Catástrofe ambiental no Atlântico Sul

    Os fatos

    No final de agosto, surgiram os relatos de manchas óleo, quando um material negro incomum – mais consistente que o óleo usualmente oriundo de vazamentos de poços de petróleo –, começou a aparecer em uma quantidade crescente de praias no nordeste do país. Durante todo o mês de setembro, os relatos aumentaram, cobrindo uma extensão de mais de 2 mil quilômetros de costa, englobando todos os estados do nordeste.

    A extensão gigantesca da catástrofe (2 000 Km) configurava um dos maiores desastres ecológicos já ocorridos no planeta, embora os meios de comunicação insistissem em atenuar a tragédia afirmando reiteradamente tratar-se de resíduo resultante da lavagem de um navio.

    No dia 5 de outubro, quando o desastre monstro já se estendia por mais de um mês, o governo brasileiro pareceu finalmente acordar, com a decretação pelo presidente de uma investigação sobre as causas e a responsabilidade sobre o óleo, determinando prazo de 48 horas para tomada de providências. A manifestação em nada resultou, havendo, ao final do prazo, declaração do presidente afirmando continuar sem saber a origem do desastre.

    Um elefante embaixo do tapete

    Em 2010 a plataforma Deepwater Horizon foi a pique após uma explosão, causando o que é considerado um dos maiores desastres ambientais de todos os tempos, espalhando densas quantidades de óleo nas costas dos EUA, no golfo do México. A localização do desastre, no interior de um golfo, onde as movimentações oceânicas perdem intensidade, favoreceu a concentração dos danos em uma localidade restrita, para onde parte considerável do óleo convergiu e se acumulou.

    Uma das providências tomadas pelos causadores do desastre consistiu na adição do dispersante Corexit ao petróleo que vazava abundantemente do poço. Esse produto, embora muitíssimo mais tóxico que o petróleo que ele se propõe a limpar, produz o adensamento do petróleo, transformando-o em uma espécie de piche similar à estranha substância que tem sido encontrada nas costas brasileiras. O adensamento faz com que a maior parte do petróleo afunde, lançando-o, assim, para baixo do tapete, transferindo a maior parte dos danos ambientais para o fundo do oceano, onde não pode ser visto.

    A plataforma Deepwater Horizon situava-se a 66 km da costa, enquanto os poços do pré sal brasileiro chegam a 300 Km de distância da costa, situando-se em mar aberto, onde as correntes marinhas contornam vigorosamente o continente sem a restrição de um golfo onde sejam atenuadas.

    Um acidente análogo ao da Deepwater Horizon que ocorresse em tais condições tenderia a dispersar o petróleo ao longo de uma gigantesca faixa de oceano, tornando-se visível através de uma longa extensão costeira, com a chegada ali do dejeto tóxico oriundo da tentativa de encobrimento da catástrofe.

    Considerações sobre o absurdo: como encobrir um desastre de mais de 2 mil quilômetros de extensão?

    Expresso em quilômetros quadrados, o desastre sem precedentes em todo o mundo se estende, com toda probabilidade, aos milhões. Repito, tudo indica que milhões de quilômetros quadrados tenham sido atingidos pelo desastre monstro que varreu o Atlântico Sul, ainda que ninguém queira ver, nem admitir tal fato.

    As evidências gritantes do acidente, manifestadas através de mais de 2 mil quilômetros da costa do nordeste, região densamente povoada, causam enorme perplexidade, fazendo ribombar a pergunta: como foi possível encobrir um dos maiores acidentes ecológicos ocorrido no planeta por mais de um mês?, e como a farsa ainda perdura após denúncias?

    A resposta, tão absurda quanto a pergunta, é que a cumplicidade do google, dos meios de comunicação “do país” e do governo brasileiro têm garantido o sigilo sobre a identidade do criminoso, e a completa ausência de informações sobre o crime ambiental sem precedentes. Caso qualquer dos cúmplices do crime, dentre os listados acima, tivesse denunciado a farsa e se negado a compactuar com o crime ecológico de proporções monstruosas, o elefante sob o tapete já teria sido exposto.

