO, na Av. Presidente Wilson, caminho do Aeroporto. Eu ia a pé, não havia risco de assalto.

Os bares do happy hour Rio/São Paulo

por Andre Motta Araujo

Nos anos 70, parte importante dos centros de decisão da política econômica estava no Rio de Janeiro e não em Brasília. Cito dois, o Conselho Interministerial de Preços – CIP e a Divisão Industrial da CACEX.

No CIP se apresentavam as planilhas para justificar aumentos de preços, os preços de 550 produtos estavam tabelados e só podiam aumentar com a chancela do CIP, o chefe era Jose Flavio Pecora, um dos Delfim boys mais evidentes. Este articulista estava no CIP quase toda semana representando sua associação empresarial da indústria eletroeletrônica e a própria empresa que era “padrão” para o ramo de produtos. A empresa padrão puxava o percentual de aumento das demais, tudo era tabelado, de produtos industriais a passagens de avião.

Já na Divisão Industrial da CACEX, se discutia a liberação ou não para importação de produtos que poderiam ter similar nacional. Se o industrial brasileiro comprovasse que poderia fabricar um produto que se queria importar a CACEX não dava a guia. Participei de reuniões históricas onde um irascível Namir Salek, diretor da Divisão Industrial, defendia a indústria nacional, o que não era coisa fácil, havia grande propensão a importar.

Numa dessas reuniões uma grande siderúrgica queria importar um laminador do Japão, o fabricante nacional disse que podia fazer. O industrial siderúrgico responde: “mas seu preço é três vezes mais caro que o do Japão”, e o fabricante do laminador disse: ” e seu aço custa quatro vezes mais que o aço japonês, é melhor importar”. No fim o laminador foi fabricado no Brasil e assim se desenvolveu enormemente a indústria nacional nos anos 70, um grande salto de produtos e setores.

O Ministro Delfim Neto despachava mais no Rio do que em Brasília, no magnífico prédio da Fazenda na Av. Antonio Carlos. Delfim trabalhava 12 horas direto, depois ia jantar no AU BEC FIN na Av. N. S. de Copacabana, um pequeno e elegante bistrô onde desfrutava daquilo que ele chamava de “as noites do poder”.

OS BARES DA PONTE AÉREA

Os empresários paulistas, ao voltarem para São Paulo, paravam no VILLARIÑO, na Av. Presidente Wilson, caminho do Aeroporto. Eu ia a pé, não havia risco de assalto. O Vilariño era (ainda existe) um bar atrás de uma mercearia, com icônica trajetória, onde se reunia o pessoal da bossa nova, o whisky era servido com gelo de barra cortado a picareta, ninguém lá bebia pouco. Os que ficavam no Rio iam ao FLORENTINO, bar chiique na Av. Gal. San Martin em Ipanema ou ainda no bar do Copacabana Palace. No Aeroporto havia um bar-restaurante também histórico, muito caro, onde se fazia ponto para esperar o voo.

Nos voos da Ponte Aérea se servia whisky escocês de duas ou três marcas e ótimos canapés de carpaccio, salmão e rosbife. Não se via um passageiro sem paletó e graveta, era o padrão ponte aérea, muitos se conheciam e o melhor lugar nos Electra da VASP era uma salinha no fundo com cadeiras de parede.

OS BARES DE SÃO PAULO

Alguns passageiros da Ponte chegavam a São Paulo e davam uma esticada no finíssimo bar PLANO´S, de Sylvia Kowarick, na Rua Oscar Freire, nunca mais existiu bar desse nível em São Paulo, o pianista era João Maria de Abreu, compositor de qualidade, a comida, os cinco pratos célebres do barão Stuckart, esplendidamente executados (camarão à newburg, lagosta à thermidor, picadinho, strogonoff e filé ao poivre). O Plano´s foi o último bar de São Paulo onde não entrava mulher desacompanhada.

Outro bar também excelente era o BLEND´S na Rua Pedroso Alvarenga, com ótima culinária e uma gerente de nível, a Elizabeth, tão simpática. Na mesma área, na Rua Jeronimo da Veiga,  O BAR, de Fernando d´Ávila com boa música e ambiente.

Esses bares hoje parecem coisa de tempos remotos, nada mais existe igual, o mundo mudou e os bares do passado são lembrança de história.

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