Riscos e responsabilidades na era dos mega vazamentos de dados

Por Carlos Castilho 

Do Observatório da Imprensa

A divulgação dos chamados Panama Papers marca a incorporação definitiva do vazamento de documentos secretos ao nosso universo informativo, resolvendo um problema e criando outro não menos importante e desafiador. O sigilo de operações financeiras de caráter duvidoso é cada vez mais frágil permitindo que a sociedade penetre no submundo da economia mundial.

O conhecimento público de estatísticas, valores, eventos e processos marca uma etapa importante na consolidação da transparência financeira em escala global, mas isto nos coloca diante da necessidade de conhecer também como, quando, porque a para que estes dados foram publicados. É o que os anglo-saxões chamam de framing (enquadramento) e que sinaliza o viés embutido numa notícia, por exemplo.

Não há informação isenta de condicionamentos porque tudo o que sabemos foi captado através de nossos sentidos e portanto condicionado por fatores inerentes à nossa personalidade como cultura, história, meio ambiente etc. As novas tecnologias de informação e comunicação (TICs) permitiram que a sociedade contemporânea tenha acesso a um volume de dados, públicos e secretos, inédito na história da humanidade.

A falta de dados não é mais problema, basta ver a sucessão de mega-vazamentos registrados nos últimos anos em todo o planeta. Só que dados sem uma correta contextualização são a matéria-prima para a desinformação, ruído informativo, comunicação dirigida, propaganda e guerra psicológica. E este é talvez o maior desafio do jornalismo na realidade informativa contemporânea. Para o público é uma situação muito nova com a qual ele ainda não está acostumado e nem desenvolveu os instrumentos necessários para lidar com ela.

Em 1973, o The New York Times se tornou o primeiro jornal a publicar documentos secretos envolvendo a política norte-americana na guerra do Vietnam. Os Documentos do Pentágono entraram para a história do jornalismo com a divulgação de sete mil páginas de relatórios sigilosos. Caso todo o material fosse digitalizado, ele não passaria de uns 50 megabytes. Quatro décadas mais tarde, o vazamento conhecimento como Wikileaks, colocou nas mãos da imprensa mundial 1,7 gigabytes de dados sobre comunicações secretas no Departamento de Estado norte-americano. O volume de dados cresceu quase 100 vezes.

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Em 2014, a organização jornalística Consorcio Internacional de Jornalismo Investigativo (ICIJ – sigla em inglês) divulgou o chamado Luxembourg Leaks (Vazamentos de Luxemburgo) envolvendo manobras de 343 grandes empresas transnacionais para fugirem do pagamento de impostos. Entre elas estavam os bancos brasileiros Bradesco e Itaú.

Um ano mais tarde, o mesmo ICIJ lançou outra bomba informativa. O Swiss Leaks (Vazamentos suiços) envolvendo negócios duvidosos realizados pela sucursal suiça do banco HSBC envolvendo um total de 180,6 bilhões de euros (cerca de 757 bilhões de reais), 20 mil empresas internacionais e 100 mil clientes espalhados pelo mundo.

O vazamento dos Panamá Papers divulgados agora bate todos os recordes em matéria de volume de dados pois chegam a 2,6 terabytes, o equivalente a 2,6 milhões de megabytes, 52 mil vezes mais do que o total de documentos incluídos nos Documentos do Pentágono, e duas mil vezes maior que oWikileaks. O escândalo envolve a empresa panamenha Mossack Fonseca especializada na criação de empresas offshore, cuja clientela é composta de 214 mil empresas, pelo menos seis chefes de estado e 29 dos 500 homens mais ricos do mundo.

A continuar neste ritmo de crescimento é impossível prever onde iremos parar, mas uma coisa é certa. Com o avanço da digitalização de documentos cresce exponencialmente a massa de dados passíveis de vazamentos e, paralelamente, a transparência dos negócios dentro da globalização financeira. O problema é que a avalanche de dados acaba se tornando inócua e até trivial caso eles não sejam contextualizados com a identificação de motivações, procedimentos, beneficiados e prejudicados.

Jornalistas latino-americnaos participantes da investigação / Mapa Knight Center

Consórcio Internacional de Jornalismo Investigativo, baseado em Washington e vinculado ao Center for Public Integrity (CPI),  reuniu 376 jornalistas e 109 publicações de 76 países para analisar 11,5 milhões de documentos vazados por uma fonte anônima para oSuddeutsche Zeitung, sediado em Munique. Aqui no Brasil, participaram jornalistas doUniverso Online (grupo Folha) , O Estado de São Paulo e Rede TV. Foi um trabalho complexo desenvolvido em sigilo, ao longo de um ano de investigações.

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Para que toda esta massa de dados ganhe significado e possa influir na mudança de comportamentos nas finanças internacionais e nacionais é necessário agora que a imprensa inicie um trabalho de contextualização local dos dados selecionados e organizados pelo ICIJ.

