Wild, Wild, Brazil, por Paula Fontana Fonseca

Como ponto de apoio para esta análise, escolhi retomar um clássico: O alienista. Machado, insuperável na arte de narrar o humano, aproxima-nos da visão de Simão Bacamarte e sua busca incessante por encarcerar a loucura

Imagem: “Antes e Depois da Lobotomia” – Lúcio Noemann, exposição Nise da Silveira, São Paulo, 2018.

da Psicanalistas pela Democracia 

Wild, Wild, Brazil

por Paula Fontana Fonseca

Dia 18 de maio comemora-se a luta antimanicomial. Você poderia perguntar-se: como comemoramos uma luta? Lutando, oras! Indo às ruas, fazendo palestras, pautando os políticos e dando visibilidade para as disputas vivenciadas no cotidiano das mais diversas formas. É por isso que o dia Nacional da Luta Antimanicomial não começa e termina em 18 de maio. Esse dia é, ao mesmo tempo, um marco dessa história – a luta pelo fim dos manicômios – e a renovação de uma promessa arejada pelas questões atuais. É numa conjugação entre o ontem e o amanhã que um dia de luta se tece. Ele nunca é um fim em si mesmo.

E o que tem sido construído no campo da saúde mental neste final de década? Retrocessos. Sem dúvida essa palavra dá o tom ao debate político nessa área: internação compulsória, revitalização do hospital como lócus do tratamento, reordenamento dos investimentos financeiros em prol de uma lógica hospitalocêntrica, equiparação de usuário de drogas com traficante… São muitos os exemplos da retomada da limpeza social como política de Estado (sobre esse tema, vejam o importante trabalho de Daniela Arbex, O holocausto brasileirohttps://www.youtube.com/watch?v=5eAjshaa-do).

Como ponto de apoio para esta análise, escolhi retomar um clássico: O alienista. Machado, insuperável na arte de narrar o humano, aproxima-nos da visão de Simão Bacamarte e sua busca incessante por encarcerar a loucura. O médico, obcecado que estava por separar os normais dos anormais, aproxima-se com tal intensidade da diversidade humana que acaba por concluir que quem deveria estar internado seria ele próprio. É no reconhecimento dos erros de suas teorias, também na evidência de sua condição de unicidade que o alienista decide por segregar-se do mundo: era o único sem vícios, defeitos, enfim, reunia em um só ser teoria e prática. Uma espécie de demonstração da exceção que faz a regra: há um que não é marcado pelos “defeitos” humanos, esse ser era Simão Bacamarte.

Mas o que acontece no alienismo distópico à brasileira de 2019? Bem, o furor segregacionista persiste, só que ele não vem acompanhado de uma autorreflexão que ponha à prova as teorias frente aos acontecimentos do mundo. Não importa se as ruas estavam tomadas pelo Brasil afora no dia 15 de maio em uma onda crescente de manifestação pela educação e contra as arbitrariedades de um governo. O que vale é dizer que eram “meia dúzia” ou ainda “idiotas úteis”. Ou seja, busca-se desqualificar o outro e diminuir sua expressividade. É na homogeneização do povo que o governo e seu guru colocam todas as fichas.

O guru é um capítulo à parte. Inevitável recordar da série disponível no Netflix “Wild, wild, country”, quando seguidores do indiano Bhagwan resolveram realizar uma experiência comunitária em um rancho situado no deserto do Oregon. O documentário é incrível e cria um fenômeno muito interessante entre seu público: o “team Sheela” e o “team Oregon”. É uma brincadeira, claro, mas fala de um radicalismo acirrado e no qual passou a sobressair uma paranoia – não necessariamente injustificada – que acabou por corromper todo fundamento “paz e amor” daquele grupo ou todo “puritanismo cristão” do outro. O guru do atual presidente não tem nada de Osho, talvez pudesse mesmo ser definido como um anti-rajneesh, tamanha é a fúria que destila em seus comunicados online. Ele é implacável: expõe e desmoraliza seus críticos como se os queimasse na fogueira inquisitória da web ou os atirasse aos cyber-leões para serem devorados em um espetáculo voraz de fúria implacável.

Mas esse breve parêntesis serve menos para falarmos de Osho, seus seguidores e todo contexto americano, do que para recuperarmos nossa possibilidade de espanto. Entendo que tanto lá no Oregon dos anos 1980 como no Brasil de 2019 amortizamos a possibilidade de nos espantarmos com nós mesmos, com o que nos tornamos.

Hoje, voltamos a internar compulsoriamente, a empobrecer a loucura e a igualar usuário ao criminoso. É um empreendimento deliberado de revitalização da escória como sendo a nova horda residual e necessária ao sistema. Como se os direitos humanos fossem uma ilusão de um escritor qualquer. Fosse peça literária de cunho ideológico para formatar a cabeça das nossas criancinhas. Já ouço a Damares pregar: “não leia Machado, pois, com esse nome fálico, já não precisa de mais motivo!”. Esse é o “wild wild Brazil: um experimento na era da pós-verdade” (aposto que um dia viraremos uma série do Netflix).

Na distopia que vivemos, não há o louco e o não-louco. Essas são categorias prescritas. Há aquele que nunca erra imodestamente. Como se a vaidade e o cinismo fossem alçados a qualidades inabaláveis da alma humana. Todos serão internados na Casa Verde, ou seremos expostos aos tiros do governante, ou ainda, às ofensas do guru, aos desmandos de um desgoverno que volta atrás em sua palavra dia sim e dia sim – ou seja, alguém precisa dizer que o Presidente do Brasil não tem palavra!

