A ideologia e a mentalidade colonial do “trabalho”
por Wesley Sousa[1]
A ideologia e a mentalidade colonial se fundem sob o signo da exploração do trabalho. As declarações e ações políticas recentes, como o caipira mentecapto Romeu Zema, as ações do Parlamento em barrar a pauta sobre o fim da jornada “6×1”, não são novidades, e muito menos serão as últimas.
O trabalhador é sequestrado de sua plena vida, pois é reduzido ao apêndice de uma maquinaria em cujo resultado se deu através de um dos adventos mais brutais que a nova forma (capitalismo) nos impôs: pela força violenta e impessoal, o colonialismo econômico e cultural, que usou da força de trabalho escrava e infantil em sua amplitude, reverberando em novas formas contemporâneas. Como produto disso, uma nova maneira de organização global se alastrou, alterando nossa formação intelectual, artística, política etc. A condição no mundo do capitalismo força à sua rotina diária e domina a tudo como uma pena de vida que recai em não fruir do quantum de tempo livre: a alienação de si faz com que negue a si próprio o “direito ao ócio e à fruição”, pensando ser ele chefe de si ou algum “empreendedor” da própria desgraça, como algum “agente autônomo” de si.
O que mais se percebe é que as ideologias do “empreendedorismo” ou “autonomia do trabalhador” é confrontada aos fatos. Como podemos ler os dados tanto através do DIEESE quanto do IBGE, por exemplo, sabemos que grande parte da população brasileira não chega sequer a receber o salário mínimo nominal. Basta andar em quaisquer ruas das cidades e perceber o que o “mundo do trabalho” nos proporcionou: a invenção da pobreza urbana, a violência racial, a dominação política e a divisão intelectual e manual do trabalho. O papel da informalidade no modo de produção capitalista é o de garantir um largo exército industrial de reserva (massa de desempregados), o que tendencialmente empurra os salários para baixo e absorve as variações na empregabilidade devido ao “mercado internacional”.
Como o capitalismo independe de “justiça social”, as falas e as atitudes corriqueiras de pessoas e grupos da fração colonial brasileira exercem seus papeis de classe em suas mentalidades de dominação e exploração.
“Reivindicar uma retribuição igual, ou simplesmente uma retribuição equitativa, na base do sistema de trabalho assalariado, é o mesmo que pedir liberdade na base do sistema escravocrata. O que se considera justo ou equitativo não vem ao caso. O problema está em saber o que é necessário e inevitável num dado sistema de produção” (Marx, 2010, p. 112).
Nesse diapasão, uma fantasia da ideologia do capitalismo que se impregna no trabalhador, que pensa regular o próprio erário com base na meritocracia e no tempo de trabalho prestado, se vê tolhido de sua capacidade de massa-crítica para refletir o quão reificado e animalizado está. Um dos efeitos mais evidentes disso é o domínio ideológico que “criança não pode trabalhar” seria como se fosse um problema, e não um efeito retórico que reflete a divisão social e racial: a criança tem direito à cidadania (escola, entretenimento, artes, filosofia, etc.), mas nem todas: outras precisam fazer sua “cidadania” entre os desvalidos do mundo pelo “trabalho”.
Assim, se reproduz a dominação de classe, pois a cisão permanente de base aumenta ao passo que este trabalhador domesticado nem consegue se organizar para com seus semelhantes de classe para subjugar tal condição de exploração diária. Fatalmente, culmina nas mais brutais formas de violência direta e indireta, desemprego e analfabetismo funcional, por exemplo.
Daí que figuras com a mentalidade colonial exercem todos os dias a ideia de que o “trabalho” humanizaria; na verdade, o modo de organização do trabalho é a perversão da divisão social imposta do trabalho. Assim, o discurso de que o trabalho infantil seria um “antídoto” para a pobreza se torna um método eficiente para o domínio terreno da burguesia e dos poderosos parasitas (a classe média e as classes dominantes que vivem do trabalho alheio); porque eles regulam o tempo que o trabalho utiliza para secar o suor da testa, controla as batidas do coração, os impulsos nervosos e o ritmo de respiração, seus ideários e desejos.
O ser humano no capitalismo é reduzido à mera força de trabalho, que pode ser descartada como lixo quando não é mais útil. Não pense a “autonomia” no mundo do capitalismo é existente. Se você é explorado, depende do trabalho para viver, logo não há liberdade em abstrato para advogar; tampouco mudará sua situação material abraçando ideais pelos quais vão contra seus próprios interesses. Sua gestão da pobreza não passa de necessidade, não apenas de “liberdade”. (Além disso, o Brasil é um dos países com piores índices de mobilidade social.)
Cada vez mais a queda da perspectiva objetiva e subjetiva de vida, resultando na piora na saúde tanto física quando psíquica. Aumento da violência por meio do desemprego que o capitalismo gera. O trabalho existe como intercambio entre o homem e a natureza, na transformação por meio de suas faculdades e habilidades para criação e autopreservação. Mas no capitalismo, a condição de trabalhador se torna “necessária” para a reprodução de um tipo de sociedade que o trabalho é meio apenas de acúmulo de riquezas e exploração. Dessa forma, o trabalhador está submetido sem vínculos empregatícios carente de leis trabalhistas, sem sindicato, despido de seguridades e até do próprio direito a se aposentar, como tantos outros nesse abatedouro humano.
“O capital tem um único impulso vital, o impulso de se autovalorizar, de criar mais-valor, de absorver, com sua parte constante, que são os meios de produção, a maior quantidade possível de mais-trabalho. O capital é trabalho morto, que, como um vampiro, vive apenas da sucção de trabalho vivo, e vive tanto mais quanto mais trabalho vivo suga. O tempo durante o qual o trabalhador trabalha é o tempo durante o qual o capitalista consome a força de trabalho que comprou do trabalhador. Se este consome seu tempo disponível para si mesmo, ele furta o capitalista” (Marx, 2013, p. 307).
Contra esta “racionalidade do capital”, nós devemos afirmar outra: a racionalidade dos interesses da classe trabalhadora, da satisfação das necessidades dos seres humanos de carne e osso (considerados “supérfluos” pelo capital). Rosa Luxemburgo acertou quando disse sobre a socialização da sociedade, ainda em 1918, que, para o bem-estar da coletividade, é preciso que os meios de produção, assim como as forças de trabalho sejam inteligentemente administradas e economizadas. O desperdício que ocorre hoje a cada passo, seja humano seja ecologicamente precisa acabar. O problema não é a “ausência” de trabalho para muitos, mas a existência de capitalismo para todos.
Como diria o sambista carioca Ederaldo Gentil:
“[…] Preparo quase nada e levo na marmita / Vou dependurado e os sinais fechando / Chego atrasado é cortado o dia / São tantos os descontos / Que nem mesmo sei / Me falam de vantagens / Que eu jamais ganhei / É o INPS, FGTS / IRSS, o Seguro e o PIS / Com 30 de trabalho estou aposentado / E com mais de 70 eu penso em ser feliz […]” (Ederaldo Gentil, “Identidade”, 1984)[2].
Referências:
MARX, Karl. O Capital. Livro I. Boitempo: São Paulo, 2013.
MARX, Karl. Trabalho Assalariado e Capital & Salário, Preço e lucro. São Paulo: Expressão Popular, 2010.
[1] Wesley Sousa – doutorando em Filosofia pela UFMG.
[2] < https://www.youtube.com/watch?v=gR6kN2a4W1I >.
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