20 de maio de 2026

Trump e a política do caos: da hegemonia ao porrete, por Gustavo Tapioca

Trump não é um acidente histórico nem um desvio da política internacional. Ele é o sintoma mais explícito de um sistema em esgotamento.
Tump em foto de Gage Skidmore - Flickr

Trump retorna à Casa Branca com política externa baseada em sanções, ameaças e caos como método deliberado de poder.
O trumpismo expressa o colapso do imperialismo norte-americano, que passou da liderança por consenso à coerção e intimidação.
No Brasil, a extrema-direita segue roteiro similar, ameaçando a democracia e aprofundando a dependência externa e o conflito interno.

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Trump e a política do caos: da hegemonia ao porrete

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por Gustavo Tapioca

O retorno de Donald Trump à Casa Branca não inaugura uma nova política externa — escancara o colapso da antiga. A diplomacia cede lugar à ameaça, o multilateralismo é substituído por sanções e o caos passa a operar como método deliberado de poder. Longe de ser improviso ou descontrole, o trumpismo expressa um imperialismo que já não consegue liderar o mundo e passa a governá-lo pela intimidação.

Donald Trump não governa pela ordem. Governa pelo medo. Não constrói consensos, não organiza alianças, não lidera o sistema internacional. Ele ameaça, sanciona, chantageia, humilha e desestabiliza. O que muitos insistem em chamar de “imprevisibilidade” não é erro de percurso — é estratégia. Trata-se do imperialismo quando já não consegue oferecer futuro, apenas impor obediência.

Trump não é um acidente histórico nem um desvio da política internacional. Ele é o sintoma mais explícito de um sistema em esgotamento. Quando a promessa liberal deixa de funcionar — crescimento, prosperidade compartilhada, estabilidade — o poder abandona a encenação institucional. Cai a máscara. Fica o porrete.

O trumpismo emerge num momento paradoxal: os Estados Unidos seguem sendo a principal potência militar e financeira do planeta, mas já não conseguem organizar o sistema internacional. Mandam, mas não convencem. Impõem, mas não lideram. A hegemonia deixa de ser consenso e se converte em coerção aberta.

O caos, portanto, não é consequência. É política.

Do império que organizava ao império que ameaça

Durante décadas, o imperialismo norte-americano combinou força material com legitimidade política. Instituições multilaterais, tratados internacionais, organismos financeiros e o discurso da democracia liberal funcionavam como instrumentos de estabilização da ordem global — ainda que profundamente desigual.

Esse modelo entrou em colapso.

A globalização neoliberal concentrou riqueza, desmontou Estados nacionais, destruiu empregos industriais e aprofundou desigualdades sociais e territoriais. O centro do capitalismo passou a produzir frustração, ressentimento e instabilidade, inclusive dentro das próprias economias centrais. A promessa de prosperidade virou crise permanente.

É exatamente nesse ponto que Trump emerge — não contra o sistema, mas como sua adaptação mais brutal. Onde antes havia diplomacia, ele oferece ameaça. Onde havia negociação, sanção. Onde havia regra, chantagem. O imperialismo deixa de fingir que organiza o mundo e passa a desorganizá-lo conscientemente como forma de dominação.

Imperialismo sem promessa, poder sem disfarce

O trumpismo é o imperialismo sem horizonte histórico. Não promete desenvolvimento, integração nem estabilidade. Promete punição. Governa pelo choque, pela imprevisibilidade calculada e pela fabricação permanente de inimigos — externos e internos.

No segundo mandato, essa lógica se aprofunda. Sanções econômicas deixam de ser exceção e se tornam política cotidiana. Bloqueios substituem acordos. A guerra comercial ocupa o lugar da política externa. Aliados passam a ser tratados como vassalos temporários. Países periféricos, como territórios a serem disciplinados.

Não se trata de improviso pessoal ou de idiossincrasia presidencial. Trata-se de lógica sistêmica. Quando o império perde a capacidade de comandar a ordem internacional, ele passa a mantê-la sob tensão permanente. O caos deixa de ser falha e se converte em ferramenta de poder.

