4 de junho de 2026

Suécia tropical, Crise de Hegemonia e lenda dos macaquinhos

Dois artigos recentemente publicados na grande blogosfera, um de Emir Sader (A crise hegemônica em escala mundial) e outro de Luis Nassif (Para melhor entender os amuos de FHC com Joaquim Barbosa ) são complementares, embora pareçam nada ter em comum.

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O artigo publicador por Emir Sader aborda a atual Crise de Hegemonia do modelo neoliberal que perdeu força e legitimidade, mas continua sob o patrocínio dos EUA sendo o modelo mais forte. A ele Sader não enxerga alternativa viável, o que trava o processo de amadurecimento de outro ciclo. Diz Sader retomando Gramsci: Nunca como agora foi verdade a tensão entre um mundo que se esgota mas teima em sobreviver e um mundo novo, com grandes dificuldades para nascer. Nesse vazio se insere um mundo instável, turbulento e uma ampla disputa hegemônica em escala mundial.

O artigo de Luis Nassif traz à baila um dos problemas cruciais para a solução da questão posta pela crise de hegemonia: a compreensão do esgotamento do ciclo “comunista” como modelo de sociedade para a esquerda, que considera com propriedade que, embora morto e sepultado, continua servindo de espantalho pela direita para impedir os avanços da esquerda.

Diz Nassif, no que denomina de: A indústria do anticomunismo e a experiência dos cinco macaquinhos: Eram cinco macaquinhos, uma escada e, no alto, um cacho de bananas. Cada vez que um macaquinho tentava subir a escada, todos eles recebiam um banho de água fria. Com o tempo, sempre que um macaquinho ameaçava subir a escada, era contido pelos demais.Aí tiraram as bananas do alto da escada. Um a um foram trocados os macaquinhos originais. O novo na turma tentava subir a escada e imediatamente era contido pelos demais. Passava um tempo, entrava na nova rotina. Quando o quinto macaquinho original foi substituído, na memória coletiva não existiam mais bananas. Mas permaneciam os controles internos para impedir qualquer macaquinho de subir a escada. Esse caso, contado nos manuais de psicologia, é similar ao que ocorreu com a indústria do anticomunismo brasileiro. Nos anos 20 e 30 houve um conjunto de episódios consolidando o anticomunismo no imaginário de muitos setores. Devido às perseguições religiosas em países comunistas, para a Igreja o comunismo passou a significar o ateísmo anticlerical. Para o Exército, havia as lembranças do que foi chamado de Intentona Comunista, dos oficiais mortos de madrugada, e da doutrina internacionalista que abominava o conceito de nação, além dos ecos da guerra fria. Para os empresários, tratava-se do regime que acabou com a propriedade privada e instituiu o planejamento estatal férreo.De lá para cá, tudo mudou. A Guerra Fria terminou no encontro de Kennedy com Kruschev  em 1963. O comunismo acabou no início dos anos 90. Por aqui, o comunismo já havia perdido a liderança dos movimentos populares para o recém-criado Partido dos Trabalhadores, conduzido por um líder, Lula, que era filho direto da industrialização das multinacionais no ABC. E se havia alguma dúvida sobre suas intenções social-democratas, a Carta aos Brasileiros eliminou-as.Uma a uma foram retiradas as bananas do alto da escada. Mas permaneceu a exploração do anticomunismo no imaginário nacional. Tornou-se a maneira mais simples de conduzir qualquer discussão política pública. 

Sader não vê nos dias de hoje modelo contra-hegemônico suficientemente maduro para superar o ciclo neoliberal. Nassif acrescenta, embora abordando outro problema, a principal estratégia política do conservadorismo brasileiro: a identificação da esquerda ao modelo de Estado e de Sociedade do velho “comunismo”.

