Qual é o valor social de um jornalismo dócil?, por Dairan Paul

Em tempos de crise sobre o valor social da prática jornalística, qual é a função de uma postura dócil e servil nas redações?

As relações promíscuas entre jornalistas e fontes são alvo de sátira do cartunista André Dahmer. Créditos: twitter.com/malvados.

do ObjETHOS 

Qual é o valor social de um jornalismo dócil?

por Dairan Paul*

Três pérolas atravessaram uma semana repleta de acontecimentos: a última capa de Veja, o eufemismo nas declarações de Ricardo Salles e a postura cínica dos jornais após a aprovação da Reforma da Previdência. Em tempos de crise sobre o valor social da prática jornalística, qual é a função de uma postura dócil e servil nas redações? A seguir, discuto esses exemplos para, ao final, retomar uma reflexão sobre o excesso de obediência no jornalismo.

Poupe, caro leitor

No objETHOS, a falta de qualquer questionamentos à Reforma da Previdência já havia sido alertada pela pesquisadora Juliana Freire. Parte da cobertura midiática sobre o tema naturalizou a aprovação da medida, embora a própria população desconhecesse suas consequências. Um exemplo debatido por Freire foi a divulgação de dados do Ibope, em maio desse ano, pelo Jornal Nacional:

Na notícia foram trazidos os dados da pesquisa realçando-se que 59% da população brasileira concorda totalmente (31%) ou em parte (28%) com a ideia de que é necessário reformar a previdência, mas que apenas 36% conhecem seus principais pontos. Destes, 39% a aprovam, enquanto 51% são contrários a ela. E, na notícia que se segue a essa, ao invés do Jornal Nacional elencar e trazer fontes que discutam os pontos principais da Reforma para que a sociedade brasileira possa conhecê-la, o que ocorre é justamente o contrário. Evidencia-se mais uma vez que ela é necessária tal como foi formulada por meio do reforço das declarações do ministro da Economia, Paulo Guedes, sem se ouvir com o mesmo peso as vozes contrárias.

Com a aprovação da Reforma pelo Senado, o assunto voltou a ser pauta no telejornal. Nesta reportagem, veiculada na edição de sábado, enfatiza-se o gasto público como principal causa da Reforma, além de um possível superávit nos próximos 10 ou 15 anos. A cereja do bolo, no entanto, ficou reservada para o final, quando a matéria sugere que cabe ao trabalhador superar a aposentadoria e não depender do sistema previdenciário. A fala é dita por uma chefe de setor de compras – única fonte da matéria que não é especialista, servindo de representante do povo brasileiro.

O tom celebratório sobre uma suposta independência financeira do trabalhador é sentido comum em outras coberturas. Ao focar no indivíduo, tais discursos se revestem de um enquadramento moral que, no fundo, mais culpabilizam o leitor/telespectador do que o respeitam como cidadão.

Veja-se, por exemplo, o texto assinado por Ana Leoni, superintendente de Educação da Anbima (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiros e de Capitais), na edição deste sábado do jornal Folha de S. Paulo. Com o título “Brasileiro terá de trabalhar mais tempo e saber como poupar”, Leoni comemora a aprovação da Reforma porque brasileiros terão de assumir mais responsabilidades: “não poderemos mais ficar sentados no banco da praça esperando que alguém cuide do nosso futuro financeiro por nós. Agora é conosco mesmo. Teremos de ter mais as rédeas das nossas decisões financeiras ao longo da vida longa”. A certa altura, um trecho diz que mulheres já esperam se aposentar após os 60 anos. Leoni naturaliza esse dado e chega ao ponto de escrever que “para o público feminino é intrínseca a característica de se preocupar mais com o futuro”.

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Tanto nas redes sociais como na caixa de comentários da própria Folha, o texto foi duramente criticado. “Uma investidora não poderia mesmo estar contra a nova previdência social, não é? Conversa pra boi dormir”, resume uma leitora.

Também temos um mea culpa às avessas. No sábado (26), a capa do jornal O Estado de Minas explorou os prejuízos da Reforma no bolso dos brasileiros. Para o veículo, as novas regras “surpreendem trabalhadores, que lamentam o adiamento dos planos de aposentadoria”. Ironia das mais finas: não é justamente a falta de informação que precede a surpresa? Dois dias antes, o mesmo jornal manchetou “Nova Previdência gera economia de R$ 800 bi”.

