Sem educação, basta o presidente, por Maria Cristina Fernandes

A coluna de hoje de Maria Cristina Fernandes, no Valor, expressa o que se viu em cartazes de manifestantes em todo o país. E serviu de resposta à máxima verbalizada por Jair Bolsonaro, em Dallas

Foto Kauê Scarim

Jornal GGN – A coluna de hoje de Maria Cristina Fernandes, no Valor, expressa o que se viu em cartazes de manifestantes em todo o país. E serviu de resposta à máxima verbalizada por Jair Bolsonaro, em Dallas, ao comentar a paralisação. “A maioria ali é militante. Se você perguntar a fórmula da água, não sabe. São uns idiotas úteis que estão sendo usados de massa de manobra de uma minoria espertalhona que compõe o núcleo das universidades federais”. E ela conclui que o bolsonarismo conseguiu o inimaginável: unir sindicatos e estudantes na rua.

O protesto já estava marcado quando Weintraub, ministro da Educação, anunciou o corte de um terço das verbas. Caso contrário, seria um ato contra a reforma da Previdência. O anúncio do corte serviu para transformar em paralisação nacional pela defesa da educação onde os sindicatos recolheram as bandeiras. Espertamente, entende Maria Cristina.

Mas a articulista aponta que o presidente e o ministro foram mais pródigos, conseguindo somar, à revolta dos estudantes e sindicalistas, aquela dos parlamentares, quando ligaram os motores do “Ministério da Verdade”. O deputado Carlos Jordy (PSL-RJ) mostrou fotos de jovens nus e rituais satânicos com a pérola de que comprovavam a afirmação feita pelo ministro de que os campi universitários são redutos de balbúrdia.

Tais fotos têm história. A largada oficial foi dada por Olavo de Carvalho, onde acusava as universidades de gastar dinheiro público para patrocinar orgias. Olavo, como se sabe, é o guru do bolsonarismo.

Foi o próprio governo quem agigantou a mobilização, entende a articulista, ao fazer funcionar a máquina de falsificações à la 1984, de George Orwell. E aponta que o ministro, que alardeou ter ficado míope de tanto ler Orwell, aprendeu a lição ali contida, ao manipular informações para confundir a população. Vide a substituição do contingenciamento de 30% dos gastos discricionários por um de 3,5% do orçamento total, ‘trucagem com bombons de resultado convergente e destinada a confundir os incautos para dar munição aos exércitos virtuais da mistificação’, diz ela.

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Bolsonaro, que é regido pela mesma cartilha do guru de Virgínia, em encontro com parlamentares no Palácio, ligou para Weintraub e mandou voltar atrás. Foi desmentido pelos ministros e, de novo, confrontado por partido de sua base. Se o governo não sustenta o que falou na frente de 12 parlamentares, não sou eu que vou passar por mentiroso perante a nação”, disse um indignado deputado Capitão Wagner (Pros-CE), policial militar e bolsonarista de primeira hora.

Maria Cristina diz que o governo se  valeu do insulto e da mentira para enfrentar seu primeiro grande protesto popular. Conseguiu, com isso, unir o Congresso à pauta das ruas.

Para ela, o maior sinal de que a pauta das ruas contaminou o Congresso veio de Nova York, onde Maia, presidente da Câmara, fez palestra na véspera das manifestações para investidores. Lá, o parlamentar disse que a aprovação da reforma da Previdência não bastará para recolocar o país nos trilhos. Disse abertamente que o país terá que rever a PEC dos Gastos e alertou para o risco de um ‘colapso social muito rápido’.

Ela pontua que Maia afirmou ter se dado conta disso ‘há 30 ou 40 dias’. E que, nesse período, não houve deterioração da vida da população, o que houve foi a demonstração de que a capacidade de Bolsonaro governar está em frangalhos, aumentando suas cobranças a ele.

Na real, o que Maia pretendeu dizer é que ‘se a bucha do canhão vai cair no meu colo, vocês vão ter que ter paciência mas vamos ter que gastar, senão não dou conta de segurar o Congresso’, pontua ela.

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Na fala, o corinho feito pelo ex-ministro e hoje diretor do BTG, Nelson Jobim, de que ‘a impaciência é uma face da estupidez e o mercado é impaciente’.

Para ela, a fala de Maia se encaixa num roteiro em que o Congresso tende, cada vez mais, a ser preponderante. O presidente da Câmara já avisou a plateia que não tem como a pauta liberal ser sempre vitoriosa. ‘Na democracia não existem vitórias absolutas’, disse Maia, uma forma elegante de dizer ‘para conduzir a boiada, preciso de pasto’.

‘A queda de braço entre as ruas e o governo é por gasto. A Câmara, ao obrigar o ministro a comparecer ontem, sinalizou de que lado está. Seu presidente, na véspera, avisara à sua plateia o rumo a ser tomado. A hostilidade contra Weintraub não partiu apenas da oposição. A quase totalidade dos parlamentares do Centrão que o interpelaram foram no mesmo rumo’, aponta Maria Cristina.

E lembra que um dos subprodutos das manifestações de junho de 2013 foi a proposição, pelo governo, do instituto da delação premiada, o que o derrubaria anos depois. Agora, a hostilidade do governo vai empurrar o Congresso a se aproximar dos manifestantes. ‘Mas a meta não é derrubar o governo, como insinuou o pai do senador Flávio Bolsonaro (PSL-RJ). O Congresso quer se valer das ruas para dar as cartas no governo. Depois de ontem, como sugere Carlos Bolsonaro, o governo será desafiado a sair da internet e colocar seus exércitos, agora armados, na rua’, finaliza.

 

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