Ao artigo de Sader vale acrescentar, como fiz em comentário que postei na Carta Maior, que o modelo que disputa a hegemonia no seio do capitalismo na presente quadra da história é o modelo de “Estado de bem estar social” conjugado ao de uma “Sociedade de direitos”. Este modelo vem sendo responsabilizado pela direita, que já esqueceu a especulação financeira, pela crise econômica contemporânea. Este modelo disputa hegemonia com o neoliberal inclusive no seio dos próprios Estados Unidos, onde o dito Obama Care aparece aos olhos dos conservadores como “socialismo”. Discordamos portanto de Sader no plano da existência e viabilidade internacional de um modelo alternativo e forte de contraposição ao modelo neoliberal e por vê-lo disputar a hegemonia em todas as arenas, sem distinção para o “dentro e fora” dos EUA. 

Resta o enigma proposto por Nassif sob a forma da “lenda dos macaquinhos”, na verdade uma experiência da psicologia. Digo que é um enigma, porque está inscrito como um problema que é de magnitude suficiente para estabelecer um “decifra-me ou te devoro”. O que fazer para superar a percha que a direita contemporânea, no plano brasileiro e internacional, lança sobre a esquerda de desejar fazer reviver a experiência dita “comunista”?

O terceiro artigo que quero citar é o que eu mesmo escrevi na seção fora de pauta do GGN e que intitulei “A Suécia tropical e o Brasil que deu certo”. Naquele artigo, centrado nos desdobramentos políticos e simbólicos da aliança militar estabelecida entre Brasil e Suécia, materializada na compra dos caças Gripen, tentei justamente ir adiante na superação tanto da crise de hegemonia, quanto na superação do enigma. Dizia: Vivemos um momento em que o Estado de bem estar social, inspirador dos avanços ocorridos no Brasil nos últimos doze anos, vem sendo vergastado em toda parte, sendo responsabilizado pela direita, que já se esqueceu da especulação financeira, pela falência da economia global. A Suécia continua firme e serena como sociedade de bem estar social, sobre a qual funda um sentido de civilidade inigualável no mundo de hoje. Se observarmos o conjunto das políticas de inclusão social consolidados nos governos da esquerda do Brasil contemporâneo poderíamos enxergar um vetor de longuíssimo prazo a construir uma sociedade convergente para o modelo que já é atual naquela país escandinavo, uma sociedade de liberdades civis, direitos assegurados, culta e com um dos melhores índices de Gini do planeta.

As saídas para a atual crise de hegemonia vividas pelo capitalismo contemporâneo não implantarão um “novo” entendido como algum retorno ao velho socialismo, mas poderão sim permitir avanços na estrutura e superestrutura das sociedades contemporâneas compatíveis com a construção de uma sociedade de direitos e de bem estar social de natureza pós-neoliberal. Este modelo não representará o fim da burguesia internacional, mas certamente e enfraquecimento da hegemonia burguesa dos setores identificados com o neoliberalismo.

Em que isto nos diz respeito. Ao Brasil recai a responsabilidade de fazer avançar de dar viabilidade política na América do Sul a este novo projeto de Estado e de Sociedade, no plano nacional e no plano regional. É preciso portanto que o PT, enquanto principal organização da esquerda brasileira defina claramente, para além de uma proposta “de esquerda” para o Brasil, um projeto de Estado e de Sociedade que possa ser pactuado e consensuado inclusive com as forças externas ao campo da esquerda e que estão desgarradas também do guarda-chuvas neoliberal.

A proposta da “Suécia tropical” encarna e materializa este projeto: uma sociedade de matriz ocidental, democrática, pacífica e pacifista, respeitadora dos direitos humanos e das liberdades e garantias individuais encimada por Estado de bem estar social que não foi sugado pela crise e que conservou poder regulador sobre a economia. Uma sociedade que produziu uma cidadania culta e humanista.

Não deverão pairar dúvidas em ninguém, nem no Brasil e nem no mundo, de que o fortalecimento da esquerda em nosso país e em nossa região remete para organização de um modelo de Estado e de Sociedade que será a potencialização máxima do Estado de bem estar social e da Sociedade de direitos.

De resto esse projeto emerge como um arremate natural ao tipo de sociedade pelo qual temos lutado desde a ditadura e cujos vetores têm sido os da ampliação de direitos e liberdades, prioridade à proteção aos vulneráveis, garantia de renda mínima e de educação e saúde para todos, dentre outras bandeiras.

