Série Especial GGN
Por que o crédito é tão caro no Brasil?
Artigo 3 – O botão que move toda a economia brasileira
por Maurício Martinelli Luperi
Como uma decisão de apenas 0,25 ponto percentual na Selic pode alterar o crédito, os investimentos, o emprego e o crescimento econômico
Quando iniciamos esta série, imaginávamos responder à pergunta sobre os spreads bancários brasileiros em seis artigos. Entretanto, à medida que aprofundamos a investigação, percebemos que o próprio tema dos spreads nos conduzia a uma questão ainda mais ampla: como a política monetária percorre toda a economia brasileira.
Por essa razão, decidimos ampliar a série para oito artigos.
A mudança não representa uma alteração de rumo, mas o aprofundamento natural da investigação. Afinal, tornou-se impossível explicar por que o crédito brasileiro é tão caro sem compreender primeiro como uma decisão do Banco Central se propaga por todo o sistema financeiro.
Neste artigo analisaremos justamente esse mecanismo.
No próximo, veremos por que esse processo ocorre de maneira muito diferente nos Estados Unidos.
Só então estaremos preparados para discutir a influência da estrutura da dívida pública, das LFTs e da literatura de Nakano e Oreiro sobre os juros brasileiros.
Um aumento de apenas 0,25 ponto pode mudar toda a economia?
Imagine que amanhã o Comitê de Política Monetária (Copom) anuncie uma decisão aparentemente modesta.
A taxa Selic sobe de 14,25% para 14,50% ao ano.
A notícia ocupa alguns minutos nos telejornais.
Os jornais publicam entrevistas com economistas.
No dia seguinte, o assunto praticamente desaparece.
Para a maioria das pessoas, trata-se apenas de uma informação distante.
Afinal, o que representam apenas 0,25 ponto percentual?
Agora acompanhemos o que acontece nas semanas seguintes.
Uma pequena indústria em Campinas precisa renovar seu capital de giro para comprar matéria-prima.
Uma empresa de confecções em Santa Catarina pretende antecipar duplicatas para pagar fornecedores.
Uma transportadora em Goiás deseja financiar novos caminhões.
Uma família quer trocar de automóvel.
Outra pretende comprar seu primeiro imóvel.
Todas elas descobrirão que o dinheiro ficou um pouco mais caro.
Algumas reduzirão investimentos.
Outras adiarão projetos.
Outras simplesmente desistirão.
Como isso é possível?
Como uma decisão tomada por nove diretores do Banco Central consegue modificar milhões de decisões econômicas espalhadas por um país continental?
Responder a essa pergunta é muito mais importante do que parece.
Porque compreender como a Selic percorre a economia é compreender por que o crédito brasileiro permanece entre os mais caros do mundo.
O preço mais importante da economia
Toda economia possui milhares de preços.
Existe o preço do café.
Da gasolina.
Da energia elétrica.
Do dólar.
Do trabalho.
Mas existe um preço que influencia praticamente todos os demais.
O preço do dinheiro.
É justamente esse preço que os bancos centrais procuram administrar.
No Brasil ele recebe um nome bastante conhecido.
Selic.
Nos Estados Unidos existe uma taxa equivalente.
A Federal Funds Rate, definida pelo Federal Reserve.
À primeira vista, ambas cumprem exatamente a mesma função.
Controlar a inflação e estabilizar a economia.
Essa afirmação está correta.
Mas está longe de contar toda a história.
A verdadeira diferença aparece quando observamos como essa taxa básica se espalha pelo restante da economia.
É justamente nesse ponto que Brasil e Estados Unidos começam a seguir caminhos bastante diferentes.
A Selic não é o juro que o banco cobra
Existe um equívoco bastante comum.
Muitas pessoas imaginam que, se a Selic está em 14,25% ao ano, basta aos bancos acrescentarem alguns pontos percentuais para definir o juro de um empréstimo.
Não funciona assim.
A Selic não é a taxa do cartão de crédito.
Nem do cheque especial.
Nem do financiamento de veículos.
Ela funciona como o alicerce sobre o qual todas essas taxas serão construídas.
Cada operação acrescenta novos componentes.
Prazo.
Risco.
Custos administrativos.
Tributos.
Inadimplência.
Margem financeira.
Foi justamente sobre esses componentes que discutimos nos dois primeiros artigos desta série.
Agora precisamos dar um passo atrás.
Precisamos compreender como esse alicerce influencia todo o restante da construção.
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Como uma decisão do Copom chega ao bolso do brasileiro?
Uma boa maneira de entender esse processo é imaginar uma corrida de revezamento.
O primeiro corredor entrega o bastão ao segundo.
O segundo ao terceiro.
O terceiro ao quarto.
Até que o último cruza a linha de chegada.
Com a política monetária acontece algo semelhante.
