30 de agosto de 2026

Defesa nacional – um imperativo existencial, por Paulo Nogueira Batista Jr.

A questão voltou à ordem do dia em 2026. O sinal de alerta vermelho foi dado pela intervenção militar dos Estados Unidos na Venezuela
Reprodução

A intervenção militar dos EUA na Venezuela em 2026 expôs a vulnerabilidade da defesa nacional brasileira.
O Brasil, rico em recursos estratégicos, enfrenta risco por atraso em investimentos militares e ameaça externa.
Governo reconhece urgência e planeja ações rápidas, incluindo produção nacional de drones para dissuasão.

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Defesa nacional – um imperativo existencial

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por Paulo Nogueira Batista Jr.

Começo com uma citação. Nietzsche disse: A natureza não pune os maus, ela pune os fracos. E podemos acrescentar: A história também não pune os maus, pune os fracos. Não pune Netanyahu, pune Maduro. Não pune Israel, pune a Venezuela.

Antes de prosseguir, abro um rápido parêntese: parece que Nietzsche não disse isso, infelizmente. Mas poderia e deveria ter dito, a meu ver, pois a frase parece ilustrar bem, e com força, um aspecto central do seu pensamento. É impressionante, diga-se de passagem, como é grande o número de frases apócrifas interessantes. Poderia dar vários exemplos, mas isso tornaria a digressão longa demais.

Volto ao aforismo atribuído a Nietzsche. Há melhor maneira de dizer em poucas palavras a importância que tem a defesa nacional? Gostamos de nos vangloriar, e com certa razão, do nosso soft power, da nossa música, da nossa dança, da nossa cordialidade etc. Mas o maior soft power do mundo nada resolve diante da ameaça de um agressor externo poderoso.

Somos também, declaradamente, um país pacífico por vocação. Até a nossa Constituição exclui a posse de armamento nuclear. Continua verdadeiro, entretanto, o antigo lema romano: Se vis pacem, para belum (Se queres a paz, prepara-te para a guerra). E cuidado para que a invocação do nosso pacifismo não seja tomada como sinal de fraqueza!

A questão da defesa nacional voltou à ordem do dia em 2026. O sinal de alerta vermelho foi dado pela intervenção militar dos Estados Unidos na Venezuela, que sequestraram, em operação relâmpago, sem sofrer perdas, o presidente do país. O regime venezuelano foi primeiro decapitado para, em seguida, ser vergonhosamente castrado. Sob Delcy Rodriguez, a Venezuela tornou-se um mero protetorado dos Estados Unidos. Isso tudo praticamente sem resistência. A revolução bolivariana era um tigre de papel.

Tardiamente, o Brasil acordou para a questão da defesa nacional. Foi um rude despertar. Nossos governantes, que em geral tendem à acomodação, certamente teriam preferido continuar no esquema anterior, adiando os investimentos militares para as calendas.

Não se sabe exatamente o que está sendo feito agora, e isso é natural. São questões que, por sua própria natureza, devem ser  conduzidas discretamente, até em sigilo. Mas, a julgar por várias declarações do presidente da República e de alguns dos seus auxiliares, notadamente o embaixador Celso Amorim, o governo está consciente da necessidade de agir rapidamente.

Por que a urgência? A razão básica, que ficou clara e cristalina no episódio Venezuela, é a agressividade do Império e, em especial, a sua determinação, reiterada diversas vezes em documentos oficiais e em declarações de Trump e seus ministros, de estabelecer a hegemonia dos Estados Unidos no Hemisfério Ocidental, da Groenlândia à Patagonia. Sem submeter o Brasil, um gigante nesse hemisfério, a hegemonia ficaria gravemente incompleta.

Além disso, esse nosso gigante dispõe, como se sabe, de vastíssimos recursos naturais, de todos os tipos, o que atiça a cobiça do Império. Podemos mencionar, para dar alguns exemplos, minerais críticos, inclusive a segunda maior reserva de terras raras, urânio, minério de ferro, petróleo, a maior biodiversidade do mundo, vastas reservas de água e amplas fontes de energia de todo o tipo. Tudo isso ficará cada vez mais valioso com o avanço ininterrupto da humanidade sobre o planeta.

Em resumo, somos ricos em recursos estratégicos e estamos atrasados em matéria de defesa nacional. Perigo evidente.

Alguns fatores jogam a nosso favor, entretanto. Primeiro, a superpotência está em apuros em razão de erros clamorosos de sua estratégia geopolítica. Nas décadas recentes, os EUA abriram três frentes de batalha ao mesmo tempo – contra a Rússia, contra a China e contra o Irã. Não estão prevalecendo em nenhuma das frentes e conseguiram aproximar esses três países uns dos outros. A isso se acrescenta, a fragmentação sem precedentes do bloco ocidental, provocada pelas agressões de vários tipos contra os europeus e outros aliados tradicionais desde 2025.

Isso tudo enfraquece os Estados Unidos, em especial a vitória do Irã (até agora) no campo de batalha. Quanto mais tempo e recursos o Império gastar na Ásia Ocidental para defender a sua presença lá e os interesses de Israel, menos tempo e recursos terá para dedicar ao Hemisfério Ocidental.

