Sobre a redução da presença negra na sociedade argentina, comentário de Pietro

Estima-se que 50% da mão de obra argentina, no final do século XIX, era formada por escravos africanos, em algumas províncias a população negra superava os 50%

Foto: Wikimedia Commons

Por Pietro
comentário no post Peron era simpatizante do nazifascismo, absolutamente nada a ver com esquerda, por Andre Motta Araujo

Há algumas imprecisões neste artigo. Se é certo que no final do século XIX e nas primeiras décadas do século XX a chegada de imigrantes europeus forjou o estereótipo rioplatense, também é certo que houve escravidão na Argentina, abolida na constituição de 1853.

Estima-se que 50% da mão de obra era formada por escravos africanos, em algumas províncias a população negra superava os 50%.

A redução da presença negra na sociedade argentina se dá principalmente pelo abandono desse contingente social por parte do estado (há vasta documentação e literatura que demonstra que epidemias – como a febre amarela – nos guetos urbanos dizimaram muitos negros), e também pelo uso de seus participantes nas guerras de independência e na guerra do Paraguai.

Entre os 5.000 homens que cruzaram os Andes com o General San Martin, a metade era formada por negros. Além disso, em várias províncias mulheres negras solteiras ou viúvas de soldados da Guerra do Paraguai eram forçadas a terem filhos com homens brancos.

A mestiçagem é um traço fundamental na formação do povo argentino, principalmente entre a população indígena e europeus. Uma vista pelas províncias de Corrientes, Misiones, Chaco, Jujuy demonstra essa afirmação. Um erro comum quando falamos de Argentina é reduzi-la a Buenos Aires.

Um dado interessante é que nas estatísticas demográficas argentinas, somente em 2006 foi permitido às pessoas entrevistadas declararem-se “negros”, o que evidencia a intenção de invisibilizar a presença de negros no país, ainda que o principal gênero musical do país, o tango, tenha raízes africanas.

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Também se encontram várias palavras africanas no espanhol rioplatense, como milonga, mina, candombe, quilombo etc.

Outra imprecisão relevante no artigo é sobre a emigração argentina. Segundo dados de 2012 da Organização Internacional para las Emigrações (OIM), é fato que o maior número de argentinos que emigram vão para a Espanha (30%), mas em seguida vem os EUA (23,3%) o Chile (8,5%), e Paraguai (6,1%). O Brasil ocupa a 7ª posição, com aproximadamente 3%.

Entre os 10 destinos dos emigrantes argentinos (86,2%), somente um está na Europa e representa pouco menos que um terço de seus imigrantes. O segundo destino europeu é a França, destino escolhido por apenas 1,2% de emigrantes argentinos.

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17 comentários

  1. Mmmm… Não domino o assunto, mas já li em algum lugar que os negros na Argentina foram dizimados. Tanto é que, diferente do Equador, Peru e até Uruguai, a Argentina simplesmente NÃO tem pretos atualmente. Como? Não sei. Pensei que o artigo trouxesse luz a esta sombra…

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    • Jorge, foram dizimados em guerras e epidemias urbanas (bairros negrid vítimas de surtos de febre amarela eram postos em quarentena, e quem tentasse sair levava chumbo), além de terem sido invisibilizados ao longo do século XX, com a ausência de possibilidades por parte de argentinos se auto declararem negros nos censos nacionais até 2006. Não é correto dizer que não existem negros na Argentina, embora seja fato que é uma presença residual. Mas creio que não eInteressante notar que em várias cidades argentinas na atualidade se pode perceber a migração de africanos e centro-americanos negros.

    • Jorge, foram dizimados em guerras e epidemias urbanas (bairros negros vítimas de surtos de febre amarela eram postos em quarentena, pelo exército e quem tentasse sair levava chumbo), além de terem sido invisibilizados ao longo do século XX, com a miscigenação forçada e ausência de possibilidades por parte de argentinos se auto declararem negros nos censos nacionais até 2006. Não é correto dizer que não existem negros na Argentina, embora seja fato que é uma presença residual. Mas creio que não é adequado reforçar os lugares comuns sobre este assunto. Interessante notar que recentemente, em várias cidades argentinas, é possível perceber a migração de africanos e centro-americanos negros.