A estratégia reside em imbecilizar o próximo e demonizar o opositor. A cena do Ministro da Educação espalhando chocolatinhos sobre a mesa ao lado de um Presidente glutão que abocanha didaticamente meio bombom, não poderia ser mais explícita: o atual governo se refestela enquanto o povo espera até setembro para ficar com as sobras. O problema não reside exclusivamente em um governo propor contingenciamento ou cortes de verbas ou sei lá que pirotecnia no campo da economia, isso é próprio do liberalismo que nos pauta há anos. O perigo está em ter certeza que se pode fazer tudo! Nisso reside a “pós-verdade” do experimento Brazil: não há preocupação nem com o que se diz nem com o que se faz, palavras e atos foram esvaziados de sentido dialético e subjugados ao destempero do ódio vil. Os meios justificam os fins se os fins atendem aos interesses dos que possuem os meios.

Conforme o Christian Dunker esclareceu, “balbúrdia” vem do grego e quer dizer “gago” ou “estrangeiro” que fala em língua que não entendemos (https://www1.folha.uol.com.br/educacao/2019/05/a-balburdia-de-weintraub.shtml). Hoje, quem faz balburdia encarna o estrangeiro da distopia – que fala outra língua mesmo que sempre seja em português. É da possibilidade do espanto que tento falar. É ela que nos humaniza.

A luta antimanicomial atiça nossa humanidade ao propor que nossa loucura não seja jogada fora. É necessário dizer o básico e em bom português:

Trancar não é tratar.

Autorizar porte de armas é necropolítica.

Igualar usuário e traficante é fomentar o tráfico (de drogas ou poder).

Contingenciamento é o novo nome para punir Universidades por serem críticas à política de governo.

O Presidente do país não tem projeto, não tem base, não tem respeito. Não se escuta em sua inconsistência – tropeçar no próprio bordão foi patético –, pois virou um ser humano bidimensional que existe na territorialidade do twitter; forçando, dessa forma, a planificação do brasileiro. Não podemos seguir iludidos de que, um dia, o fundo do poço chegará. Se há algo que já se sabe, é que o poço só terá fundo se construirmos um. Ou seja, é a civilização que compactua a linha que nos faz humanos e esta linha resta intransponível. É em nome dela que vivemos.

Alguns reclamarão, com razão, que existem fatos que atacam esse pacto. Sem dúvida. E é justamente por esse motivo que as instituições devem trabalhar para preservá-lo, pois ele não está garantido em cada gesto humano. O problema fica desproporcional quando as instituições e as pessoas que foram escolhidas para encabeçá-las não zelam por ele. Ter uma ação violenta comemorada publicamente pelo presidente da nação, ou impetrada pelo governador de Estado ou vociferada por ministros de governo, coloca em risco um princípio do laço humano: trocamos o bel-prazer de cada um em nome de uma coletividade. Caminharíamos hoje para uma sociedade de indivíduos onde cada cabeça formula sua própria sentença? Sem regulação pactuada, sem respeito pela diferença, sem renúncia pessoal em prol de outrem?

A política do escárnio ataca o mal-estar na cultura. Subitamente, fomos colocados dentro de uma pegadinha da vida real que apresenta o horror como programa e a falha como ideologia. Uma das coisas que decorre desse processo é a angústia. Metade dos brasileiros vive angustiada. Essa fórmula não é nova, vejam o pequeno Hans de Freud (1909): quando papai – agente da lei – não vem interditar a mamãe – simbolicamente proibida, Joãozinho constrói um sintoma que o protege dessa impossibilidade, sua fobia de cavalos.  Nesse contexto, ser do “team Sheelah” ou “team Oregon” vira um escudo que dá sentido para a vida, mesmo que seja no radicalismo encarnado no “ou ele ou eu”. Desenvolvemos fobia do outro, pois tememos que ele caia ou que nos morda. De toda forma, é sobre o aniquilamento simbólico que falamos aqui.

Certa vez, na escola do meu filho, aconteceu uma troca de mensagens desagradáveis e desrespeitosas no Whatsapp da moçada. A estratégia da professora foi providencial: em roda, cada um foi lendo na presença dos colegas – e para os colegas – o que havia postado. As vozes foram se alternando, assim como as explicações e pedidos de desculpas. Somos selvagens, mas não só. O que há de obscuro em nós não pode justificar o mal. Nesse contexto, a saúde mental cobra sua importância. Nunca na história da democracia deste país precisamos tanto de espaços de escuta coletivos que possam ser território de vivências humanizantes – foram muitos os trabalhos ofertados aos cidadãos na conjuntura de intolerância que reinou durante o período eleitoral (trabalhos que enfatizaram, inclusive, que psicólogos e psicanalistas estão implicados na política).

O movimento por uma sociedade sem manicômios ousou sonhar que a vida poderia ter mais festa. Que “gente é para brilhar e não pra morrer de fome” (essa afirmação sublime é de Caetano Veloso). Que ter direito à cidade era o primeiro passo na criação de pertencimento. Que a diferença continua sendo constitutiva do humano e por isso não precisa ser encarnada apenas como ameaçadora.

Seria o caso de dizer ao Simão Bacamarte o que uma vez ouvi de uma pessoa que carregava o mundo em seu nome e em seus atos: queremos “Bela Vista e não Cerqueira César”. Afinal, a lei existe para que nossos corpos possam coabitar na Terra enquanto ela girar.

Seguimos na luta!

(to be continued…)

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