Outra aspecto importante da guerra entre Irã, EUA e Israel é o seu caráter assimétrico. O Irã vem destruindo ativos militares caríssimos com mísseis e drones baratos. Depois de longa preparação, os iranianos demonstraram, na prática e com grande sucesso, como se vence uma guerra assimétrica contra uma superpotência e seu poderoso aliado regional. O Brasil é o tipo do país que pode aprender com essa experiência. Inclusive o seguinte: não é preciso ter armamento nuclear para exercer poder de dissuasão. E as lições estão sendo tiradas. O presidente Lula declarou recentemente que é prioritário fabricar drones em larga escala no território nacional. É essencial colocar essas intenções em prática sem demora.

Mãos à obra! Defesa nacional já!

                                          ***

Versão ampliada de artigo publicado sob o mesmo título na revista Carta Capital.

Paulo Nogueira Batista Jr. é economista e escritor. Foi vice-presidente e fundador do Novo Banco de Desenvolvimento, estabelecido pelos BRICS em Xangai, de 2015 a 2017, e diretor executivo no FMI pelo Brasil e mais 10 países em Washington, de 2007 a 2015. Publicou pela Editora Contracorrente o livro Estilhaços, em 2024.
E-mail: [email protected]
Canal YouTube: youtube.nogueirabatista.com.br
Portal: www.nogueirabatista.com.br

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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Paulo Nogueira Batista Jr.

Paulo Nogueira Batista é economista, foi vice-presidente do Novo Banco de Desenvolvimento, estabelecido pelos BRICS em Xangai, de 2015 a 2017, e diretor executivo no FMI pelo Brasil e mais dez países em Washington, de 2007 a 2015. Lançou no final de 2019, pela editora LeYa, o livro O Brasil não cabe no quintal de ninguém: bastidores da vida de um economista brasileiro no FMI e nos BRICS e outros textos sobre nacionalismo e nosso complexo de vira-lata. A segunda edição, atualizada e ampliada, foi publicada em 2021. E-mail: [email protected] X: @paulonbjr Canal YouTube: youtube.nogueirabatista.com.br Portal: www.nogueirabatista.com.br

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  1. Fábio de Oliveira Ribeiro

    7 de agosto de 2026 9:36 am

    Não é possível discutir uma política de defesa sem fazer primeiro as perguntas essenciais:
    1- Existe algo que precisa ser defendido?
    2- Porque isso merece ser defendido?
    Cada estrato social responderá essas perguntas de maneira diferente.
    O “povo do mercado”, que ordenha o orçamento da União para gastar/competir no exterior está muito satisfeita com a situação indefensável do Brasil. Ninguém realmente defende o país do assalto diário cometido à luz do dia com ajuda do Banco Centro controlado pelos próprios banqueiros e especuladores.
    A direita entreguista se limita a defender a submissão do país ao sistema mundo criado pelos EUA. Os Bolsonaro e seus esbirros fazem isso mais por conveniência e lucro do que por temor. Aliás, os gringos já demonstraram de 1962 a 1964 que preferem gastar algumas malas de dinheiro para impor seus interesses no Brasil do que comprometer realmente recursos econômicos e militares que podem ser utilizados em outro lugar. A extensão territorial do Brasil e o tamalho de sua população constituem um pesadelo para qualquer país que tente invadi-lo quanto mais controla-lo após uma invasão.
    O povão gostava de defender a seleção brasileira de futebol. Mas agora que ela virou a seleção das Bets e dos garotos propaganda de material esportivo evangélicos que preferem ganhar dinheiro à disputar títulos o povão começou a pergar raiva da seleção de futebol. A camisa da CBF virou sinônimo de dinheirismo e fracasso, só os dinheiristas e fracassados a defendem realmente.
    Os militares gostam de ser visto como defensores da soberania brasileira. Mas eles sempre ficam tentados a optar pelo caminho do menor esforço. Mais vale uma mala de dólares no porta-malas do carro do que um túmulo com homenagens marciais ganho numa guerra considerada perdida conttra um inimigo mais poderoso. O militarismo brasileiro é uma perversão, pois trata-se de um militarismo capaz de oprimir a população local demonstrando orgulho de submissão ao Norte.
    Restam os intelectuais que imaginam que o Brasil tem algo maravilhoso, misterioso ou economicamente valioso que merece ser defendido. O público deles sempre foi escasso e na fase atual disperso com fake news do tipo “mamadeira de piroca” capazes de eleger um Zé-Roela ambicioso, estúpido, pusilânime e cruel como Jair Bolsonaro.
    Não sei se vale a pena defender o Brasil. Todo dia vejo as notícias e me pergunto se esse pesadelo de país merece ser defendido. Tudo que é construído no Brasil sempre custa muito caro, fica pela metade ou acaba desmoronando antes de ser concluído como ocorreu com a muralha da cidade de Salvador no século XVI. É claro que existem milhares de pessoas que vivem bem à custa desse pesadelo continuado (juízes e promotores com salários acima do teto e penduricalhos abaixo da moralidade; políticos e militares devoradores de propinas; etc…). Mas essa gente desonesta quase sempre se limita a defender seus próprios privilégios, algo que pode eventualmente ser feito melhor fazendo acordo sujos no exterior, como aqueles que Sujo Moro e Deltan Dellagnol fizeram nos EUA. O acordo ilegal e lucrativo que eles fizeram foi homologado por uma certa juíza premiada recentemente pelo CNJ com dois anos de afastamento do cargo com garantia de percepção de um salário mensal reduzido que, entretanto, é 10 vezes maior do que a maioria da população ganha.
    Ao invez de defender esse pesadelo que é o Brasil talvez fosse melhor destruir logo essa merda de país. Porque pelo menos assim aqueles que sempre tiraram proveito dele serão reduzidos à miséria ou terão que ir embora daqui.

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