5 de junho de 2026

Réquiem para o jornalismo, por Luciano Martins Costa

Do Observatório da Imprensa

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A mídia tradicional do Brasil, ressecada de cérebros por conta da queda na receita publicitária, consegue nos últimos dias a proeza de mergulhar ainda mais fundo no jornalismo de panfleto.

Uma pequena seleção de material destacado pelos jornais de circulação nacional e pelas revistas semanais de informação mostra que o partidarismo recrudesce nas páginas e telas da imprensa. O viés se torna mais explícito provavelmente porque, com as demissões do primeiro trimestre, faltam talentos para dissimular o viés que define as escolhas editoriais.

Comecemos pela intensificada obsessão da Folha de S. Paulo pelo prefeito petista da capital paulista, Fernando Haddad. No feriado de 1º de maio, o jornal estampou, em manchete, o seguinte título: “Gestão Haddad falou com tráfico antes de agir na cracolândia”. O texto que se seguia passava a interpretação de que os assistentes sociais e outros funcionários que atuam na região onde se concentram dependentes de drogas no centro de São Paulo precisam se entender com traficantes para realizar seu trabalho.

Não se trata de uma mentira deslavada, mas de uma aleivosia. De fato, ninguém consegue se aproximar do aglomerado de seres humanos que se amontoam naqueles acampamentos se não tiver alguma conversação com os traficantes. O que o jornal omite é a situação criada pela polícia do Estado, que mantem há quase dez anos uma relação de tolerância controlada com o crime organizado. A manchete da Folha tinha a intenção maliciosa de relacionar a prefeitura petista ao comando da principal facção criminosa que atua em território paulista.

Na segunda-feira (9/5), a mesma Folha traz em manchete reportagem afirmando que o número de consultas na rede de postos de saúde do município caiu 21% em 2014, comparando com os atendimentos do ano anterior. Antes da publicação, a assessoria do prefeito havia informado que a causa é a falta de médicos nas organizações sociais que administram a rede de atendimento, e não a falta de pagamento por parte da prefeitura. O jornal deixou em segundo plano a informação, crucial, de que em 2014 houve uma sobra de mais de R$ 100 milhões no orçamento específico porque as entidades reduziram o número de consultas, por falta de médicos.

Declarações de uma panela

Outro exemplo interessante é o que move a revista Época, que trocou sua diretoria recentemente, e inaugurou um estilo ainda mais panfletário na cruzada explícita contra o governo federal.

Na semana passada, a publicação da Editora Globo que veio a público no mesmo feriado do Dia do Trabalho havia levado a especulação jornalística ao extremo, na reportagem que tentava associar obras da empreiteira Odebrecht a uma suposta atuação do ex-presidente Lula da Silva como “lobista internacional”. O texto não sobreviveu a dois dias de esclarecimentos, quando a própria fonte citada pela revista, uma procuradora de Brasília, veio a público para declarar que não havia um processo contra o ex-presidente, como dizia a reportagem.

Mas a imprensa não descansa: na semana seguinte, os jornais reproduziam o que se dizia ser um trecho do livro de memórias ditado pelo ex-presidente do Uruguai José Mujica, que, segundo foi publicado, continha uma suposta confissão de Lula da Silva sobre o chamado “mensalão petista”, dizendo que a corrupção era a única forma de governar o Brasil.

A versão dos jornais brasileiros foi desmentida de pronto pelos autores do livro, dois jornalistas que haviam colhido os depoimentos de Mujica, revelando que quem escreveu a reportagem original, reproduzida depois por quase toda a imprensa brasileira, não havia lido o livro.

Assim como surgiu e cresceu como uma onda de repercussões, a mentira ainda sobrevive na segunda-feira (11), em nota na coluna de política do Globo, o que revela mais uma vez a homogeneidade da mídia tradicional.

Mas esses exemplos não conseguem superar a patética invenção da revista Época desta semana. Trata-se do perfil de uma panela, eleita “personagem da semana”, em um texto de ficção no qual o equipamento culinário entra em diálogo com o discurso proferido pelo ex-presidente Lula da Silva durante o programa eleitoral do Partido dos Trabalhadores.

A revista procura apresentar o instrumento de protestos como personagem político.

“Pleinpleinplein, tactactac, blimblimblim”, diz a panela.

“Descanse em paz”, diz a lápide no túmulo do jornalismo nacional.

 

Patricia Faermann

Jornalista, pós-graduada em Estudos Internacionais pela Universidade do Chile. Coordenadora de Projetos. Repórter e documentarista de Política, Justiça e América Latina do GGN desde 2013.

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7 Comentários
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  1. mz

    11 de maio de 2015 3:19 pm

    Descanse em paz? Desculpe-me

    Descanse em paz? Desculpe-me Luciano, mas nesta lápide será escrito: ” Foi tarde para os quintos dos infernos, deixou a viúva feliz” .

  2. Ugo

    11 de maio de 2015 3:25 pm

    schuaaa…

    Faltou a descarga na privada destes acéfalos..

  3. JB Costa

    11 de maio de 2015 3:33 pm

    Morreu(a imprensa), mas ainda

    Morreu(a imprensa), mas ainda vai continuar nos assombrando com seu péssimo jornalismo até irem a falência. 

    A propósito, peguei(antes tive o cuidado de  colocar luvas antissépticas) uma VEJA numa banca e logo de cara observei que a cada nova edição ela vai afinando. Já já vem só com a capa. 

    A Folha de São Paulo é, da turma,  a que faz chamadas de capa mais desonestas. Raramente guardam consonância quando desdobradas. 

     

     

     

  4. joão adalberto

    11 de maio de 2015 4:06 pm

    Haddad

    FOLHA – 11.05.15

    Consultas em unidades de saúde da capital caem 21% 

    O número de consultas nas AMAs 12 horas (unidades que prestam assistência médica ambulatorial, casos menos complexos) caiu 21% em 2014, no segundo ano de mandato de Fernando Haddad (PT) –foram 5,8 milhões, ante 7,3 milhões no ano anterior.

    http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidiano/218828-consultas-em-unidades-de-saude-da-capital-caem-21.shtml

  5. NICKNAME

    11 de maio de 2015 4:10 pm

    compensa a melhoria de capa de Carta Capítal

    minha impressão é que aumentaram a tiragem de CC. O formato influi e atrai mais leitores.

    Até que enfim Mino Carta e equipe se deram conta disso.

    Isso é bom.

  6. Maria Luisa

    11 de maio de 2015 5:03 pm

    Jornalista, profissão sem futuro

    Adorei o dialogo da panela. Esse Luciano ta que ta! Ja a Epoca  entrou pra historia do jornalismo lixo brasileiro, ao lado da Veja e seu boimate. Quem perde somos nos sociedade e os proprios profissionais da impresa.  

    E se é por falta de requiem, que não o seja. 

    [video:https://youtu.be/2GBqXT2fwbQ%5D

  7. Carlos Dias

    11 de maio de 2015 6:15 pm

    Dencanse em paz.

    E, principalmente, deixe-nos em paz.

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