Quando o passado não passa – parte 1: Michel Temer
por Daniel Afonso da Silva
Michel Temer jamais deveria ter sido imposto como candidato a vice-presidente na chapa petista de Dilma Rousseff em 2009-2010. O historiador Luiz Felipe de Alencastro, um fino observador da realidade política brasileira e arguto conhecedor das manhas e artimanhas de seus jogadores, sinalizou, imediatamente após a cogitação do nome do pmdebista, que a manobra poderia malograr. Que, mais dia menos dia, o caldo poderia entornar.
A evidente inexperiência político-partidária da “mãe do PAC” conferia ao candidato a vice excedentes de poder extraordinários. Um conjunto desproporcional de poder e força que poderia pôr em alto risco a configuração governamental futura.
Michel Temer e seus correligionários eram – e são – “raposas velhas”, “velhíssimas”. Feito o diabo – que, como dizem, é tinhoso não por ser o diabo, mas por ser velho.
Além de “velhos” e como “velhos”, Temer e os seus são literalmente carnívoros entre herbívoros. Seguem, como predadores, sedentos por carne viva e poder.
A ministra chefe da Casa Civil do governo em fim de mandato em 2010 era, nesse contexto, um simplório cordeiro diante de tanta gente graúda. Compondo com Michel Temer, pactuava negócios com um desconhecido. Brincando com fogo. Dançando com um verdugo em potencial.
O alerta de Alencastro foi ignorado por todos. A chapa, daquele jeito mesmo, avançou e se sagrou vencedora. O presidente Lula da Silva e o seu vice, José de Alencar, transferiram a responsabilidade máxima do país a um casal em dissenso. Oriundo de matrimônio ajeitado. Em pleno desarranjo nupcial.
Logo na posse – momento de núpcias –, o estranhamento entre presidente e vice ficou latente. Naquele primeiro de janeiro de 2011, o pmdebista foi, publicamente, reconhecido como “corpo estranho”. Ficou evidente para todos que o petismo e alguns petistas se queriam os maiorais e não haveria concessões para agregados.
A euforia lulopetista era o combustível dessa distopia. O presidente Lula da Silva passava a faixa para a sua sucessora com uma aprovação popular de mais de 80%. A presidente Dilma Rousseff, como não poderia deixar de ser, sentia-se partícipe desse êxito.
Mas a situação era mais complexa.
A arrogância petista era imensa. A doxa da bien-pensance lulopetista se impunha autoritariamente por toda parte. Era impossível se contrapor. Os petistas de raiz sentiam-se os donos da bola. Acreditavam ter conquistado sós – sem José Genoíno nem José Dirceu – o sucesso do terceiro pleito presidencial do partido.
Michel Temer – e a própria Dilma Rousseff – eram tidos como apêndice no galardão. Como se tivessem sido mobilizados apenas para “cumprir tabela”. “Garotos-propaganda”. O PT, afirmavam, ganharia com qualquer um. Lula da Silva “elegeria inclusive um poste”.
O poste em questão era Dilma e Temer, Temer e Dilma.
Os frequentadores do Bar da Rosa, do restaurante do Zelão e da garagem do Gela Goela em São Bernardo do Campo jamais dissimularam esse entendimento. Temer e Dilma, Dilma e Temer estavam, portanto, em maus-lençóis. Eram, ambos, “corpos estranhos” no esquema do partido. Mas Dilma Rousseff tinha um álibi: era a presidente eleita. Fora demiurgicamente ungida. Michel Temer, em tragédia, era apenas um agregado de segundo grau.
Isso tudo, desde a saída, dizia muitas coisas. Especialmente que a divisão vinha de toda parte. Partido versus governo. Governo e seu interior.
Nesse quesito, Dilma e Temer, Temer e Dilma eram entre eles, também, estranhos. Nutriam sonhos diversos e sentimentos de mútua suspeição. Mas Dilma Rousseff era a presidente. Michel Temer, o vice. Havia entre eles hierarquia de função. Mas, para além das formalidades, Michel Temer, vice, sofria dupla ou triplamente tudo calado. Era violentado por todos os lados.
Se tudo isso já não fosse o suficiente para se antever o desastre de dimensão colossal, o mentor e fiador da conciliação, Lula da Silva, saiu de cena para tratar d’um câncer ainda em 2011. Na sua ausência, os ratos do partido, da imprensa, do judiciário e infiltrados no próprio governo tomaram conta. Uma verdadeira guerra de chefes foi instaurada. Governo, partido, o governo e o partido viraram campo de tensão.
Não é difícil de se lembrar na “vigorosa” “faxina” que a presidente Dilma Rousseff promoveu em seu ministério antes mesmo do fim do primeiro ano de seu exercício. Um Nelson Jobim, ministro da Defesa, alegar que Ideli Salvatti e Gleisi Hoffmann desconheciam Brasília foi a gota d’água para a presidente se “empoderar” e colocar “cada um no seu quadrado”.
O ministro Guido Mantega nos deve um livro, mesmo que póstumo, de Memórias sinceras sobre esse período de inequívoca e generalizada humilhação. O ministro Carlos Lupi, perigando de ser ejetado do governo, teve que se declarar publicamente com um “eu te amo, presidente”. Os diplomatas todos, a começar pelo discretíssimo chanceler Antonio Patriota, foram lançados na berlinda. O descrédito e a suspeição da presidente chegaram a níveis inimagináveis. Michel Temer, em tudo isso, era apenas mais um alvo da fúria da Sra. Presidente da República.