    O que fazer agora?

    Supondo que o vazamento já tenha sido contido, a primeira providência, muito simples, a ser tomada, é exigir que o responsável pelo desastre se apresente publicamente, esclareça o ocorrido e inicie providências para a limpeza da lambança perpetrada por ele. A exigência será cumprida de imediato, dada a impossibilidade de esconder um elefante sob o tapete. Sabedor de que será flagrado e exposto, o criminoso terá forte estímulo para se apresentar e se empenhar para minimizar os danos causados, manifestando, afinal, não estar agindo em completa má-fé ao assumir a responsabilidade que até agora tem ocultado.

    Outra providência, já iniciada em vários locais, consiste na limpeza da lambança, cuja conta, naturalmente, deverá ser paga pelo lambão.

    Há que ser feita uma avaliação de todo o fundo oceânico em torno do desastre.

    Também é importante o pagamento do defeso aos pescadores cujas redes emporcalhadas pelo óleo contaminam o pescado.

    É imperioso esclarecer tanto o ocorrido quanto a magnitude da catástrofe cujas providências tomadas por mais de um mês, têm quase se resumido ao encobrimento dos fatos.

    Necessário também aplicar multa condizente com a catástrofe – imagino algo como uns 100 bilhões de dólares –, embora tenha que confessar tratar-se de estimativa leviana dos danos causados ao Atlântico Sul, essa Amazônia marinha. Ainda que leviana, a estimativa deixa clara a necessidade de aplicação de multa que iniba a ocorrência de acidentes futuros no país, que vem se consagrando como a casa da Mãe Joana ambiental, ao permitir que sucessivas catástrofes ecológicas, como Mariana, Brumadinho e Queimadas emporcalhem o país sem que sanções condizentes com os crimes sejam impostas aos responsáveis.


    De volta ao absurdo

    De certo modo, podemos compreender a atitude do criminoso ao esconder o próprio crime, quero dizer, até uma criança é tentada a escamotear seus próprios erros, de modo que todos entendemos o que move o responsável pelo vazamento a tentar ocultar o elefante sob o tapete.

    Mas, consideremos “nossos” meios de comunicação. Por que motivo eles participam da tramoia? Não foram capazes de notar o elefante sob o tapete?

    Se atentarmos para as notícias apresentadas durante todo o mês, perceberemos não ter sido esse o caso. Analisadas com atenção, as notícias não revelam mera omissão, mas uma tentativa sistemática de desviar o foco de sobre atores do setor petrolífero cuja evocação não pode ser associada a acidentes, casos de corrupção, ou mazelas em geral, mantendo absolutamente impolutas as reputações desses impronunciáveis em nosso país. Trata-se, aliás, de tática notória utilizada cotidiana e naturalmente por “nossos” meios de comunicação sobre diversos temas onde grassam as mais variadas formas de criminalidade institucionalizada no país.

    Um manifesto

    Conclamo o responsável pelo vazamento causador das manchas de óleo que assolam as praias do nordeste a assumir sua responsabilidade, manifestando-se para esclarecer o ocorrido e iniciar a tomada de providências para a minimização das consequências do desastre.

    Adendo

    Primeiro relato do avistamento de manchas, em Maraú, sul da Bahia, em 31 de agosto. Como parte da tentativa de escamoteamento do episódio pelos meios de comunicação, o estado da Bahia foi o último a apresentar notificações sobre o aparecimento de manchas.

    https://g1.globo.com/ba/bahia/noticia/2018/09/03/moradores-encontram-manchas-de-oleo-em-praias-do-sul-da-bahia.ghtml

    Leia também:

    https://jornalggn.com.br/blog/gustavo-gollo/um-elefante-embaixo-do-tapete/

    https://jornalggn.com.br/meio-ambiente/desastre-ambiental-no-atlantico-sul/

    # desastre ambiental, # desastre ecológico, # vazamento de petróleo, # manchas de óleo