Quando o racismo nega o pertencimento, por Cristiane Alves e Marcia Noczynski

E talvez o mais triste é que não precisamos emigrar para sermos estrangeiros apátridas, por vezes somos párias onde nascemos e essa dor sequer é compreendida pelos que estão acolhidos.

O Lugar e a Produção da Identidade. Quando o racismo  nega o pertencimento

Por Cristiane Alves e Marcia Noczynski

A Geografia talvez seja a ciência humana que melhor converse com a psicanálise, pois que o espaço geográfico é resultado da atividade humana, ação e reação das transformações das necessidades do homem, este em constante mudança.

A paisagem cultural materializa no espaço externo o que o indivíduo edifica no espaço intrínseco, pessoal, imaterial. A paisagem é fruto do ego.

O “lugar”, expressão polissêmica, visto que possui muitos significados, assume para a ciência geográfica, o caráter psicológico do afeto.

O lugar envolve pertencimento e identificação. E, exatamente por isso, o lugar não respeita escala. Pode ser um cômodo, a casa, a rua, o bairro, estado ou país. Envolve abarcamento. É fruto de nossos investimentos emocionais, onde deixamos nossas impressões e que, por outro lado, nos transforma como indivíduos.

Este é o motivo que faz com que pessoas se sintam bem na favela com parcos serviços públicos, mas não se identifiquem com o bairro vizinho, com arquitetura elaborada e infraestrutura impecável.

A desigualdade, portanto, cria espaços segregados na geografia, mas o espaço segregado reforça as desigualdades. O homem segrega o espaço e o espaço segrega o homem.

O lugar é portanto, ao mesmo tempo, material e hiperfísico.

É do lugar que surge o cidadão, o indivíduo que transforma e é transformado, o que pertence, se relaciona e usufrui do espaço. O homem fruto do espaço.

Mas nem sempre nos é permitido pertencer. Nem sempre a transformação do espaço nos garante deixar nosso afeto registrado no meio ou que nos apropriemos dessa transformação no campo afetivo. É provável que estar em um lugar não garanta o “ser do lugar”. Essa é a cidadania incompleta.

O cidadão incompleto também é agente transformador, mas não se identifica com o fruto de sua ação, é estrangeiro no lugar. Essa relação conflituosa também imprime marcas na geografia e na psiquê.

Os sem-lugar

O homem tem a necessidade capital de pertencer a algum lugar, algum reduto onde se sinta em casa, no qual as pessoas que vivem nesse lugar o reconheça como um deles. Um espaço onde as referências se encontram, no qual a linguagem com toda a sua ambiguidade, ainda assim, seja comum. Em que a cultura, os hábitos e os costumes lhe sejam familiares. Um lugar em que, de alguma forma, todos viraram cúmplices dos acontecimentos que atravessaram a vida um do outro, sejam eles bons ou ruins, e que permita a você se sentir livre e seguro para ser quem é.

A existência desse lugar é tão preciosa, que você pode até prescindir de ficar o tempo inteiro fixado no mesmo solo. Dá para sair e voltar, ou não. Apenas o fato de você saber que há esse sítio e que você faz parte dele já é um operador estrutural. O importante é poder pertencer. O importante é não se sentir uma visita indesejada. O importante é poder retornar quando quiser e viver a nossa nostalgia sem aflição, pois o lugar está lá e resiste dentro de nós, mesmo que para lá nunca voltemos. As nossas memórias se encarregam de guardar bem guardado o nosso lugar, aquele que é palco da nossa história e de nossos ancestrais.

Para tentar nominar os sentimentos que a falta desse lugar nos tributa, algumas línguas trataram de alcunhar uma palavra que abarque essa saudade singular de quando estamos longe de ‘casa’. Para quem é imigrante, esse lugar geralmente é o seu país, mas poderia ser também outro lugar, desde que lhe caiba ou acolha e que ali se egistre sua história.  Lugar que se pertença de acolhimento, segurança, e, mais que tudo, reconhecimento. Lugar, que quando estamos fora dele, nos sentimos deslocados, com a sensação de que somos inoportunos, que as pessoas estranhas não sabem quem somos, não conhecem a nosso percurso e por isso tudo não nos reconhecem.

Em inglês, o termo é homesick, que quer dizer, ‘doente’ de saudade de casa; em alemão, Heimweh, que significa ‘dor’ de saudade de casa. Em francês, le mal du pays, o ‘mal’ do país, denotando o mal que nos acomete quando estamos longe de casa. Na Alemanha, por exemplo, quando você é imigrante e vai ao médico, a primeira pergunta que ele te fará é se você está Heimweh, pois essa ‘dor’ da falta de casa pode causar muitas doenças psicológicas e orgânicas, com ênfase às depressões e aos transtornos de ansiedade. Legitimar essa dor de saudades do nosso canto, da nossa tribo é determinante para a pessoa melhorar.

Em muitos sitios africanis essa nostalgia adoecedora chama-se banzo. E aos escravizados de lá e aos seus descendentes o banzo agregou à tristeza da depressão o desespero pela alienação da naturalidade. Para muitos o banzo é saudade do que nunca chegaram a conhecer. Um trauma pelo arrancamento do útero.

Esse lugar nos é tão caro, que quando nos afastamos dele, mesmo que voluntariamente, lidamos com a nostalgia dos dias em que por lá estivemos. Para ilustrar o que foi dito até aqui transcrevo o relato reportado por uma trabalhadora doméstica do meu antigo prédio, cuja patroa oferecera “beneplacitamente”que morasse no emprego, não para continuar trabalhando depois do expediente, mas pelas “vantagens” que teria em termos de conforto, uma vez que dormiria em um quarto muito maior que sua casa inteira, poderia comer o que quisesse (pois afinal ela era “um membro da família”) e ainda não precisaria passar quatro horas sacolejando em um ônibus para chegar em casa. A resposta dela a essa “irrecusável” oferta foi arrebatadora. Sem hesitar agradeceu, mas disse preferir o ruim que era seu, ao bom, mas dos outros. Nunca mais esqueci.

Voltando à psicanálise temos que Freud, por exemplo, somente deixou sua casa em Viena e imigrou para Londres um ano antes de sua morte, quando a Áustria foi anexada pela Alemanha nazista. Muito antes, os amigos, familiares e colegas o  alertavam sobre o perigo que corria, mas para quem fundou a Teoria do Inconsciente, não é de se admirar que tenha resistido.  Com os conhecimentos que Freud nos legou, hoje podemos compreender melhor sua resistência. Sabemos que nunca é sem efeito deixar para trás suas origens, especialmente em casos como o dele, à revelia.

É importante que pensemos os que foram arrancados do seu lugar, separados coercitivamente de seus pais, de seus irmãos, da sua terra, da sua história. Os abortados de sua realidade primária, do lugar de afeto. Os refugiados que se tornam filhos indesejados de terras hostis. Odiados por serem quem são. Os sem direito ao lugar, à representatividade, à psicologia do espaço e à geografia do afeto.

Completamos nossa identidade com o que produzimos ao nosso redor como significado de quem somos. Se nos tiram o direito ao lugar matam um afeto que não sabemos como resgatar, tiram nosso ninho para onde voar depois de tudo. E talvez o mais triste é que não precisamos emigrar para sermos estrangeiros apátridas, por vezes somos párias onde nascemos e essa dor sequer é compreendida pelos que estão acolhidos.

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