10 de junho de 2026

BRICS discute novo multilateralismo, por Tainah Pereira e Rafael Voigtel

A presidência brasileira tem adotado uma abordagem de continuidade, mas atenta a temas sociais, climáticos e à justiça tributária.
Foto Oficial

BRICS discute novo multilateralismo: IA inclusiva, reforma financeira global e alternativas ao dólar 

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por Tainah Pereira e Rafael Voigtel

A sessão plenária dedicada ao “Fortalecimento do Multilateralismo, Assuntos Econômico-Financeiros e Inteligência Artificial” foi um dos pontos centrais da Cúpula do BRICS realizada no Rio de Janeiro, refletindo as prioridades da presidência brasileira à frente do agrupamento em 2025. A ênfase recaiu sobre a defesa de uma ordem internacional mais equitativa, a promoção de uma arquitetura financeira alternativa ao modelo ocidental vigente e o engajamento ativo dos países em desenvolvimento no debate sobre a governança da inteligência artificial.

No eixo econômico-financeiro, a presidência brasileira tem adotado uma abordagem de continuidade, mas com atenção renovada a temas sociais, climáticos e à justiça tributária. Um dos destaques é o apoio à recém-criada Rede de Think Tanks sobre Finanças, voltada à formulação de estratégias para maior integração financeira entre os membros do BRICS. Também foram abordadas propostas de fortalecimento da cooperação em infraestrutura, tributação e aduanas, com destaque para a Iniciativa BRICS de Pagamentos Transfronteiriços, que busca desenvolver sistemas de pagamento locais mais acessíveis, transparentes e inclusivos.

Outro ponto de destaque na sessão foi o papel do Novo Banco de Desenvolvimento (NDB), cada vez mais central na estratégia do BRICS para reconfigurar a governança financeira internacional. A instituição foi apontada como fundamental para alavancar o financiamento climático, por meio do apoio a projetos de infraestrutura verde e de transição energética, bem como da promoção de instrumentos inovadores de crédito. Em linha com os esforços de desdolarização, o NDB também vem ampliando o uso de moedas locais em suas operações, o que contribui para fortalecer a soberania monetária dos países membros e reduzir a vulnerabilidade cambial. Nesse contexto, duas iniciativas estratégicas passam a ser abrigadas no banco: a Plataforma Multilateral de Garantias, que visa mobilizar o setor privado para investimentos em infraestrutura sustentável, e a Nova Plataforma de Investimentos do BRICS, desenhada para facilitar o financiamento coordenado entre os países do bloco. Com essas ferramentas, o NDB se consolida como uma alternativa concreta aos modelos tradicionais de crédito internacional, alinhada às prioridades do Sul Global.

Essa agenda de cooperação financeira está fortemente conectada aos esforços de reforma das instituições de Bretton Woods e à construção de alternativas ao atual sistema monetário internacional, baseado no dólar. O uso político do dólar, do euro e dos sistemas de financiamento ocidentais — frequentemente instrumentalizados como armas econômicas — tem alimentado o debate sobre a necessidade de uma saída as fontes de ajuda financeira tradicionais, tais como FMI e World Bank, que por vezes incluem em seu pacote de financiamento rígidas condicionalidades aos países em desenvolvimento, normalmente atreladas a austeridade fiscal. Nesse contexto, o Acordo de Reserva Contingente (CRA) foi mencionado com destaque, em especial pelo avanço na revisão do tratado e seus regulamentos, fruto do consenso entre os membros da equipe técnica.

O BRICS também reafirmou sua disposição de avançar em propostas de financiamento climático, com foco na implementação de fundos verticais e na reforma dos Bancos Multilaterais de Desenvolvimento, considerados instrumentos cruciais para construir uma nova arquitetura de financiamento ambiental mais justa e eficaz. Ainda nesse campo, a Parceria BRICS para a Nova Revolução Industrial (PartNIR) foi lembrada como estratégia para diversificar e modernizar a base industrial dos países do bloco, com vistas à transição para uma economia digital e sustentável, alinhada à Estratégia para a Parceria Econômica dos BRICS até 2030.

No que diz respeito à inteligência artificial, os países do BRICS defenderam o fortalecimento da governança internacional da IA no âmbito das Nações Unidas, promovendo uma estrutura inclusiva e representativa que assegure a participação ativa do Sul Global nos processos decisórios. Também foi destacada a importância de uma governança de dados justa e equitativa, como condição para que os países em desenvolvimento usufruam plenamente dos benefícios da economia digital.

O bloco defendeu ainda que o desenvolvimento e o uso da IA devem respeitar critérios de sustentabilidade ambiental, considerando emissões de gases de efeito estufa, consumo energético, uso de materiais e geração de lixo eletrônico. Por fim, ressaltou-se a necessidade de alinhar a implantação da IA à promoção de trabalho decente, ao pleno emprego e à capacitação de recursos humanos, a fim de garantir que os avanços tecnológicos estejam a serviço do desenvolvimento social e da justiça econômica.

Mais do que um conjunto técnico de propostas, o que se viu nesta sessão foi a expressão de um projeto político em disputa: o BRICS busca afirmar-se como polo alternativo ao Ocidente não apenas em termos econômicos, mas também normativos e tecnológicos. Ao articular reformas na governança financeira internacional, alternativas monetárias à hegemonia do dólar e uma agenda de inteligência artificial centrada na inclusão, sustentabilidade e soberania digital, o grupo lança as bases para uma nova gramática do multilateralismo — uma gramática onde o Sul Global não é apenas objeto das regras, mas autor delas. No atual contexto de fragmentação geopolítica e reconfiguração das cadeias de poder, essas iniciativas sinalizam que os BRICS pretendem ocupar o vazio deixado pela erosão da ordem liberal liderada pelos EUA, propondo caminhos que reflitam a pluralidade de vozes e interesses do século XXI.

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