Ku Klux Klan Judaica Promove Terror na Cisjordânia
por Amos Harel, do Haaretz. Tradução de Ruben Rosenthal
Centenas de colonos israelenses estão participando de ações terroristas na Cisjordânia, e não apenas um pequeno grupo de jovens rebeldes. Os incidentes ocorrem quase que diariamente, e fazem parte de um plano maior.
A violência que vem ocorrendo na Cisjordânia visa incutir medo nos palestinos, reduzir seu espaço vital e expulsá-los de suas terras. Acontecimentos muito preocupantes estão ocorrendo lá, que fizeram a mídia despertar por um momento de seu torpor. Foram difíceis de ignorar as imagens de judeus mascarados promovendo atos de vandalismo em uma zona industrial próxima a Nablus, agredindo palestinos, incendiando e depredando propriedades. Com a intensificação da violência, pode-se prever que ocorram mortes nos próximos incidentes (ver vídeo).
Como era de se esperar, oficiais das Forças de Defesa de Israel (IDF) e líderes de assentamentos condenaram os eventos e se dissociaram deles. Mas tudo isso está sendo feito de forma superficial, como parte de um ritual que se repete há décadas.
Benjamin Netanyahu e o Ministro da Defesa, Israel Katz, nem sequer se sentiram obrigados a se manifestar1. Os que denunciaram os atos violentos continuaram a retratar os vândalos como um grupo marginal, que não representa os colonos: aqueles jovens estariam meramente cometendo um “crime nacionalista”.
Mas a verdade é que centenas de colonos israelenses estão participando de ações terroristas na Cisjordânia, e não apenas um pequeno grupo de jovens rebeldes. Os incidentes ocorrem quase que diariamente, e fazem parte de um plano maior. Enquanto a maioria dos colonos deplora os eventos, alguns colonos os consideram extremamente úteis.
A violência, que já causou mortes, visa instaurar o medo entre os palestinos, reduzir seu espaço vital e expulsá-los à força de suas terras, onde novas fazendas e assentamentos de israelenses seriam estabelecidos. A violência raramente é investigada, e é sempre retratada como sendo um incidente isolado.
Os invasores mascarados não estão brincando. Uma Ku Klux Klan judaica surgiu aqui. Na maior parte dos casos, as autoridades estão ignorando a situação, esquivando-se e minimizando o problema.
Os oficiais das Forças de Defesa de Israel (IDF) não são ingênuos. Eles percebem que o terrorismo judaico opera dessa forma, porque os perpetradores acreditam ter o apoio da direita messiânica que faz parte da coalizão governante. Os três anos deste governo, especialmente os dois anos de guerra em Gaza, foram os melhores para o projeto de assentamentos na Cisjordânia. Foi decisiva a influência do Ministro das Finanças, Bezalel Smotrich, que também exerce funções no Ministério da Defesa.
O ex-ministro da defesa, Yoav Gallant, e certamente o atual, Israel Katz, cederam a Smotrich sem qualquer oposição. Os oficiais que se encontram atuando a contragosto na Cisjordânia sabem de que lado é melhor se posicionar. Mas muitos deles se perguntam como sobreviver a uma missão por lá, sendo também alvos dos colonos extremistas2.
Não existe um esforço coordenado para lidar com o terrorismo judaico. A Polícia de Israel na Cisjordânia, sob o comando do Ministro da Segurança Nacional, Itamar Ben-Gvir, há muito tempo está fora de cena. Nem as Forças de Defesa de Israel (IDF), nem o serviço de segurança Shin Bet – sob nova gestão – estão se mobilizando para a tarefa. A detenção administrativa (detenção sem julgamento) de judeus na Cisjordânia foi interrompida por Katz, em um aceno a direita.
Quando não há outra alternativa, o porta-voz das IDF divulga mais um vídeo do chefe do Comando Central, Avi Bluth, deplorando as ações dos colonos e prometendo combatê-las. Manifestantes de extrema-direita já apareceram em frente à casa de Bluth, apesar de ele ser uma pessoa religiosa que cresceu em um assentamento. Esses grupos também incitam a violência contra Bluth, como fizeram anteriormente contra seus antecessores por quase 40 anos.
Smotrich elogia Bluth como um trunfo para os assentamentos, enquanto o próprio Bluth fala com orgulho aos colonos sobre a segurança que o exército está proporcionando às dezenas de novas fazendas que surgiram na Cisjordânia durante os dois anos da guerra em Gaza. Oficiais superiores estão agindo com cautela na Cisjordânia, esperando não serem alvos de críticas venenosas.
Enquanto isso, desdobramentos irreversíveis estão ocorrendo nas terras palestinas, mas que também representam um perigo imediato para a segurança dos assentamentos israelenses. Os ataques às aldeias palestinas estão acontecendo em um contexto de hostilidade entre os palestinos locais e seus vizinhos dos assentamentos. Os líderes do Yesha, o conselho de assentamentos judaicos da Cisjordânia, estão alertando sobre um cenário semelhante ao de 7 de outubro na Cisjordânia, tendo em vista os grupos terroristas3 que atuam na região e a grande quantidade de armas nas mãos das forças de segurança palestinas.
Mas já houve incidentes mais específicos, como uma tentativa palestina de cercar um assentamento e invadí-lo, após a ocorrência de incidentes violentos. O Comando Central reforçou consideravelmente a defesa dos assentamentos, e simulou possíveis cenários em um exercício esta semana.
Enquanto os Estados Unidos ditam as ações em Gaza, continua a escalada na Cisjordânia sem que haja intervenção internacional. Com a Autoridade Palestina efetivamente boicotada por Israel, e sem qualquer aceno a um processo político, é difícil crer que não veremos em breve uma explosão de violência.
Notas do tradutor:
1. Netanyahu se viu compelido a declarar em comunicado que “leva muito a sério que um pequeno grupo extremista procure fazer a lei por conta própria” e que “as autoridades levarão os responsáveis à justiça”. Resta ver se desta vez a promessa vai ser cumprida.
2. Apesar de por vezes se tornarem alvos da ira dos colonos extremistas israelenses, as Forças de Defesa de Israel (IDF) vêm, no geral, apoiando as ações dos colonos e do governo contra os palestinos da Cisjordânia, seja de forma explícita ou por omissão.
3. Pode-se questionar se é apropriado o autor do artigo denominar de terroristas, grupos palestinos que promovam ações armadas em território palestino sob ocupação israelense.
Ruben Rosenthal é professor aposentado da UENF, responsável pelo blogue Chacoalhando e pelo programa deentrevistas Agenda Mundo, veiculado no canal da TV GGN e da TV Chacoalhando.
O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para dicasdepautaggn@gmail.com. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.
“Democracia é coisa frágil. Defendê-la requer um jornalismo corajoso e contundente. Junte-se a nós: https://www.catarse.me/JORNALGGN “
Deixe um comentário