Nenhum vice-presidente da República, desde que vice-presidentes e presidentes disputam em chapa comum, foi tão hostilizado quanto Michel Temer. Nenhum deles foi, logo na saída, enquadrado como “decorativo”, “decoração”, “paspalho”, “paspalhão”, “planta” e toda sorte de denominações de injúria e impotência que uma imaginação fértil pode encontrar. Nem o governador Itamar Franco, vice indesejado do presidente Fernando Collor, viveu tamanha amargura de intensa desilusão.
A boa crônica jornalística ainda nos deve um bom livro sobre o “inferno do Jaburu”. Entre José Sarney e Hamilton Mourão, apenas Marco Maciel, vice do presidente Fernando Henrique Cardoso, talvez, tenha tido meios para encarnar plenamente a sua função. Do início ao fim, em dois mandatos, ele não foi nem silenciado tampouco jogado ao descrédito. O presidente Fernando Henrique Cardoso quase nada diz de Marco Maciel em seus quatro tomos de Diários da Presidência. O que, por claro, denota algo positivo. Suas lembranças são dedicadas, especialmente, àqueles agentes que, no governo ou ao governo, causaram confusão.
Os entusiastas do casório entre Lula da Silva e José de Alencar devem de se acalmar. Quando do escândalo do mensalão, vale lembrar, José de Alencar esteve às voltas de abandonar a embarcação petista e o presidente Lula da Silva. Inclusive, criando e entrando em outro partido. Relembrar é viver.
Mas Michel Temer foi hors concours. Com ele, a tensão foi demais. Na qualidade de vice-presidente ele presenciou a integralidade da reversão taciturna de expectativas sobre o Brasil. Uma reversão que anima uma desilusão ambiente que nos aflige até hoje.
Michel Temer assistiu silenciado a maquinação do “capitalismo tropical” proposto pela presidente Dilma Rousseff. Sondou calado a emergência da “Nova Matriz Econômica”. Amargou contrariado a eleição das e dos “campeões nacionais”. Notou, desde o princípio, que aquilo era temerário. Pouco verdadeiramente assentado na realidade. Sabia que represar preços, daquele jeito e com aquela intensidade, era “cutucar onças com varas curtas”, como teorizaria o sociólogo André Singer adiante.
Michel Temer viu tudo isso de dentro desde o Jaburu. E nada disse ou pôde dizer. Quando tentou dizer, não foi ouvido. Recebeu um singelo: plantas não falam. Apenas adornam.
Quando as noites de junho de 2013 tiram o sono de todos os responsáveis em função, a totalidade da presidência Dilma Rousseff foi lançada ao corner. Aqueles iniciais “20 centavos” encaixaram como um gancho de direita certeiro no supercilio do governo. Que ficou, imediatamente, caolho e passou a ver, ainda mais, apenas o que queria ver.
Michel Temer foi, contudo, ainda mais marginalizado. A presidente assumiu a globalidade do risco de gerir sozinha e solitária aquela crise. Ela fez muito. Reconheça-se. Acalmou a turba. Mas foi pouco.
Veio a Copa e o “não vai ter Copa”. Veio aquele infame xingamento no Estadual Mamé Garrincha em Brasília. Vieram os guerrilheiros do “padrão Fifa” para tudo – de hospitais a serviços públicos. Não demoraram aparecer os justiceiros da Petrobras. Nem vale a pena se rememorar aquele adesivo acintosa e inacreditavelmente vulgar que fizeram para acondicionar a bomba de combustível ao abastecer seus veículos.
Ali, 2013-2014, tudo já ia perdido. Lula da Silva queria voltar. Precisa voltar. Era aclamado para regressar. Mas não se permitiu e não lhe permitiram. Dilma Rousseff “seguiu” com Temer, sem tremer nem temer.
“Em time que está ganhando não se mexe”, teriam dito.
Mas o governo Dilma Rousseff e o PT estavam ganhando?
Seja como for, Dilma e Michel, Michel e Dilma ganharam novamente as eleições. O mineiro Aécio Neves não se conteve em emoções. Contestou o resultado. Judicializou o pleito. Maculou as eleições. Foi moral e politicamente criminoso. Incitou ódio e fomentou a polarização. Esmagou o que sobrava de uma presidência.
Joaquim Levy, em lugar de Guido Mantega, amenizou a queda. Mas o sinistro já estava contratado. A questão não era “só” a “economia, estúpido”. A questão era a governabilidade. E, talvez, essa entropia de governabilidade tenha se iniciado na partida. Lá no começo. Não em 2013 nem em 2015. Mas em 2009. Quando se permitiu compor uma chapa com quem desconhecia, não gostava nem queria.
Daniel Afonso da Silva é doutor em História Social pela Universidade de São Paulo e autor de “Muito além dos olhos azuis e outros escritos sobre relações internacionais contemporâneas”.
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Raimundo Boaventura
31 de janeiro de 2023 5:27 pmEsse artigo foi escrito por Temer?
Do início aí fim, é uma notória defesa da ‘Ponte para o Futuro’.
Lança dissimuladamente uma teoria de responsabilidade sobre o golpe e as desgraças advindas com seu defendido, foi obra e graça da prepotência petista…
Ufa, nos poupe de tanta insanidade ancorada num título acadêmico…
Um lixo como registro histórico.