Ainda, não custa lembrar que no período de maio, quando saiu a pesquisa do Ibope mencionada pelo Jornal Nacional, O Estado de Minas limitou-se a destacar que existiam mobilizações pela nova Previdência. Também deu espaço a uma fala de Paulo Guedes, que vinculou o crescimento econômico do país à aprovação das reformas. O constante enquadramento positivo dá pouca (ou nenhuma) margem para qualquer sinal de alerta que pudesse acompanhar as reformas. Ao leitor e trabalhador brasileiro, sobrou o cinismo de uma lamentação tardia na capa mais recente do jornal.

Uma mediação dócil e servil

Ao lado da Reforma da Previdência, as declarações falsas do ministro Ricardo Salles contra a ONG Greenpeace também chacoalharam o noticiário nacional. Através de um vídeo editado, o político do partido Novo mentiu que a organização não estava auxiliando na limpeza das praias do Nordeste atingidas por óleo.

Tratando de outra mentira, Folha acertou no título “Salles usa imagem antiga para insinuar que Greenpeace seria culpado por óleo no NE”, ao destacar a prova falha do ministro. Mas essa redação não foi comum a outros veículos, como observa Cecília de Olliveira. A jornalista do Intercept Brasil questiona por que manchetes como as de Estadão e Diário de Pernambuco não são mais claras para o leitor. Na falta de contundência, soam como um jornalismo meramente declaratório – Salles “diz que…”, “insinua que…”, “sugere que…”, sem maiores explicações sobre o estatuto de verdade das afirmações. E a mediação jornalística, onde fica?

É preciso reconhecer que a equipe de checagem do Estadão realizou um bom trabalho posteriormente, destrinchando como o ministro do Meio Ambiente criou seus boatos. Mas se o estrago está feito, quem está disposto a ler as correções? A provocação de Cecília é pertinente: precisamos investir em boas manchetes. Se a informação jornalística compete com outras redes sociais, e se o público geral tende a consumir mais títulos do que matérias completas, o diferencial do jornalismo não deveria ser a clareza? Trata-se também de uma questão de acesso: o conteúdo jornalístico que circula pelo Whatsapp, por exemplo, nem sempre pode ser lido na íntegra, dentro dos portais de jornalismo, simplesmente pelo uso limitado do pacote de dados do usuário. Daí a importância de um título esclarecedor, que não deixe mais dúvidas do que respostas.

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Para fechar a semana com chave de ouro, um último exemplo de obediência cega: o caso Celso Daniel, na reportagem de capa da revista Veja. Em novo depoimento, Marcos Valério de Souza, condenado pelo mensalão, teria ouvido do empresário Ronan Maria Pinto supostas ligações entre Luiz Inácio Lula da Silva e o assassinato de Celso Daniel, ocorrido em 2002. Mas essa versão foi desmentida pelo promotor Roberto Wider Filho, em entrevista ao El País Brasil. Na matéria de Veja, Wider Filho aparece como funcionário que acompanhou o depoimento de Marcos Valério. Já na apuração do jornal, uma fonte ligada ao Ministério Público do Estado de São Paulo afirma que nenhum dos promotores recebeu qualquer material de Valério apontando Lula como mandante do crime. No mínimo, a reportagem publicada por El País levanta suspeitas sobre as informações de Veja.

O estrago, é claro, já estava feito, e não demorou para que manifestações públicas de políticos, como o presidente Jair Bolsonaro, viessem à tona. Mas a conduta jornalística de Veja também foi alvo de questionamento: o jornalista e pesquisador Sérgio Lüdtke lamentou apurações que não investigam o interesse particular das fontes. Se o caso sinaliza para um uso irresponsável do jornalismo – ao disseminar informações que são eventualmente contestadas –, é preciso lembrar que a sua legitimidade social, já bastante fragilizada, afrouxa ainda mais quando o discurso jornalístico apresenta pouca ou nenhuma diferença, em relação ao seu estatuto de verdade, quando comparado a correntes de Whatsapp, por exemplo. Se a regra é obedecer cegamente às fontes, atender aos anseios de um suposto imaginário do leitor e deixar de apurar informações sem qualquer preocupação com a honra ou reputação dos outros, pergunto: por que a população geral teria motivos para acreditar na instituição jornalismo?

