A construção da dualidade de poder no Brasil, por Jota A. Botelho

Em razão desta completa ausência de dualidade de poder em nossa história, sempre tivemos um revezamento 4x4: governos cívicos-militares ou militares-cívicos, controlados de fora.

Pintura de Goya – ‘Duelo a Garrotazos’: dois homens se digladiam até a morte com os pés enterrados na sua terra natal.

A construção da dualidade de poder no Brasil

por Jota A. Botelho

A realidade é que a história brasileira nunca viveu verdadeiramente a construção de uma dualidade de poder que pudesse promover as mudanças profundas que sempre almejamos.

Quando esta perspectiva chegou a se abrir houve a eterna conciliação de classes para que se interrompesse esse processo histórico antes que saísse do controle.

A esquerda brasileira nunca foi forte o suficiente para que tal processo ocorresse, e cujo desfecho resultasse favorável às transformações necessárias e duradouras para construirmos uma nação de fato.

E é no conflito vitorioso desta dualidade de poder que se constroem as nações. Foi assim entre a burguesia e a nobreza na Europa como na Holanda, Inglaterra, França, Alemanha, e até em Portugal no século XIV. Nos EUA, Japão, China, e principalmente na Rússia em 1917.

Em razão desta completa ausência de dualidade de poder em nossa história, sempre tivemos um revezamento 4×4: governos cívicos-militares ou militares-cívicos, controlados de fora.

Agora nos parece ser a vez dos militares no poder. Ponto. E não haverá conciliação possível mais, pelo menos por enquanto, pois o projeto é claro: será o fim do Estado moldando o Mercado, mas o Mercado moldando o Estado. Daí a desconstrução do país. É fim dos monopólios que ainda restam nas mãos do Estado para o Mercado.

Mais uma vez uma nova atualização do capitalismo brasileiro. Mas a resultante deste novo modelo econômico é um país dividido: um Estado sem povo e um Mercado sem regras controladoras, voltado exclusivamente para enriquecimento dos monopólios – velhos e novos – da burguesia nacional e internacional.

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E o povo vai ter que continuar vivendo em disputa permanente pela sobrevivência, sem ligação alguma com esse “novo” Estado e essa nova configuração do Mercado, exceto como objetos de exploração e miserabilidade.

Os mais de 500 anos de nossa história já nos deram esclarecimentos suficientes para conhecermos o país em que vivemos. As apostas a partir de agora deverão ser no amadurecimento das classes populares e no surgimento de novas lideranças que proponham a interrupção de nossas fracassadas conciliações.

Com isso, o novo tempo histórico que se inaugura no Brasil terá fatalmente o que sempre nos faltou – a dualidade de poder. Mas sem garantia alguma. Houve derrotas em alguns tantos países quanto esta situação ocorreu, como na Espanha, por exemplo.

Mas a história é um enigma, caótica e sempre em mudanças de patamar. O mundo e o Brasil ficaram velhos, desatualizados. E alguns de nós também. Repetir essas antigas experiências neste mundo novo se tornaram inviáveis.

O tempo de mudanças já havia começado muito antes desta última derrota. Nossos líderes sempre esmorecem o povo quando se matam, renunciam, exilam-se ou vão presos. Principalmente quando se deixam golpear sem prever as traições recorrentes e/ou criarem as condições de resistência.

Toda essa repetição, ao longo de nossa história, nos revelam o pior de nossos fracassos, do nosso despreparo e desconhecimento de nossa formação como nação. Da nossa tragédia.

Mas, no entanto, o Brasil continuará rico, viável e com um povo com vontade de viver e de lutar. Então só nos resta aprendermos. E aprenderemos!

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