A extrema-direita como engrenagem da crise global

O trumpismo não atua isoladamente. Ele se articula com forças de extrema-direita em várias partes do mundo, todas seguindo um roteiro comum: ataque sistemático às instituições democráticas, guerra cultural permanente, nacionalismo retórico para consumo interno e submissão prática ao capital financeiro internacional.

Foi assim no Brasil de Bolsonaro, com o isolamento diplomático, o ataque às instituições e a tentativa de ruptura democrática. É assim na Argentina de Milei, onde o discurso libertário encobre a submissão financeira e a demolição do Estado. É assim em El Salvador, na Hungria, na Turquia e em outras experiências em que eleições continuam existindo, mas a democracia é esvaziada por dentro.

A extrema-direita não é antissistêmica. Ela é funcional. Serve para desmontar direitos, naturalizar a violência e garantir que o custo da crise recaia sobre os de baixo. Quando a democracia se torna um obstáculo, ela é descartada sem hesitação.

O Brasil na periferia do caos

Na periferia do sistema internacional, essa lógica se manifesta de forma ainda mais crua. O discurso de soberania convive com a entrega da autonomia. O patriotismo de palanque anda lado a lado com a submissão estratégica. O ataque à democracia interna funciona como pré-condição da dependência externa.

Nada disso é casual. Países periféricos só permanecem subordinados quando suas instituições são enfraquecidas, sua política externa neutralizada e sua sociedade mantida em estado permanente de conflito. O caos também é método por aqui.

O trumpismo brasileiro não é caricatura. É tradução local de um imperialismo em crise que já não se dá ao trabalho de esconder seus interesses.

Lenin explicou. Trump escancarou

Em Imperialismo, etapa superior do capitalismo, Lenin descreveu o momento em que o sistema atinge seu limite histórico: concentração extrema de riqueza, fusão entre capital financeiro e Estado, exportação da crise e substituição da concorrência pela violência aberta.

Em termos diretos: quando o capitalismo já não consegue crescer, ele passa a saquear; quando já não convence, ele passa a impor; quando já não promete progresso, ele governa pela força.

Trump não refutou essa leitura. Ele a confirmou, um século depois — sem teoria, sem pudor e sem disfarce.

O alerta brasileiro

As eleições que se aproximam não são uma alternância rotineira de poder. São um teste de sobrevivência democrática. A extrema direita, a direita liberal, as elites brasileiras e o que restou do bolsonarismo não representam uma divergência programática legítima. Os candidatos à presidente que esse agrupamento indica para disputar com Lula a eleição de outubro de 2026 é exemplo disso. O objetivo é reinstalar no Brasil a lógica do trumpismo internacional: governo pelo caos, intimidação das instituições, submissão externa e ruptura constitucional como método.

Não se trata de retórica. Esse projeto já tentou um golpe, atacou o Supremo Tribunal Federal, isolou o país internacionalmente e colocou o Brasil na condição de satélite de um imperialismo em crise. Sua volta significaria aprofundar a dependência, normalizar a violência política e desmontar, por dentro, as bases da soberania nacional.

A escolha diante do eleitorado é dura, mas clara: ou o Brasil preserva a democracia imperfeita que reconstrói, com conflito, pluralidade e política externa soberana, ou aceita a reinstalação de um projeto autoritário que transforma o caos em forma permanente de governo.

Não há neutralidade possível.
A história não absolverá a omissão.

Gustavo Tapioca é jornalista formado pela UFBa e MA pela Universidade de Wisconsin. Ex-diretor de Redação do Jornal da Bahia. Assessor de Comunicação da Telebrás, Oficial de Comunicação do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e do IICA/OEA. Autor de Meninos do Rio Vermelho, publicado pela Fundação Jorge Amado.

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Gustavo Tapioca

Gustavo Tapioca é jornalista formado pela UFBa e MA pela Universidade de Wisconsin. Ex-diretor de Redação do Jornal da Bahia. Assessor de Comunicação da Telebrás, Oficial de Comunicação do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e do IICA/OEA. Autor de Meninos do Rio Vermelho, publicado pela Fundação Jorge Amado.

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