6 de junho de 2026

REDATA e a armadilha da eficiência parcial, por Camila Modanez

Lacunas regulatórias não podem ser deixadas a ponto de colocar em risco justamente os recursos que se pretende proteger.
Reprodução - Portal Energia Limpa

REDATA e a armadilha da eficiência parcial

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por Camila Modanez

Em setembro de 2025, o governo federal instituiu, por meio da Medida Provisória nº 1.318, o Regime Especial de Tributação para Serviços de Datacenter (REDATA). A iniciativa sinaliza um compromisso com critérios de sustentabilidade ao mesmo tempo em que busca impulsionar o crescimento nacional em áreas estratégicas como computação em nuvem, inteligência artificial e internet das coisas, ampliando a capacidade do país de armazenar, processar e gerenciar dados.

Entre os pontos já divulgados, observam-se avanços importantes: a exigência de energia limpa, auditoria ambiental e a definição de um parâmetro de eficiência, o Índice de Eficiência Hídrica (Water Usage Effectiveness, amplamente conhecido como WUE). Até o momento, apenas esse índice recebeu um valor numérico: WUE menor ou igual a 0,05 litros por quilowatt-hora (L/kWh).

O valor definido sugere uma preocupação legítima com a redução do consumo de água, mas também levanta questionamentos relevantes. Por exemplo: o quão viável é essa meta? Que impactos ela pode gerar em outros aspectos, como o consumo de energia? E mais: faz sentido aplicar um mesmo critério hídrico para todo o território nacional, dadas as diferenças regionais?

Análise de eficiência de data centers

O WUE é indicador de eficiência hídrica de data centers que expressa a quantidade de água utilizada (em litros) por cada quilowatt-hora consumido. Existem duas formas principais de calculá-lo: WUE(site), que considera apenas o uso direto de água pelo data center, principalmente para resfriamento; e o WUE(source), que inclui também o uso indireto, ou seja, a água usada para gerar a energia consumida.

O 0,05 L/kWh estabelecido pelo REDATA, embora não explicite de qual se trata, do WUE(site) ou WUE(source), assume-se que a referência seja o WUE(site), por ser a métrica mais amplamente utilizada internacionalmente e de cálculo mais simples, considerando apenas o uso direto de água pelos sistemas de resfriamento. um valor que, em um primeiro olhar, parece bastante rigoroso. 

Para entender essa ambição, podemos observar benchmarks internacionais. Um relatório do Laboratório de Políticas Públicas e Internet (LAPIN) traz os seguintes dados: Microsoft: 0,30 L/kWh e Elea (melhor resultado registrado): 0,076 L/kWh. Ambos acima do valor estipulado pelo REDATA. A Microsoft, por exemplo, tem um WUE seis vezes superior à meta brasileira. Até mesmo o Elea, referência em eficiência no estudo em questão, não alcança o limite proposto.

Na prática, atingir um WUE(site) de 0,05 L/kWh requer sistemas de resfriamento a ar ou tecnologias equivalentes, como o uso de chillers com circuito fechado ou dry coolers, tecnologias que dispensam água, mas costumam demandar mais energia elétrica. Isso nos leva ao primeiro ponto de alerta: o trade-off entre eficiência hídrica e consumo energético.

Outro aspecto ignorado pela atual proposta é a eficiência energética, um indicador amplamente utilizado globalmente é o Power Usage Effectiveness (PUE), que expressa a proporção entre a energia total consumida pela instalação e aquela efetivamente destinada aos servidores. A ausência de eficiência energética como métrica no REDATA é uma lacuna importante: pode-se economizar água, mas à custa de maior consumo de energia, comprometendo a sustentabilidade do projeto.

Outro ponto crítico é a não consideração do WUE(source). Em um país como o Brasil, cuja matriz elétrica é majoritariamente hidrelétrica, a água utilizada para gerar eletricidade é significativa. Assim, mesmo data centers com WUE(site) próximo de zero podem, indiretamente, gerar alto consumo hídrico.

Ademais, estabelecer um valor uniforme de WUE(site) para todo o território nacional ignora as diferenças climáticas e hídricas regionais. Regiões como o semiárido nordestino, com escassez hídrica crônica, deveriam ter exigências distintas de áreas com abundância de recursos, como a região Norte e até mesmo parte da região Sudeste.

Essas questões não anulam os méritos do REDATA. Ao contrário, mostram seu potencial de evolução. Se o objetivo é transformar o Brasil em uma referência global em sustentabilidade digital, a regulação precisa ser mais abrangente, sensível ao território e tecnicamente consistente.

Para que o REDATA atinja seu potencial, três aprimoramentos podem ser incorporados: primeiramente, incluir eficiência energética como métrica obrigatória, para evitar soluções que economizem água, mas aumentem o impacto energético; além disso, adotar também a eficiência hídrica considerando uso indireto, refletindo o consumo hídrico total, direto e indireto; e, por fim, regionalizar os critérios de eficiência hídrica, adequando as metas às realidades locais.

A sustentabilidade real em data centers exige um olhar complexo e multidimensional. Um número único não dá conta dessa complexidade. O REDATA abriu uma porta importante, mas cabe agora refiná-la. Lacunas regulatórias não podem ser deixadas a ponto de colocar em risco justamente os recursos que se pretende proteger. A eficiência de um projeto só pode ser devidamente avaliada quando considerada em sua totalidade: ganhos hídricos isolados pouco significam se acompanhados por perdas energéticas relevantes. A sustentabilidade de data centers, em um contexto de crise climática e transição digital, exige coerência técnica, integração de métricas e uma visão sistêmica que evite soluções parciais e oriente o país para uma regulação ambientalmente consistente e justa.

Sustentabilidade não se mede com régua única, e a política pública que ignora essa complexidade corre o risco de ser parte do problema que quer resolver.

Camila Modanez – Especialista em mobilização digital, com mais de uma década de atuação em iniciativas progressistas na América Latina, atuando em eleições presidenciais e subnacionais no continente. Pós-graduanda em Estratégia e Liderança Política pela FESPSP e graduada em Engenharia Mecânica pela Unicamp.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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