Primo Levi e o antifascismo, por Caio Henrique Lopes Ramiro

O fascismo é um câncer que prolifera rapidamente, e seu retorno nos ameaça. É pedir demais que nos oponhamos a ele desde o início?

Primo Levi, escritor e químico italiano. Foto: Reprodução/USP

PRIMO LEVI E O ANTIFASCISMO

Por Caio Henrique Lopes Ramiro[1]

 

No ano de 1975, exatos trinta anos após o término da 2ª guerra planetária em que saiu derrotada militarmente a aliança nazi-fascista, Primo Levi escreve o texto Assim foi Auschwitz e alerta: “o fascismo é um câncer que prolifera rapidamente, e seu retorno nos ameaça. É pedir demais que nos oponhamos a ele desde o início?” Levi é um judeu italiano ─ nascido em Turim a 31 de julho de 1919 ─, que integrou a resistência ao fascismo na Itália de seu tempo, siginfica dizer é um antifascista. Em 13 de dezembro de 1943 foi capturado e preso em um esconderijo localizado nos Alpes e, doravante, encaminhado para o campo de concentração e extermínio de Auschwitz.

A experiência do campo marcará a sua pele e a (sobre)vida deste químico de formação e escritor por força de um dever de dar testemunho, desse modo, por ser um sobrevivente dos campos a obra de Levi é um relato do mal talvez banal, mas de crueza radical; daquilo que se materializa e toma forma legal, uma violência mítica que se transforma em verdadeira fábrica de morte, gerenciada pelos nazistas.

A questão colocada por Primo Levi alcança nosso tempo e seu testemunho ecoa fortemente em nossos dias, tocando em pontos importantes do debate político brasileiro, em especial nos permite pensar o tema do antifascismo, ou seja, o que significa uma ação política de oposição ao fascismo. De saída, convém colocar alguns elementos acerca do que se pode compreender como fascismo, não sem alguma dificuldade de aproximação do fenômeno político a ser encarado como objeto de nossa reflexão. Não aceitamos como tarefa uma exaustiva análise do problema fascista, mas, sim, destacar alguns pontos que nos ajudam a entender esse difícil enigma.

Já de algum tempo vem se refletindo a respeito e se produziu fecunda literatura acerca do fascismo e suas possíveis definições teóricas, contudo, em linhas gerais, podemos verificar três significados usualmente atribuídos ao termo, a saber: a) uma demarcação histórica, que aponta para a historicidade específica do fascismo italiano, surgido na quadra dos anos 1920 do século passado; b) uma abordagem internacional, que considera a projeção do fascismo para além das fronteiras italianas, fundamentalmente o seu alcance no território alemão ─ o que foi caracterizado como fascismo alemão ─, ou ao menos o aparecimento de uma literatura de enfrentamento último que enaltece a guerra e os guerreiros, como se verifica, por exemplo, nos escritos de Ernst Jünger, o que se coloca no campo de uma mobilização total dos ressentimentos, projetando a imagem por um lado de uma guerra eterna e, por vezes, de um último combate, que nas sombras, conforme nos diz Walter Benjamin, contém a ideia de uma guerra ritual e técnica que permite um discurso que pretende produzir um novo nacionalismo; c) o terceiro uso caracteriza todos os movimentos e ideologias que se aproximam do primeiro termo, ou seja, do “fascismo histórico”, tomando uma abragência tal que tornou difícil sua utilização. Desse modo, há uma tendência de restringir sua aplicação e considerar o fenômeno dentro do marco temporal europeu dos anos de 1919-1945, tomando os modelos italiano e nazista como referência.

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Conforme mencionado linhas atrás e observando os limites desse escrito, pretendemos apresentar as linhas gerais daquilo que se caracteriza como fascismo.  Importante considerar que o fascismo é um regime político autoritário que tem por características uma dominação exercida pela via do culto ao chefe, adoração construída por uma teologia política que trabalha um discurso acerca do caráter mítico da liderança, um dispositivo de mistificação da personalidade originada no mito da coragem do soldado/combatente ou no do Messias que purificará a política, o que implica no controle total da sociedade. Ainda, pode haver uma monopolização da representação política por meio do partido único de massas e hierarquicamente organizado, o que não significa o desaparecimento por completo de figuras “míticas” de liderança.