O primeiro corredor é o Copom.
Depois entram o Tesouro Nacional e os títulos públicos.
Em seguida aparecem bancos, fundos de investimento e investidores institucionais.
Só então chegam as empresas.
Depois as famílias.
Somente no final dessa longa cadeia aparecem os juros cobrados no cartão de crédito, no financiamento imobiliário, no capital de giro ou no desconto de duplicatas.
Quando observamos apenas o banco cobrando juros elevados, estamos olhando para o último corredor da prova.
Neste artigo faremos exatamente o caminho inverso.
Voltaremos até o primeiro.
O primeiro elo da corrente
A cada aproximadamente quarenta e cinco dias, o Copom reúne-se para decidir qual deverá ser a taxa básica de juros da economia.
Para isso observa dezenas de indicadores.
Inflação.
Nível de atividade.
Mercado de trabalho.
Situação internacional.
Taxa de câmbio.
Expectativas.
Ao final da reunião define apenas uma taxa.
A Selic.
Essa decisão, entretanto, não modifica imediatamente a vida das pessoas.
Ela inicia um processo.
E esse processo percorre praticamente toda a economia brasileira.
O Tesouro Nacional entra em cena
Quando pensamos em política monetária normalmente lembramos apenas do Banco Central.
Mas existe outro personagem igualmente importante nessa história.
O Tesouro Nacional.
É ele quem administra a dívida pública federal.
Para financiar essa dívida, o governo emite diferentes tipos de títulos públicos.
Alguns possuem remuneração prefixada.
Outros acompanham a inflação.
E existe um terceiro grupo que terá enorme importância para nossa investigação.
As Letras Financeiras do Tesouro (LFTs).
Esses títulos possuem uma característica bastante particular.
Sua remuneração acompanha diretamente a taxa Selic.
Quando o Copom aumenta a taxa básica, essas aplicações passam automaticamente a render mais.
À primeira vista, parece apenas um detalhe técnico da administração da dívida pública.
Na realidade, esse detalhe modifica os incentivos de todo o sistema financeiro.
Quando o dinheiro escolhe entre segurança e risco
Imagine agora outra situação.
Você acabou de vender sua empresa.
Recebeu R$ 100 milhões.
Como aplicaria esse dinheiro?
Você possui duas alternativas.
Na primeira, compra títulos públicos federais.
Na segunda, financia uma empresa que pretende construir uma nova fábrica.
Qual delas parece mais segura?
Provavelmente a primeira.
Então surge uma pergunta simples.
Quanto essa empresa precisará oferecer para convencê-lo a abandonar um investimento extremamente seguro e aplicar seus recursos em um projeto sujeito a riscos?
Naturalmente, precisará oferecer uma remuneração maior.
Agora imagine que o Copom aumente a Selic de 14,25% para 14,50%.
Automaticamente a remuneração das LFTs também aumenta.
A empresa continua exatamente a mesma.
Seu projeto continua o mesmo.
Seus riscos praticamente não mudaram.
O que mudou foi a atratividade da alternativa mais segura.
Em economia, isso recebe o nome de custo de oportunidade.
Quanto maior o retorno proporcionado pelo investimento mais seguro da economia, maior tende a ser a remuneração exigida para financiar atividades privadas.
É justamente aqui que a Selic começa a irradiar seus efeitos para muito além do Banco Central.
Como uma decisão do Copom percorre a economia
Copom
↓
Selic
↓
Títulos públicos (LFTs)
↓
Bancos • Fundos • Investidores
↓
Crédito às empresas e famílias
↓
Capital de giro • Financiamentos • Consumo • Investimentos
↓
Produção • Emprego • Crescimento econômico
Até aqui acompanhamos apenas o início dessa trajetória.
Mas ainda permanece uma pergunta decisiva.
Se praticamente todos os países possuem bancos centrais e taxas básicas de juros, por que a política monetária parece produzir efeitos muito mais intensos no Brasil do que nos Estados Unidos?
Responder a essa pergunta exige conhecer um conceito pouco discutido fora das universidades, mas absolutamente fundamental para compreender o funcionamento da economia moderna.
A profundidade financeira.
É justamente por ela que continuaremos nossa investigação no próximo artigo.
Mauricio Martinelli Luperi é economista, doutor pela FGV-SP e mestre pela USP. Professor e pesquisador há mais de duas décadas, dedica-se ao estudo da macroeconomia, do desenvolvimento econômico, da política monetária e da história do pensamento econômico. Autor de trabalhos sobre equilíbrio geral, metodologia da economia, industrialização e regime de metas de inflação, tem concentrado suas pesquisas recentes na relação entre sistema financeiro, Banco Central e desenvolvimento, formulando o conceito de “autonomia capturada” para analisar a condução da política monetária brasileira.
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