Além disso, devem ser investigadas várias questões obscuras nos Panama Papers, como a identidade e motivações do denunciante anônimo que entregou os documentos ao jornal alemão. O repórter Bastian Obermayer, doSuddeutsche Zeitung destruiu o computador onde foram registradas as conversações com o informante. Um volume tão grande de informações dificilmente estaria nas mãos de uma única pessoa e a entrega dos documentos seguramente foi feita por meio de equipamentos sofisticados de armazenamento de dados.

Há também questionamentos sobre a decisão do ICIJ de não divulgar todo o conteúdo dos documentos incluídos nos Panama Papers. Gerard Ryle, diretor do ICIJ, em entrevista à revista online Wired afirmou que a organização quer impedir o uso inadequado dos dados recebidos do jornal alemão, o que na prática já implica uma primeira filtragem dos documentos. Ryle afirma que a seleção do material divulgado obedeceu ao que ele classifica como “interesse público” em cada país afetado pelas atividades da empresa panamenha.

Há necessidade também de investigações sobre como a Mossack Fonseca acumulou tanta informação e como ela guardava os seus dados. Os controladores da empresa panamenha são personagens enigmáticos. Jurgen Mossack nasceu na Alemanha em 1948, e emigrou para o Panamá em 1960, junto com o pai, um membro do exército nazista na Segunda Guerra Mundial e ex-agente da CIA encarregado de monitorar as relações entre autoridades panamenhas e o governo cubano. Ramón Fonseca Mora é panamenho, advogado e romancista, cujo maior sonho na vida é ganhar o prêmio Nobel de Literatura. Foi assessor da ONG Transparência Internacional e conselheiro do atual presidente panamenho Juan Carlos Varela.

Com tantos documentos e quase igual número de dúvidas, o trabalho de contextualização será tão ou até mais complexo do que o realizado pelo ICIJ. Com as redações reduzidas ao mínimo necessário para o atendimento das pautas quotidianas é pouco provável que os jornais brasileiros tenham condições financeiras para arcar com o custo de investigações longas e complicadas. Será preciso muita criatividade para achar soluções alternativas como, por exemplo, a adotada pelo jornal The Guardian, que em junho de 2009 pediu a ajuda de seus leitores para investigar 700 mil documentos relacionados a despesas pessoais de membros do Parlamento britânico.

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A imprensa é a única instituição que teria condições de contextualizar, a partir da lógica do interesse do cidadão comum, toda esta massa de documentos que começa a se tornar pública em todo o planeta. Mas isto implica um compromisso com um mínimo de isenção e objetividade, dois elementos que estão fazendo muita falta em nossa mídia.

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2 comentários

  1. EUA: A maior e mais segura lavanderia fiscal

    Mídia alemã: EUA se tornaram melhor lugar para esconder dinheiro

     

    07.04.2016

     

    Dois anos atrás, a Organização de Cooperação Econômica e Desenvolvimento (OECD na sigla em inglês) apresentou uma iniciativa que prevê a troca multilateral de informações sobre contas detidas por cidadãos no estrangeiro. Os EUA nunca aderiram à iniciativa.

    Este fato torna-se mais interessante se se tomar em conta outro – que o estado americano do Nevada se tornou o lugar favorito para a manutenção de ativos duvidosos.

    A respectiva ligação foi feita pelo jornal alemão Deutsche Welle em um dos seus últimos artigos.

    “Quando pensamos sobre os lugares em que os ativos adquiridos não só por métodos legais mas também ilegais podem ser escondidos dos olhares curiosos das autoridades lembramo-nos da Suíça, Luxemburgo ou ilhas Cayman. Mesmo assim, de acordo com os Panama Papers, nenhum destes lugares fez parte do top-10 dos mais populares ‘paraísos fiscais’ no mundo – ao invés do estado americano do Nevada,” diz-se no artigo.

    Os especialistas entrevistados pela publicação alemã explicaram como e quando os Estados Unidos se tornaram um país atraente para tais atividades ilícitas.

    Primeiramente cabe lembrar que, em 2010, Washington aceitou a Lei de Conformidade Tributária de Contas Estrangeiras (FATCA na sigla em inglês) que obriga as organizações financeiras estrangeiras a informar os serviços fiscais americanas sobre os donos de ativos que são cidadãos dos EUA.

    Ao mesmo tempo, Washington não tem pressa em apresentar a mesma informação sobre os estrangeiros que têm ativos nos EUA. A Deutsche Welle classificou este fato como “surpreendente”.

    Nesta conexão, cabe lembrar que a iniciativa da OSCD foi apoiada por quase todos os paraísos fiscais tradicionais, mas não pelos dos Estados Unidos. Segundo vários especialistas, este fato torna a posição dos EUA bastante frágil como país em cujo território é bastante vantajoso esconder ativos.

    A publicação alemã acontece em que surgiu o escândalo ligado aos chamados Panama Papers, que alegadamente revelam ligações entre empresas offshore e vários líderes mundiais.

     

     

     

     

  2. Parece que esse Fonseca mudou de time, pois

    antes ajudava a Transparência Internacional, depois foi cuidar da Intransparência, não é?

    Jamais contrataria este cidadão nem para transparência e menos ainda para ocultação. 

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