Os Durrells, por Walnice Nogueira Galvão

O encanto da série vem muito de sua implantação na ilha grega de Corfu, no Mar Jônico.

Os Durrells

por Walnice Nogueira Galvão

Esta simpática série, ao aparecer agora na televisão, trouxe à memória um nome que se tornou conhecido nos anos 50-60, quando Lawrence Durrell foi lançando sucessivamente os quatro volumes do Quarteto de Alexandria, intitulados Justine, Balthazar, Mountolive, Clea. Bem orquestrado, o lançamento levou ao delírio os leitores, que esperavam com ânsia o surgimento dos demais volumes e disputavam as traduções imediatas para outras línguas.

Mais tarde, o autor até escreveria outro quarteto, aliás um quinteto, O quinteto de Avignon, repetindo aproximadamente as mesmas técnicas e achados do anterior. Mas nunca mais atingiria aquele patamar, o que não quer dizer que não tenha ficado rico e famoso. E assim ele foi deslizando para o esquecimento, apesar de autor de numerosa obra de ficção e não ficção, incluindo poesia e teatro. Sic transit gloria mundi…

Tanto que o Durrell famoso hoje em dia é seu irmão caçula, Gerald Durrell, autor da Corfu trilogy, autobiografia em que se baseia a série. Todavia, não é pela trilogia que ele se alçou à fama mas sim porque, como naturalista, desenvolveu a vida toda programas de rádio e televisão sobre animais, na BBC, tornando-se querido de um público em que o carinho pelos bichos é proverbial, como é o caso dos ingleses. Fazia constantes excursões aos mais remotos e exóticos cantos da Terra, colhendo material para seus programas e para seus livros, que se tornaram bestsellers. E era um paladino da causa animal.

A série embaralha um pouco as coisas, principalmente tendo em vista diminuir a distância de idade entre os irmãos e tornar a fratria mais unitária. De fato, a essa altura, em Corfu, Lawrence já tinha se casado e não vivia mais na casa materna.

O encanto da série vem muito de sua implantação na ilha grega de Corfu, no Mar Jônico. A mãe viúva resolveu se mudar para lá nos anos 30, com toda a família: três filhos (Lawrence já lá estava) e uma filha; uma tia velha depois se agregaria. Ia em busca de boas condições atmosféricas: o contraste entre uma região ensolarada e as perpétuas brumas da Inglaterra não poderia ser maior. Também não era de desprezar o passadio mais barato, pois seus recursos não iam muito longe. Quem faz o papel da atribulada mãe, com sensibilidade e graça, é a atriz inglesa Keeley Hawes.

Os gregos retratados são calorosos e engraçados, cheios de costumes pitorescos, talvez um tanto idealizados ou estereotipados. Por sua vez, a família não fica atrás em matéria de idiossincrasias e excentricidade. A mãe, ainda jovem e bem posta, tem admiradores com os quais não lida muito à vontade. Os filhos, então… A menina está apaixonada por um padre; o segundo filho tem três namoradas ao mesmo tempo, o que demanda uma logística enredada; o filho mais velho só quer escrever sem parar; o caçula, Gerald, enche a casa de animais esquisitos: pelicanos, flamingos, lontras, cobras, abutres e até um bicho-preguiça. A vocação é precoce e visceral.  

Vivem todos juntos em domesticidade caótica num casarão meio arruinado, no meio de um jardim selvagem, onde tudo pode acontecer. E, afora os bichos de estimação de Gerald, também perambulam por ali cabras, porcos, galinhas, um jumento. As idas e vindas de todas as personagens, bem como as confusões em que se metem, ocupam o entrecho.

Posteriormente, Gerald, além de popular, tornou-se um cidadão benemérito. Criou um zoológico dedicado exclusivamente a salvar animais em extinção. O zoo oferece atividades pedagógicas interessantes; além do mais, você pode hospedar-se lá, em cabanas bonitinhas. E, naturalmente, os animais em extinção inscrevem-se entre os mais esquisitos e estranhos, o que faz a criançada enlouquecer.

Grande militante da causa, seu zoo oferece cursos que formam especialistas em ambientalismo e conservacionismo do mundo inteiro. Esse é o autor do livro autobiográfico em três volumes, Corfu trilogy, em que se baseia a série. E a tal ponto desbancou o irmão na estima e no reconhecimento geral, que quem pergunta por Lawrence Durrell recebe a resposta: “Quem? Aquele escritor que era irmão do Gerald?”

Walnice Nogueira Galvão é Professora Emérita da FFLCH-USP

1 comentário

  1. Eu também venho chamando a atenção para isso. Me preocupa muito como a previdência vai se sustentar sem as devidas arrecadações, mas ninguém me responde. Mas já que este assunto foi colocado em pauta e eu não tenho conhecimento dos termos dessa reforma, eu pergunto: não haveria mais nenhuma contribuição dos trabalhadores? Hoje somam algo em torno de 65.000.000 de trabalhadores que contribuem com a previdência. Eles deixariam de contribuir? Se continuarem empregados, eles teriam que mudar de regime previdenciário? Porque? E as empresas deixariam de contribuir também? São incógnitas para mim. Se alguém puder me responder, eu agradeceria muito. Como ficará o sistema previdenciário para quem continuar trabalhando?

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