Quase um terço da área que sobrou do Cerrado original está sob ameaça
por Lauro Veiga Filho
Pressionado por lobbies e ainda sob a vigência de uma legislação ambiental tornada mais tolerante desde a aprovação do novo Código Florestal em 2012, que sancionou taxas de desmatamento de até 80% em áreas de Cerrado, o bioma preserva até aqui em torno de 103,0 milhões de hectares de sua área original, quase 51% do espaço total ocupado pelo ecossistema no País, qualquer coisa em torno de 203,65 milhões de hectares. Longe de confortável, o cenário pode se agravar rapidamente caso não seja acelerado todo o conjunto de políticas públicas pensadas para promover a preservação, regeneração e proteção daquelas áreas.
Estudo recente realizado pelo Laboratório de Sensoriamento Remoto e Geoprocessamento da UFG (Lapig), em parceria com a The Nature Conservancy (TNC), estima que praticamente um terço ou praticamente 32,0 milhões de hectares da vegetação original ainda preservada estão sob ameaça direta e real de desmatamento, já que se encontram fora de unidades de conservação, não estão identificados como área de preservação permanente e, mais grave ainda, “excedem os 20% previstos [pelo Código Florestal em vigor] de reservas legais em propriedades privadas”.
O estrago potencial de sua destruição pode ser avaliado a partir das estimativas do Lapig e da TNC. Toda aquela extensão de área preserva um estoque total de carbono equivalente a 1,64 bilhão de toneladas, o que corresponderia, se liberadas na atmosfera, a duas vezes e meia todas as emissões brasileiras, considerando-se seus níveis atuais. O alerta está em artigo veiculado na segunda-feira, 10, pelo portal The Conversation Brasil, plataforma de colaboração entre acadêmicos e jornalistas para a produção de notícias e análises baseadas em pesquisas e fatos, que teve trechos inicialmente detalhados neste espaço.
Quem alerta
Para os devidos créditos, o artigo, que ganhou como título “Dois biomas, um futuro: por que a COP 30 precisa integrar Amazônia e Cerrado”, resultou da colaboração entre a reitora da Universidade Federal de Goiás (UFG), Angelita Pereira de Lima, também professora do Programa de Pós-Graduação Interdisciplinar em Direitos Humanos da UFG, Laerte Guimarães Ferreira, doutor em ciência do solo e professor na mesma universidade; o doutor em ecologia pela Universidade de São Paulo (USP), Mário Barroso, sênior advisor na The Nature Conservancy (TNC); Paulo De Marco Júnior, professor adjunto na UFG e doutor em economia pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp); o geógrafo, mestre em ciência ambiental pela USP e doutorando em ciências ambientais pela UFG, Pedro da Costa Novaes.
Estratégias para conservar
O trabalho realizado pelo Lapig e TNC avalia ainda cenários para a elevação potencial dos estoques de carbono no solo a partir da recuperação de pastos degradados e da intensificação da pecuária na região, incluindo a conversão de parte daquelas pastagens para a produção de soja e ainda para restauração da vegetação natural. As projeções levam em consideração a perspectiva de evolução de demanda por soja e carne até 2030, estimando a necessidade de ampliação da área de soja em 3,0 milhões de hectares (num avanço de 6,1% considerando a área total ocupada pela lavoura no ciclo 2025/26, ao redor de 49,1 milhões de hectares em todo o País), prevendo também a necessidade de quase 61,0 milhões de unidades animais para fazer frente ao consumo esperado de carne.
Tomando como base o cenário mais conservador, apontam os especialistas, depois de “acomodar toda a área necessária” a suprir a expansão esperada para a demanda de soja e carnes, com intensificação da pecuária, com elevação da taxa de ocupação (quer dizer, com aumento do número de animais por hectare), adoção de melhores práticas de manejo e nutrição animal e de boas práticas agrícolas, e algum aumento da área plantada, ainda restariam em torno de 9,0 milhões de hectares que poderiam “ser disponibilizados para a restauração de áreas naturais”.
Para comparação, a área potencialmente destinada a recuperação representa em torno de 27,5% de um total de 32,681 milhões de hectares desmatados na região de Cerrado entre 2001 e 2025, conforme dados do Projeto de Monitoramento do Desmatamento por Satélite (Prodes), do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE).
Créditos de carbono
A preservação daqueles 9,0 milhões de hectares, prossegue o grupo de cientistas, poderia gerar um aumento nos estoques totais de carbono orgânico entre 100,0 milhões e 240,0 milhões de toneladas “para 2030 e 2050” – o que significaria evitar que entre 360,0 milhões e 860 milhões de toneladas de dióxido de carbono fossem lançadas na atmosfera [em torno respectivamente de 17% e 40% do total das emissões brutas de CO2 equivalente registradas no País no ano passado]. “Considerando o mercado internacional de crédito de carbono e um valor conservador por tonelada de CO2 equivalente, estamos falando em um aporte, até 2030, de aproximadamente US$ 3,2 bilhões – um grande negócio com perspectivas de ganhos em todas as direções”, projetam os cientistas.
A transição para uma agropecuária sustentável, de toda forma, está ao alcance de todo o setor, sem a necessidade de “inventar um país novo”, para usar a expressão escolhida pelo grupo de cientistas no texto em que defendem que a COP30 promova a integração entre Amazônia e Cerrado e ainda a criação do Instituto Nacional do Cerrado (INC).
Mas há pressa, considerando a emergência climática e as tendências mais recentes. Conforme o artigo, entre1981 e 2020, as temperaturas médias no Cerrado sofreram elevação de 0,024 °C por ano [correspondendo a um incremento de praticamente 1,0°C em todo o período]. O aquecimento veio acompanhado de uma redução de 1,72 milímetros por ano na precipitação e por chuvas mais irregulares – “uma combinação que intensifica a aridez e afeta a agricultura”, assim como a disponibilidade hídrica e os serviços ecossistêmicos.
“A agricultura já sente”, observa o mesmo grupo de especialistas, indicando que 99% dos quase 8,1 milhões de hectares que adotam o sistema de plantio “duplo” de soja e milho, um arranjo produtivo que se mostrou bem-sucedido no Cerrado, “sofreram com atrasos no início da estação chuvosa, e 61% enfrentaram redução das chuvas”.
Lauro Veiga Filho – Jornalista, foi secretário de redação do Diário Comércio & Indústria, editor de economia da Visão, repórter da Folha de S.Paulo em Brasília, chefiou o escritório da Gazeta Mercantil em Goiânia e colabora com o jornal Valor Econômico.
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