no Substack: Amanhã não existe ainda
Uma distopia otimista
Com duas temporadas concluídas, Ruptura (no original, Severance) é uma das melhores opções disponíveis atualmente no streaming (na Apple TV e no seu distribuidor favorito de torrents). É um seriado de ficção científica, mas passa longe da maior parte dos clichês do gênero. Para começar, seu ritmo é mais lento do que o padrão das produções atuais, o que é central para transmitir o clima opressivo – opressivo, porém clean, por assim dizer – de seu universo ficcional.
Creio que, nessa altura do campeonato, muita gente já assistiu ou tem noção do enredo do seriado. Ruptura acompanha quatro trabalhadores de escritório, envolvidos em uma tarefa aparentemente sem sentido, dentro de uma corporação gigantesca chamada Lumon. Todos passaram por um procedimento que divide sua consciência em duas. Dentro da empresa, eles não sabem quem são do lado de fora. Quando termina o expediente, não lembram do que fizeram, nem de com quem conviveram no trabalho.
O design de produção é um dos grandes trunfos do seriado, contribuindo de formas central para construir a sensação de estranheza nos espectadores. Dentro da empresa, são grandes salas com iluminação fria e poucos móveis, no estilo de um modernismo ultrapassado, com computadores e engenhocas de décadas atrás, em um labirinto aparentemente interminável de corredores. Fora dela, as cenas tendem a ser escuras e o mundo se revela sujo e desorganizado.
Eu gostei mais da primeira do que da segunda temporada; acho que houve uma tentativa de ligar pontas soltas, por exemplo atribuindo um sentido algo místico, embora ainda misterioso, à atividade aparentemente despropositada dos funcionários. Parecia-me mais promissora a ideia do universo guiado por uma lógica que não seríamos necessariamente capazes de decifrar. Ainda assim, é um bom programa, com roteiro afiado, interpretações acima da média e trilha sonora inteligente, sem falar na vinheta de abertura, diferente para cada temporada, que vale ser assistida por si só.
A separação da consciência em duas esferas incomunicáveis serve de metáfora bem óbvia, mas nem por isso menos pertinente, para a alienação do trabalho na sociedade capitalista. A distopia que Ruptura apresenta é a exacerbação absoluta desta dissociação entre tempo de trabalho e tempo de vida. Ao mesmo tempo, podemos ver alguma referência, embora mais mediada, à imersão no trabalho como forma de escapar das agruras da própria vida – um pouco na linha do “novo espírito do capitalismo” teorizado por Boltanski e Chiapello. Assim, ficamos sabendo que Mark, o protagonista (interpretado por Adam Scott), optou por fazer a ruptura a fim de, pelo menos no tempo em que estava no serviço, esquecer da morte trágica da mulher.
Para a companhia, além da garantia de segurança para seus eventuais segredos empresariais, o grande benefício é estimular a subserviência dos trabalhadores. Eles só se encontram sob sua supervisão; do lado de fora, não são sequer capazes de reconhecer uns aos outros e não guardam memória das humilhações e violências que sofrem no emprego. O sonho burguês de uma força de trabalho perfeitamente domada estaria mais perto de se realizar.
No entanto, conforme vamos vendo pelo desenrolar da trama, há resistência. Os funcionários criam conexões entre si e reagem a manter sua consciência dividida. Com criatividade inesgotável, buscam maneiras de burlar a ruptura e reconectar seu eu interno com seu eu externo. Por mais que seja promovida, a alienação nunca é completa; a vontade de integrar vida e trabalho num todo dotado de sentido parece ser inata aos seres humanos.
Ruptura se mostra, assim, uma distopia otimista, que deixa, por caminhos talvez estranhos, uma mensagem de esperança para os nossos tempos. Afinal, o que nos assombra hoje é exatamente a ideia de que o capital alcançou um império tamanho sobre as mentalidades, por meio de suas formas de cooptação e narcotização, do consumismo, da interiorização da repressão, do escapismo, do conformismo, da convicção da impossibilidade de alguma coisa diferente, que qualquer forma de resistência está fadada ao fracasso.
A aposta da ação política de esquerda sempre foi de que, apesar de todos os mecanismos ideológicos e de toda a repressão, as pessoas acabam por aprender com a própria experiência e construir caminhos para buscar a própria emancipação. De alguma maneira, este é o recado de Ruptura.
Ruptura (Severance). Criação de Dan Erickson, com Adam Scott, Britt Lower, John Turturro, Zach Cherry, Patricia Arquette, Tramell Tilmann e outros. Primeira temporada exibida em 2022, segunda em 2025.
Luis Felipe Miguel é professor do Instituto de Ciência Política da UnB. Autor, entre outros livros, de O colapso da democracia no Brasil (Expressão Popular). Coordenador do Grupo de Pesquisa sobre Democracia e Desigualdades (Demodê).
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