O desconhecido sistema financeiro chinês.
por Marcello Azevedo[1]
Quando se fala na China, a pauta é sempre agronegócio, ou mais recentemente os carros elétricos. Sempre com as famosas falácias sobre trabalho gratuito e afins. Tecnologia de ponta, disputa sobre microchips é a coisa mais elaborada que o debate chega aqui no Brasil. Como se financia o desenvolvimento da China, nunca aparece.
O sistema financeiro chinês é um grande desconhecido dos nossos pesquisadores e imprensa. Os motivos são variados, desde a falta de acesso por conta do bloqueio de informações por parte estadunidense, seja por conta da política de segurança de dados da China.
Em 2023 , se comemoram 45 anos do processo de abertura e reformas da China, não da conversão da China ao capitalismo, e passados todos esses anos o sistema financeiro chinês cresceu sem ser notado, principalmente aqui na América Latina.
Do modelo do monobanco, onde o Banco Popular da China exercia todas as funções bancárias e financeiras do país até meados dos anos 1980, para um modelo com 4 grandes bancos de desenvolvimento, os chamados 4 grandes (Banco Agrícola da China, Banco da China, Banco da Construção da China e o próprio Banco Popular da China).
No final do século XX a China tinha 8 grandes públicos, 90 pequenos e médios bancos comerciais, 239 fundos de investimento, 60 seguradoras, 39.516 cooperativas rurais , 129 cooperativas urbanas e 176 instituições financeiras estrangeiras. (Xiaoling, 2000)[2] .
Em 2005, o sistema financeiro chinês tinha 8 grandes bancos estatais, 4 grandes bancos comerciais estatais, 120 bancos comerciais, 211 instituições estrangeiras, 32.826 cooperativas de crédito rurais , 389 cooperativas de crédito urbanas, 11 seguradoras e 43 corretoras de valores. (Tang, 2005)[3] . Neste mesmo período foram fundidas as comissões reguladoras bancária e securitária.
Em 2010 , o sistema financeiro chinês tinha 3 bancos públicos chamados de políticos que eram o Banco do Desenvolvimento da China, Banco da Importação e Exportação da China e o Banco de Desenvolvimento Agrário. 4 grandes bancos comerciais públicos direcionados , 148 bancos de vila, 143 bancos comerciais urbanos, 249 bancos rurais e cooperativos , 3056 cooperativas rurais e 11 cooperativas urbanas. Molyneux (2011)[4].
Em 2015, O sistema financeiro da China tinha 1 banco de crédito imobiliário, 1 banco postal, 3 grandes bancos políticos, 4 recuperadoras de ativos, 6 grandes bancos comerciais estatais, 5 grandes corretoras de valores, 6 financeiras de consumo geral, 12 grandes bancos joint ventures, 18 financeiras de automóveis, 30 empresas de leasing, 41 bancos estrangeiros, 49 cooperativas de credito mutuas, 68 empresas de garantia e fiança, 89 bancos cooperativos rurais, 133 bancos comerciais urbanos, 196 financeiras ligadas a empresas , 665 bancos comerciais rurais, 1153 bancos de vila e 1596 cooperativas de crédito rural. Totalizando 4090 instituições. (Yao, Jing, Xuejun, Zhanfeng, Yang e Quing, 2015)[5].
Atualmente o sistema financeiro tem 4604 instituições financeiras[6] de todos os tipos, com destaque para os seus grandes bancos públicos comerciais que figuram entre os maiores do mundo por ativos, sendo o Banco do Comércio e da Industria da China o maior do mundo por ativos totais[7], tendo 3 outros grandes bancos comerciais públicos chineses entre os 10 maiores do mundo.
Hoje os bancos chineses estão investindo na África, Asia, Oriente Médio e América Latina. Participam do Novo Banco de Desenvolvimento dos BRICS e financiam projetos em mais de 100 países.
Tais informações não circulam no Brasil, não só porque são restritas, são ocultadas para que as pessoas não discutam qual o real papel que os bancos devem cumprir no desenvolvimento . Segundo os chineses, os bancos devem servir a economia real, a sociedade, ao desenvolvimento e as pessoas. Tudo que os banqueiros e os financistas brasileiros não querem . Para a elite financeira nacional, os bancos devem servir somente a si mesmos.
O governo da China direciona, controla, regula e fiscaliza o sistema financeiro, os que cometem crimes financeiros estão sujeitos a prisão e bloqueio dos seus bens . Na China, sistema financeiro é assunto de Estado e da sociedade, não restrito aos interesses muito próprios do “mercado”.
[1] Geógrafo e Doutorando em Relações Internacionais na Universidade Estadual do Rio de Janeiro.
[2] XIAOLING, Wu (Edit), Almanac of China Finance and Banking, Pequim, 2000, People China Publishing House, 354 p.
[3] TANG, Xu (Edit), Almanac of China Finance and Banking, Pequim, 2005, People China Publishing House, 328 p.
[4] MOLYNEUX, Philip (Edit), Banking in China, Londres, 2011 Palgrave Macmillan Editora, 2ª Edição, 334 p. p.6.
[5] YAO, Zhang, JING, Han, XUEJUN, Du, ZHANFENG, Yang, YANG, Song, QUING, Sun, Almanac of China’s Finance and. Banking (2015), Pequim 2015, China Society for Finance, 268 p.
[6] STATSITA (2023), Number of banking institutions in China from 2009 to 2021, disponível em: https://www.statista.com/statistics/259910/number-of-banks-in-china/, acessado em 31 de Maio de 2023
[7] STATISTA (2023), Largest Banks in the World by Total Assets, disponível em: www.statista.com/statistics/269845/largest-banks-in-the-world-by-total-assets/, acessado em 19 de setembro de 2022.
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AMBAR
10 de julho de 2023 7:05 pm“Esses comunistas dão medo”. Mas o Brasil ainda aprenderá com eles.