Talvez pior do que o comportamento dócil e servil às fontes é a aproximação do caso Veja com uma estratégia política típica dos tempos atuais: pouco importa se o conteúdo é falso ou não, desde que ele ganhe vida própria a partir de uma narrativa já formatada para atender ao gozo do imaginário popular. Quando os fins justificam os meios, qualquer aproximação com a verdade é dispensada. A frase pode soar como um exagero, mas foi dita claramente por Olavo de Carvalho, figura proeminente da nova direita.

O autointitulado filósofo se referia a um vídeo fake que circulou durante a semana, com supostas ameaças das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farcs) a Jair Bolsonaro. Foi postado pela deputada federal Bia Kicis (PSL/DF) e, após um tempo, deletado (o original está aqui). Segundo a ex-procuradora, a remoção do tweet se deu assim que ela notou ser uma filmagem falsa. “A gente pode se enganar, mas não pode perder a integridade”, disse. Kicis, que chegou a inserir uma marca d’água com o próprio nome no vídeo, diz ter recebido o material de uma fonte “muito respeitável”. Na prática, seu pedido de desculpas pouco serviu. Àquela altura, o vídeo já tinha sido compartilhado por diversas outras figuras políticas, dentre elas o próprio presidente. Com a narrativa montada, o peso da correção foi pífio – quando não completamente ignorado, como no post de Olavo de Carvalho.

Jornalismo obediente em três atos

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No manifesto Discurso da Servidão Voluntária, Étienne de La Boétie questionou por qual razão sujeitos tiranizados serviam à tirania, na França do século XVI. O texto, publicado após a morte do autor, em 1563, é especialmente atual porque desvela os desejos microfascistas que habitam nos sujeitos. A obediência é um círculo em si mesmo, diz La Boétie. Obedece-se porque se quer fazer o outro obedecer. Não se obedece ao outro apenas por medo, portanto, mas porque se deseja a tirania – o que, no fundo, é o desejo de propriedade, de bens, e o mais radical desprezo à liberdade.

Se o valor social do jornalismo está abalado e compete com informações de toda a sorte, jornalísticas ou não, em circulação nos mais variados meios, então por que servir e obedecer à camada minoritária dos mais poderosos? Em Santa Catarina, especialmente, a discussão tem contornos extras. O estado que destinou 75% dos seus votos ao atual presidente está, também, aparelhando suas empresas de mídia com o governo. Neste texto, publicado no objETHOS, o prof. Rogério Christofoletti insiste que, ao jornalismo, cabe manter uma distância segura e não-adesista dos poderes para conseguir narrar os fatos com alguma segurança. Mas talvez o excesso de obediência atenda a outro desejo, que não o da liberdade de informar – há quem diga que o sonho do oprimido é ser o opressor, não?

Os exemplos que elenquei anteriormente são, acredito, diferentes posturas de obediência no jornalismo. A cobertura da reforma sinaliza para o tratamento dócil dos jornais aos investidores, notadamente no caso da Folha de S. Paulo, e na postura cínica de O Estado de Minas. O caso Veja, ainda a ser desdobrado, sugere forte apego às fontes, na ânsia pelo furo – além, é claro, de consolidar um imaginário já bastante trabalhado pelo próprio veículo, associando a principal figura do Partido dos Trabalhadores à qualquer espécie de imoralidade. Parece faltar coragem – ou excesso de zelo nas palavras – para dar nome aos bois no caso de Salles, quando o ministro disseminou, sem quaisquer provas, uma série de informações falsas. O jornalismo dócil também se fundamenta pelo apego à objetividade, não no sentido da factualidade dos acontecimentos, mas à ideia de isenção. Ao se omitir e achar que os fatos falam por si só, como se fosse possível apagar a sua própria mediação, o jornalismo também sugere sentidos. É surpreendente, e algo alarmante, que essa postura ainda encontre espaço nos dias atuais, quando se luta justamente para conferir algum valor social à prática jornalística, cada vez mais fragilizada.


*Dairan Paul é doutorando em Jornalismo (PPGJOR/UFSC) e pesquisador do objETHOS

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1 comentário

  1. Por que definir como “docil” esta parte da imprensa nacional que representa tudo o que Pulitzer definiu na sua célebre frase como “…, uma imprensa cínica, mercenária, demagógica e corrupta…” ?
    O resultado confirma o complemento da frase, pois se formou “…um público tão vil como ela mesma”.
    Discordo de imprensa dócil. Afinal, se quisermos enfrentar e resolver de vez nossos problemas, o primeiro passo é dar o nome correto aos bois.

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