Além disso, constrói-se uma narrativa ideológica com exaltação do elemento nacional, ou seja, um nacionalismo que despreza os valores democráticos ou liberais, bem como alguma pretensão de colaborção de classes, tendo como inimigo o socialismo e o comunismo, o que se apresenta como um projeto de extinção das oposições pela violência e o terror e, não obstante, o uso de um aparelho de propaganda política que, nos dizeres do ministro da propraganda nazista Joseph Goebbels, fundamenta-se na mentira repetida mil vezes ─ o que ganha enorme significado em tempos de redes sociais, memes, etc ─, por fim, em âmbito econômico há um certo dirigismo de uma economia ainda estruturada na propriedade privada e na lógica do capital que tem por objetivo o lucro.

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Diante de tais características do fascismo a questão de Primo Levi parece se projetar fortemente em nosso tempo, ainda mais quando consideramos a existência de um dossiê de monitoramento de atividades antifascistas produzido pelo ministério de Estado da Justiça e Segurança Pública, tendo por alvo, inicialmente, servidores públicos. Tornou-se de conhecimento por matéria publicada pelo jornalista Rubens Valente, no mês de julho, que possivelmente até 579 pessoas foram monitoradas por atividades antifascistas, sendo que o caso chegou ao Supremo Tribunal Federal. Não caberia aqui o exame do conceito em perspectiva histórica do antifascismo, por isso, importa considerar o alerta de Primo Levi, como o fascismo é um câncer e devemos nos opor a ele, todos e todas que discordam do ideário exposto linhas atrás e se contrapõe a essa perspectiva tomam uma atitude antifascista.

Em comentário recente a essa questão, a ilustre professora Marilena Chauí nos fornece uma “pitada de lógica clássica”[2] e, após apresentar o famoso silogismo a respeito da mortalidade humana com o exemplo de Sócrates (Todos os homens são mortais. Sócrates é homem. Sócrates é mortal), a filósofa ─ passando pelo silogismo perfeito de Aristóteles em que as premissas e a conclusão são universais (Todos os astros se movem.
Todos os planetas são astros.
Todos os planetas se movem) ─, afirma que os agentes governamentais que produziram o documento cometeram um erro lógico gritante, uma vez que ao introduzirem o antifascismo como subversão, estão obrigados a afirmar em silogismo perfeito que a ordem vigente no Brasil em nossos dias é fascista (Todos os antifascistas são subversivos. Todos os democratas são antifascistas. Todos os democratas são subversivos).

Assim, na definição de Primo Levi, um regime fascista é todo aquele em que se “negam, na teoria ou na prática, a fundamental igualdade de direitos entre os seres humanos; ora, como o indivíduo ou a classe cujos direitos são negados raramente se adapta, num regime fascista torna-se necessária a violência ou a fraude. A violência, para eliminar os opositores, que sempre existem; a fraude, para confirmar aos fiéis seguidores que o exercício da arbitrariedade é louvável e legítimo”.

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Dessa maneira, se o testemunho foi o dever de Primo Levi, assumindo aqui um sentido ético, portanto; ele chega até nós, que devemos, então ─ em respeito à memória daqueles que sucumbiram, bem como dos que se salvaram e testemunharam, não parece razoável se colocar nas fileiras daqueles que pretendem pisar sobre seus corpos ─, colocar e refletir honestamente acerca da imperativa questão: “o fascismo é um câncer que prolifera rapidamente, e seu retorno nos ameaça. É pedir demais que nos oponhamos a ele desde o início?”

 

[1] Professor no curso de Direito do Centro Universitário Central Paulista (UNICEP). Intgrante do grupo de pesquisa Ética, política e religião: questões de fundamentação, vinculado ao programa de pós-graduação em Ciências da Religião da PUC-Campinas.

[2] Ver: CHAUÍ. https://aterraeredonda.com.br/uma-pitada-de-logica-classica/

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