      • Pietro, tenho residência na Argentina e estou temporariamente no Brasil. É quase impossível ver um negro argentino. É como vc ver um aborígene australiano nascido no Brasil. Quase todos os negros que se vê no país (a rigor, todos que vc ne no dia a dia) são estrangeiros dos países vizinhos, ou algum turista brasileiro ou americano. Os motivos são os que vc mencionou, fruto de uma política oficial de estado de branquear o país. Que também existiu no Brasil, mas na Argentina foi muito mais forte e generalizada.
        Por outro lado, há uma presença indígena imensa, tanto na cultura como na população, principalmente nas classes mais baixas. Isso em geral é ignorado por brazucas que só conhecem 2 ou 3 bairros chiques de Buenos Aires ou Bariloche, um parque temático que faz as vezes de cidade artificial no meio dos Andes. E mesmo em Bariloche a população local fora dos hoteis e das lojas turísticas é mestiça com indígenas patagonicos.

  2. A desaparição da população negra na Argentina ainda vai demorar a ser explicada. Mas é preciso saber qual o papel da escravidão na sociedade Argentina, e como foi seu fim. No Brasll a escravidão foi central na sociedade brasleira e ainda é. Suas sequelas continuam e não afetam apenas os negros mas toda a sociedade, como tão bem disse Joaquim Nabuco e hoje Jessé de Souza. Tudo pelo que passamos hoje tem sequelas desta monstruosidade. A sociedade do gado na Argentina não gerou o mesmo que a sociedade da cana de açucar. Mas lá como cá, esta é uma história que não querem contar, querem apenas esconder. Me incomoda muito quando se pretende justificar diferenças entre países a partir da composição étnica. Busquem na história e no seu desenvolvimento economico as respostas.

    • Frederico, grande parte do Brasil também teve uma sociedade do gado (não é a toa que temos o maior rebanho do mundo). E na Argentina também houve e hácana de açúcar (no norte do país). Essa divisão não existe.
      A Argentina teve uma economia fartamente dependente da escravidão até o momento da libertação dos escravos. Foi central pro país.

    • Que bobajada. Regiões dos EUA muito mais frias do que a Argentina e o Sul do Brasil têm muito mais negros. Só que não houve esse genocídio planejado como na Argentina.

      • Os negros americanos foram para o Norte frio depois da Guerra Civil, já como libertos. Na implantação da cultura escravocrata os negros eram importados
        para trabalhar nas plantações de algodão exclusivmente no Sul, especialmen te na Georgia, Alabama e Mississipi

        • Importação de escravos houve em todas as colônias americanas.

          De todo modo, o Sul dos EUA tem um clima muito parecido com o do Sul do Brasil e da Argentina. Ele é considerado “quente” pros padrões norte americanos, acostumados a longos invernos com neve pelo joelho. A questão climática é irrelevante.

  3. Além de aproveitar as epidemias para matar a população negra, os civilizados vizinhos também inventaram o branqueamento automático: os negros eram convocados para o Exército e enviados a matar os indígenas no Sul do país, estes resistiam, no final sobravam bem poucos dos dois lados.

  4. O último grande ato de branqueamento da população argentina aconteceu na Guerra entre Peru e Chile em que a Argentina tomou partido do Peru, quando enviou para o front de guerra grande parte dos homens negros adultos em condições de lutar (e procriar), e poucos retornaram (os que não morreram foram deixados para trás).

  5. Aqui no Brasil,
    Mês passado um conhecido foi se recadastrar num órgão público em Alagoas e não havia a opção negro, somente pardo ou branco.
    Ou seja, em Alagoas não termos velhinhos negros.

  6. + comentários

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