Por uma Democracia Antimanicomial, por André Nader

O dezoito de Maio marca, no Brasil, o dia nacional da Luta Antimanicomial, momento oportuno para lembrarmos dos motivos pelos quais dizemos não ao manicômio.

do Psicanalistas pela Democracia

Por uma Democracia Antimanicomial – a alteridade é incontornável, o outro existe, o mundo é de todos e não há muro que nos liberte dessa responsabilidade

Por André Nader

Talvez tenhamos sido, enquanto sociedade, nesses pouco mais de trinta e quatro anos de democracia, pouco radicais com seu significado. Tal fato nos obriga a sermos redundantes ao nomear o que queremos: uma democracia antimanicomial. A democracia é muito mais do que a eleição direta de representantes. Ela também significa menos muros, menos catracas e menos condomínios e se sustenta na ideia de que há uma responsabilidade compartilhada de cada um de nós em relação aos outros. É justamente a favor da desresponsabilização que os muros são construídos. Aqui, os manicômios e a luta contra eles são um instrumento potente para a compreensão dessa questão. Compartilhar responsabilidades diante da loucura não é tarefa em nada fácil. Foi frente a obstáculos como esse que se decidiu pela internação como solução: um tipo de resposta que, como discutimos, é regida por uma lógica que oculta, excluí e, se possível, lucra com isso — uma lógica que se desresponsabiliza pela loucura, ocupando-se apenas de interesses individuais.

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Quando falamos em lutar contra a lógica manicomial, mais do que propor uma solução, é importante lembrar, impomos um desafio: como responsabilizar-se? Seria simplificar demais a questão supor que bastaria acabar com o manicômios e com sua lógica na sociedade. Esse não passa de um primeiro (importante) passo, pois o desafio vem depois. Como estar diante da loucura, relacionar-se com ela, sustentar sua radical diferença, suas crises e sua inconstância? Qualquer pessoa que trabalha nesse campo sabe que, nesse ponto, saímos do campo das respostas prontas e entramos para o campo da invenção. Ser antimanicomial não é apenas ser contra algo, mas, fundamentalmente, ser capaz de habitar o mundo tomando responsabilidades para si: sem a proteção dos muros e sem qualquer garantia de que aquilo que funciona um dia, funcionará no próximo.

Trata-se, por consequência, de um eterno processo de construção no qual as conquistas de um dia podem ser os perigos do dia seguinte. Pois bem, a democracia se faz de uma indeterminação equivalente a essa, bem como de uma constante invenção de respostas repletas de perigos — o que nos obriga a sempre repensá-las. A democracia é, portanto, antimanicomial. Fica como desafio aprofundarmos o significado dessa fórmula, evitando que ela seja rebaixada ao rol das respostas simples, rápidas e, portanto, violentas. Que o dezoito de Maio sirva para lembrarmos de seguir adiante com essa tarefa.

*Atualizando os valores da época para os dias de hoje.

**Essa é uma ideia apresentada pelo Bruno Torturra em seu podcast Fluxo apresenta: Boletim do Fim do Mundo.

André Nader – Psicanalista, mestre em Psicologia pelo Instituto de Psicologia da USP. Autor do livro “O não ao manicômio: fronteiras, estratégias e perigos”.

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Créditos das imagens: 1a imagem: Luiz Vaz. 2a imagem: Randy Colas

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