Sobre a capitulação das esquerdas e um livro de Mao Tsé Tung, por Roberto Bitencourt da Silva

Sobre a capitulação das esquerdas e um livro de Mao Tsé Tung

por Roberto Bitencourt da Silva

Nos últimos dias, tenho me encontrado envolvido com a leitura de um livro muito interessante, de autoria do “Grande Timoneiro” da China, Mao Tsé Tung, intitulado “Sobre a guerra prolongada” (editora Baioneta, 2019). Um livro que faz análises e mobiliza categorias de interpretação instigantes para se pensar também alguns aspectos do Brasil de hoje.

Grosso modo, trata-se de um relato da guerra de libertação nacional contra o invasor imperialista japonês, nos idos dos anos 1930. De acordo com Mao, as fronteiras entre a guerra e a política são mínimas, de modo que conceitos e objetos de reflexão podem ser intercambiáveis. De resto, em nossos dias a chamada “guerra híbrida” tende a radicalizar a diluição daquelas fronteiras, como salienta Piero Leiner, um especialista no tema.

No calor da encarniçada luta de vida ou morte, submetendo os terríveis acontecimentos a uma avaliação metódica, Mao Tsé Tung tecia críticas veementes a uma perspectiva político-militar que então se insinuava. Ademais, corresponde a uma perspectiva que me parece iluminar certos traços das visões e dos comportamentos de expressivas lideranças políticas progressistas do Brasil, hoje, senão vejamos.

A perspectiva em questão é classificada por Mao como “teoria da subjugação nacional”. Para o Timoneiro, determinados setores da sociedade chinesa tendiam a superestimar as fraquezas do país e, com isso, a defender uma solução de compromisso, de sujeição pactuada com o agressor japonês. Abdicar da independência nacional e acomodar-se à condição de mero objeto das pérfidas e genocidas aspirações do governo do Japão seria o resultado. Adequar-se ao ambiente e não ter qualquer ingerência para moldá-lo.

Na avaliação de Mao, a China não teria outra opção efetiva que não fosse uma luta de vida ou morte, em uma empreitada “prolongada”, enredada pelos propósitos de um acúmulo de forças próprias, de desgaste do moral do inimigo, minando suas forças e vontade.

Salto no tempo e no espaço. Habitualmente testemunhamos movimentos e apelos, às vezes tangenciando a sabujice, de líderes políticos das esquerdas no Brasil, que desinibidamente cortejam poderosas frações do grande capital e o chamado “centrão”.

Tomando a referida e remota crítica de Mao Tsé Tung, se pode argumentar que, em que pese eventuais e não poucas virtudes de personagens como Ciro Gomes (PDT), Marcelo Freixo (Psol) e Lula (PT) – para ficar com aqueles representativos das esquerdas partidárias institucionais –, os três líderes políticos de proa, bem como muitos de seus adeptos e correligionários, têm se movimentado à revelia de qualquer trabalho de politização, organização e mobilização dos amplos e majoritários setores e classes sociais aos quais alegam representar: trabalhadores da iniciativa privada, empregados, subempregados e desempregados, funcionários públicos, proprietários de pequenos e médios negócios etc.

Nesse sentido, descreem de qualquer capacidade participativa popular. Apostam no curto prazo eleitoral e dispensam visão estratégica sobre os destinos do Brasil. Não concebem a maioria, o Povo Brasileiro, como potencial sujeito portador da capacidade de ação e iniciativa. Acomodam-se às linhas estabelecidas pelo poder. De antemão, capitulam.

Seja fazendo apelos ilusórios a setores da burguesia doméstica – agronegócio ou comercial –, seja flertando com políticos reacionários, integrantes de um pretenso “centrão” (notoriamente orientados por interesses lesivos à maioria e ao País), o que as faixas mais significativas das esquerdas brasileiras têm demonstrado é que não se empenham no estímulo à organização e mobilização política popular. Não contam, nem reforçam, muito menos criam forças próprias. Querem se apoiar em forças sociais alheias, senão mesmo inimigas de classe e arranchadas em ações nocivas ao País. Na contramão, para abrir a senda da mudança no Brasil é necessário projeto e convicção para as classes subordinadas e espoliadas agirem. Artigos ora inexistentes.

Norteadas por uma defesa etérea da democracia, uma democracia para a comunidade de negócios nacionais e internacionais chamar de sua, democracia completamente desapossada de direitos sociais, faltam às esquerdas brasileiras duas doses de ousadia e ações que favoreçam organizações e esquemas de percepção dotadas de uma boa autonomia de classe. Todos os passos, contudo, seguem sentido contrário. São símbolos de capitulação. Preconizam uma democracia in abstracto, que não sensibiliza a maioria, como facilmente se percebe ao menos desde a movimentação reacionária e golpista de 2015/16.

Do ponto de vista de uma análise de longo prazo, levando em conta exclusivamente a agenda das classes dominantes gringas e domésticas, agenda neocolonial férrea e religiosamente defendida pelas oligarquias políticas reacionárias no poder, cumpre indagar: Bolsonaro é central ao projeto vende pátria em curso desde o golpe brando de 2016? Ou esse projeto pode ser tocado sem a sua presença no palco?

Essas questões são importantes, por que implicam em escolhas políticas estratégicas e táticas. Seguramente a agenda entreguista e que incrementa a superexploração do trabalho no Brasil, que pulveriza direitos sociais históricos, aliena e desnacionaliza o patrimônio público, já estava sendo duramente aplicada antes de Bolsonaro. Essa agenda pode ser perfeitamente atendida por aqueles setores de direita que a defendem (“centrão”?), mas taticamente, revelam algumas superficiais rusgas com o presidente genocida.

Como ensina o velho Timoneiro chinês, conhecer e monitorar o inimigo são exercícios importantes. Avaliar e identificar as próprias fragilidades e lacunas a serem preenchidas também. Igualmente relevante é a mobilização do elemento político subjetivo, ou seja, a capacidade de iniciativa e de mobilização política dos setores que se pretende defender e representar.

A “teoria da subjugação”, a que fazia alusão Mao Tsé Tung, infelizmente uma teoria cujas ideias básicas ora conduzem as nossas esquerdas, equivale a uma teoria que nega e mina as possibilidades acima destacadas. Hoje, ela tende a traduzir a derrota antecipada e o naufrágio do Povo Brasileiro no tocante à ruptura com o deplorável estado de coisas no País.

Roberto Bitencourt da Silva – cientista político e historiador.

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