Quando protestar mata, o carnaval se torna a política do possível no Brasil
por Damares Medina
O brasileiro aprendeu a protestar nas ruas depois de aprender a morrer nelas. Nossa história política começa com corpos esmagados, revoltas abortadas e a pedagogia da violência colonial ensinando, geração após geração, que ocupar o espaço público para confrontar o poder era sinônimo de punição extrema e exemplar. O que se formou ali não foi apenas um padrão de repressão, mas uma gramática do medo. Ainda assim, o corpo brasileiro não desapareceu da rua. Ele reapareceu de outro modo: cantando, dançando, misturando, fazendo da festa uma forma de existir politicamente quando a política aberta era letal.
O Brasil nasce como colônia de um império profundamente violento. As primeiras e ainda tímidas tentativas de revolta, insubordinação e manifestação política foram esmagadas com morte, tortura e extermínio. Desde cedo, aprendemos que ocupar o espaço público para protestar custava caro demais. Aprendemos, no corpo, que manifestar-se era arriscar a própria vida.
Essa violência histórica moldou a nossa gramática política. Quando a manifestação direta se torna inviável, o corpo encontra outras formas de se mover coletivamente. No Brasil, fizemos da festa uma linguagem política. Transformamos a celebração em forma de presença pública. Mesmo sob pobreza estrutural, desigualdade extrema e exclusão persistente, seguimos ocupando o espaço comum com música, dança, cor e afeto. Isso é resistência — ainda que raramente seja reconhecida como tal, sobretudo por olhares externos e, muitas vezes, também pelos nossos próprios.
As grandes festas coletivas brasileiras — como o carnaval e outras celebrações populares — sempre foram culturalmente represadas, moralmente vigiadas, sexualizadas e criminalizadas. Reduzidas a uma caricatura: corpos nus, mulheres objetificadas, suposta promiscuidade. Essa leitura ignora um dado elementar: os povos originários deste território nunca tiveram uma relação moralizada com a nudez. O estranhamento diante do corpo livre é herança colonial. Hoje, essa repressão reaparece de modo particularmente agressivo em certos discursos religiosos que demonizam a alegria, o encontro e a celebração coletiva, tratando o corpo em festa como pecado, desvio, ameaça espiritual.
É nesse pano de fundo que a experiência dos blocos de carnaval no Parque do Ibirapuera, em São Paulo, ganha densidade histórica e política. Na segunda-feira de carnaval, o bloco liderado por Pabllo Vittar, com a participação do grupo coreano NMXX, reuniu cerca de dois milhões de pessoas — estabelecendo o maior público já registrado para uma apresentação de um grupo coreano no mundo. Não se trata apenas de um número impressionante. Trata-se de um fenômeno social.
Ali, em pleno coração de São Paulo, um carnaval de rua reuniu uma multidão comparável às maiores aglomerações humanas do planeta. Isso desloca a narrativa segundo a qual o carnaval brasileiro é um fenômeno restrito ao Rio de Janeiro ou a uma tradição regional. O carnaval de rua paulistano, no Ibirapuera, torna-se cena global: dois milhões de corpos ocupando juntos o espaço público, em uma coreografia difusa de música, suor, calor, excesso e presença.
Há ainda algo de profundamente simbólico nessa intersecção cultural entre Brasil e Coreia. Um bloco de carnaval brasileiro, conduzido por uma artista que encarna dissidências de gênero e de corpo, acolhe e amplifica a presença de um grupo coreano, expressão de uma indústria cultural global altamente codificada. O encontro entre Pabllo Vittar, o NMXX e dois milhões de pessoas no Ibirapuera não é apenas entretenimento: é a materialização de um Brasil que metaboliza influências globais sem perder sua lógica própria de excesso, mistura e apropriação criativa.
Esse gesto também se inscreve na longa história da presença asiática no Brasil — japoneses, chineses, coreanos — que moldou a paisagem urbana, cultural e econômica do país, especialmente em São Paulo. O carnaval no Ibirapuera não é apenas uma festa “brasileira”: é uma cena da mestiçagem contemporânea, da globalização encarnada em corpos que dançam juntos, ainda que venham de histórias, línguas e matrizes culturais distintas.
Spinoza oferece uma chave decisiva para ler essa cena: é na mobilização dos corpos que se produz potência política. A política não nasce apenas de ideias, mas de afetos que se tornam ação coletiva. No Brasil, historicamente impedido de mobilizar o corpo como forma legítima de protesto, a festa aparece como modo deslocado — mas não menos real — de produção de potência comum. Nesse ponto, a leitura de Deleuze e Guattari é particularmente elucidativa: o poder opera pela produção de tristeza, porque a tristeza desmobiliza, fragmenta os corpos e reduz sua potência de agir. O carnaval, nesse sentido, não é fuga da política: é a política possível em um país que aprendeu, desde cedo, que a revolta aberta custava vidas.
Durkheim, por sua vez, nos lembra que a coletividade se produz no rito. Dois milhões de pessoas cantando, dançando e vibrando juntas no mesmo espaço não estão apenas se divertindo: estão produzindo laço social, pertencimento, uma forma de consciência coletiva que escapa às gramáticas institucionais tradicionais. O que se vive ali é uma experiência de comunhão efêmera, mas intensa, que dá corpo ao “nós” em uma sociedade profundamente marcada pela desigualdade e pela fragmentação.
Nada disso é pequeno no Brasil. Aqui tudo é superlativo, tudo é excesso, tudo é multidão. Reunir dois milhões de pessoas em um parque urbano não é um detalhe pitoresco: é um dado sociológico sobre como este país ocupa o espaço público quando pode, quando lhe é permitido existir coletivamente sem a sombra imediata da repressão.
Talvez por isso a festa incomode tanto. Porque ela revela uma potência que não cabe nos enquadramentos morais que tentam reduzir o carnaval a sexo, nudez ou desordem. O que se vê ali é outra coisa: um povo que, impedido de protestar frontalmente ao longo de sua história, aprendeu a existir politicamente pelo excesso de vida.
Não é irrelevante que esse episódio aconteça no mesmo momento em que se celebra o Ano-Novo Chinês. A sobreposição simbólica entre calendários, culturas e ritmos do mundo diz algo sobre o Brasil contemporâneo: um país atravessado por diásporas e heranças coloniais violentas, mas também por uma capacidade singular de transformar encontro em cena coletiva, e diferença em convivência ruidosa. Entre o carnaval no Ibirapuera e o Ano-Novo Chinês, há uma mesma pergunta em jogo: como corpos tão distintos conseguem, por algumas horas, compartilhar o espaço comum? No Brasil, essa resposta passa, quase sempre, pela festa.
Talvez seja isso que incomoda tanto no carnaval: ele lembra que, apesar de tudo, o corpo ainda insiste em existir junto. Onde a história ensinou medo, a multidão reaprende presença. Onde a política institucional falhou em produzir pertencimento, a festa produz, ainda que por algumas horas, um “nós” provisório, barulhento e indomesticável. Dois milhões de pessoas no Ibirapuera não são apenas um evento cultural: são o vestígio vivo de uma política que sobreviveu à repressão mudando de forma. No Brasil, a rua nunca deixou de ser política — ela apenas aprendeu a cantar para continuar existindo.
Damares Medina – Advogada, professora doutora de Direito Constitucional com pós-doutorado em Democracia e Direitos Humanos pela Universidade de Coimbra.
O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para dicasdepautaggn@gmail.com. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.
“Democracia é coisa frágil. Defendê-la requer um jornalismo corajoso e contundente. Junte-se a nós: https://www.catarse.me/JORNALGGN “
Deixe um comentário