Sobre identidade racial e racismo, por Cristiane Alves

Sobre identidade racial e racismo

por Cristiane Alves

Dois fatos me tiraram o sono nos últimos dias. Um foi a morte do menino Marcos Vinicius, o outro foi o insight de Fernando Feriado sobre sua identidade racial e racismo.

Antes de tudo gostaria de lembrar a importância dos sentidos. animais que somos, nos valemos dos muitos meios de percepção do entorno, desses reconhecemos cinco ou seis. Mas são muitos mais, a ciência um dia vai ter coragem de afirmar isso, então enquanto não, culpemos os cinco sentidos por nossas percepções.

Compreendemos o mundo pelo cheiro, pelo gosto, pelo tato, pelo que vemos e ouvimos, mas o comprendemos também pelo que falamos e pelo que raciocinamos. Esse conjunto complexo de informações recebidas e processadas por diferentes caminhos é que nos convence que tudo é como cremos.

Então pensei em como somos enganados por nós mesmos, pensei na relatividade de todas as coisas, na capacidade que temos de nos projetar nos outros e na empatia.

Uma percepção comum e amplamente difundida é que negros são potencialmente mais violentos, perigosos, sujos, feios, pobres e bandidos. Essas são percepções construídas por séculos, mas falar sobre essa construção hoje é rapidamente relacionada à mimimi, o que remete ao choramingo, à manha, ao tentar convencer pela vitimização. Mas, pela ótica de quem habita a pele negra, ciente disso ou não, não é.

A questão é profunda, se ramifica e sugere subtemas os quais não se encerram. Importante mesmo é pensar o pensar e suas origens. Deveríamos sempre questionar nossas certezas, rever nossas percepções. Apenas como exercício de sermos mais flexíveis.

Quando um homem pergunta em público qual a vantagem de ser homem, por exemplo, não quer apenas dizer que homens são vítimas da sociedade e, convenhamos, homens também são vítimas, lobos de si mesmo que são

Ao trazer a pergunta ao debate público está na verdade mostrando um ângulo particular onde o privilegiado, cercado que está nesse privilégio, não percebe mais nada nem que seja privilegiado. 

Já falei sobre isso, mas pessoas brancas vivem no mundo como brancos, homens e mulheres, pobres ou ricos, dentro de suas particularidades passam por alegrias, tristezas, vícios e privações. A pergunta recorrente é se há vantagem em ser branco num mundo de brancos, ou ser homem num mundo dominado por homens. A vantagem é apenas ser. Vantagem de ser branco, num mundo dominado por brancos é ser humano. Ser normal.

Do mesmo modo é ser homem. É ser. O não ser causa estranheza, desconforta. Produz o olhar enviezado, a dúvida, o preconceito e as dificuldades.

Isso vale para tudo onde as relações de poder são desiguais, vale tanto mais quanto mais o for a desigualdade.

Por outro lado o sentido não é a realidade, é somente um ponto de vista, um ângulo. Pensemos um mundo onde todos são negros, violentos e pacificos, homens e mulheres, pobres ou ricos. Onde o fato de ser negro não seja requisito para a desconfiança, onde ser negro é apenas ser. Um homem negro na África é um homem, não um homem negro.

Uma mulher em Atlântida seria apenas uma pessoa. 

Talvez nunca cheguemos a ver um mundo inclusivo, de fato, onde nem tudo tenha que ter uma vantagem para ter valor. Talvez não consigamos mudar essas coisas. Mas pensar as nossas certezas sempre pode nos tornar livres de nossos preconceitos.

Então chegamos ao Marcos Vinicius, menino negro morto por bala encontrada, num lugar onde muitos acreditam ser o reduto de toda violência, a favela.

Do ponto de vista da classe média branca, não causa estranheza ser assassinado aos 14 anos quando se é negro e favelado, não comove como fosse um menino loiro do Leblon. Então olham o uniforme e pensam que poderia ser QUALQUER CRIANÇA (como se ele não fosse qualquer criança). Para justificar o direito de assassinarmos crianças negras e estudantes alguém tem a brilhante idéia de editar uma imagem onde um corpo negro armado serve como complemento para o rosto daquele que era só um menino. Em um único toque e a dor de ser atravessado por uma bala, a dor da mãe, que por 14 anos criou esperança e sonho, a perda, o choro, em apenas um dedilhar tudo se justifica. 

A pessoa que transformou Marcos Vinicius em um delinquente perigoso e todos os que compartilharam a imagem e seus sentidos, todos foram igualmente culpados, bandidos, violentos e perigosos. Matam a criança, a mãe e a mulher viúva de uma história de 14 anos.

Então pedem desculpas, vazias. No próximo negro morto tudo novamente. Porque é mais fácil aceitar que o que crêem é a verdade do que questionar essa verdade. Não atoa pedem ditadura, sabem que ali as verdades são construídas e impostas, não precisam produzir nada, apenas propagar. A vida do mínimo esforço onde alguém sempre terá que se esforçar dobrado, mas nunca será visto.

O mundo onde Fernando Feriado é misericordiosamente selecionado para provar que sim todo negro é problemático, mas com esforço, com vontade, com determinação podem se tornar negros melhores. Negros que acreditam que a dificuldade da maioria é vitimismo, que torcem pela manutenção dos privilégios de quem sempre teve. Negro que persegue o semelhante por não ver semelhança. Por olhar o outro com as lentes que não são suas, que nunca será o dono da casa grande por isso se contenta com manusear o chicote e guardar a senzala. Pra esse todo choro e lamento vindo do esfomeado, do agredido, do massacrado, é vitimismo. Fossem como ele seriam livres e fortes. Mas não faz questão de notar que se todos fossem iguais ele mesmo seria desnecessário. 

Então penso que nossos sentidos nos dão o mundo, mas eles nos aprisionam.

 

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