Cabe ao PT propor que papel entende que deva desempenhar a burguesia brasileira no próximo ciclo que parece erguer-se no horizonte. Cabe também ao PT propor este modelo aos países da América do Sul que desbravam, em suas lutas contra o neoliberalismo, novas formas de organização do Estado e da Sociedade e que ainda possam cultivar ilusões passadistas, ainda ancoradas no modelo leninista de Estado e de Sociedade. Ao modelo de Suécia Tropical deveria somar-se o de Suécia Meridional.

Ion de Andrade

Médico, epidemiologista e pediatra, professor universitário e militante do SUS e dos movimentos urbanos.

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  1. Del40

    4 de janeiro de 2014 12:15 pm

    ai ai ai

    Cabe ao PT propor que papel entende que deva desempenhar a burguesia brasileira no próximo ciclo

    como assim? cabe ao pt é governar, enquanto é governo, ou fazer oposição, quando deixar de ser governo. quem pode definir o papel da burguesia é… a burguesia! a menos que isso aqui vire uma ditadura.

    Cabe também ao PT propor este modelo aos países da América do Sul que desbravam

    que viagem!

     

  2. Obelix

    4 de janeiro de 2014 12:16 pm

    Só um adendo.

    Prezados e prezadas,

    Li aqui no blog (acho que no post sobre o fracasso modelo educacional privado da Suécia, e não chequei, portanto, concedam-me o benefício do chute:

    Embora ostente números invejáveis, é a Suécia onde a desigualdade cresce em ritmo mais acelerado. É um dado que deve ser levado em conta.

    A própria adoção de um sistema privado em um país onde a educação pública e gratuita, alimentada por anos e anos de uma estrutura tributária progressiva, é um exemplo claro de como na ausência de fontes de acumulação chamadas tradicionais (primária, secundária) o capital sai a cata dos serviços públicos, transformando direitos em negócios.

    E sobre o texto em si, eu tenho a dizer:

    Não, um modelo pós-neoliberal não contemplará uma classe burguesa menos hegemônica, mas talvez as formas de dominação estejam mais diluídas (fluídas) o que pode nos dar a impressão de menor peso relativo, o que é tão ou mais perigoso que o modelo atual.

    É o que os coxinhas da ulta-esquerda daqui chamam de reformismo ou gradualismo, e tenho que concordar eles, muito embora não enxergue outra saída para a sociedade pós-contemporânea senão este novo arranjo descrito pelo autor.

    Portanto, a diferença conceitual é que imagino que teremos que mudar a realidade “trocando o pneu com o carro andando”, e não queimar o carro com todos os ocupantes dentro.

    A questão crucial é que as escolhas geográficas e financeiras dos centros capitalistas para seus novos ciclos de expansão não obedecem a um acordo isonômico entre as nações e seus povos.

    Se o Brasil der “certo”, com certeza será às custas do deslocamento ou empobrecimento da riqueza de algum outro canto do planeta.

    E sabemos todos que estes movimentos sempre terminam em arbitragem militar.

    Não sei ao certo, mas temo que o gasto militar per capita que mais cresceu nos últimos dez anos não foram os da China, como imaginamos, mas sim dos países cuja hegemonia encontra-se ameaçada, EEUU à frente.

    Outro limite na análise, sem incorrer em determinismo geográfico, é que não há outra Suécia possível, muito menos sob condições brasileiras.

    Cordial abraço.

  3. Alexandre Weber - Santos -SP

    4 de janeiro de 2014 3:28 pm

    Rumo, norte e estrela

    Sem rumo, sem norte e sem estrela não se navega um país continental como o Brasil.

    Estamos à deriva, ao sabor do vento, das ondas e das marés.

    Dilma começa a reforma administrativa dando as condições mínimas e necessárias para o exito da empreita. Um ministério com 14 pastas e 72 secretarias é um primeiro passo.

    Discussões acadêmicas sobre o passado, sem incluir as novas tecnologias telemétricas que possibilitaram mapear milimetricamente todos os recursos do planeta e a matématica matricial que computa as possibilidades do que se fazer com isto, me parece somente masturbação mental de quem leu muitos livros inuteis.

    Aja!

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