10 de junho de 2026

A relíquia bolsonarista, por Fábio de Oliveira Ribeiro

A inevitável vitória eleitoral de Lula e a queda do bolsonarismo provavelmente também criarão um novo mercado de relíquias

A relíquia bolsonarista

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por Fábio de Oliveira Ribeiro

É difícil localizar de maneira precisa na linha do tempo em que civilização humana surgiu o hábito de colecionar e de comercializar relíquias. No mundo antigo isso provavelmente surgiu como uma consequência inevitável do contato provocado pelas viagens e guerras de conquista. 

Os macedônios invadiram e conquistaram o Egito e a Pérsia. Eles provavelmente desenvolveram, por objetos antigos egípcios e persas, um fascínio tão intenso quanto aquele que seus novos aliados locais adquiriram pelos objetos produzidos novos produzidos pelos conquistadores. As relíquias no primeiro caso eram fruto da curiosidade, no segundo produto do mimetismo e do desejo de pertencer à civilização vitoriosa.

No caso de Roma ocorreu o inverso, pois os romanos (uma civilização mais recente e, de certa maneira, suscetível a ter complexos de inferioridade) tinham o desejo de pertencer à civilização grega muito mais antiga e sofisticada. 

Após a conquista da Acaia, Roma foi adornada com milhares de estátuas trazidas das cidades gregas submetidas pelas legiões romanas. Nas suntuosas residências dos patrícios não podiam faltar objetos de bronze importados de Atenas e murais inspirados na Guerra do Peloponeso. Os plebeus romanos provavelmente se consideravam satisfeitos e importantes se conseguissem adquirir lâmpadas tebanas ou ânforas produzidas em Corinto. 

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“Esses foram os brincos utilizados por Helena quando chegou à cidade de Tróia”, diz uma orgulhosa matrona romana à sua amiga na festa de aniversário do Imperador Nero. Essa cena é imaginária, mas não improvável. 

Com a circulação de pessoas e objetos no mundo antigo nasceu o mercado para as cópias romanas de estátuas e quinquilharias gregas. E eventualmente uma indústria da falsificação de objetos comercializados a preço elevado. A verdadeira espada Aquiles deve ter sido muito desejada por comandantes romanos. É possível que vários exemplares antigos dela tenham sido produzidos e comercializados por gregos espertalhões que migraram para Roma. 

Esse hábito de produzir, comercializar e conservar relíquias sobreviveu à queda de Roma. Mas no mundo fragmentado cristão ele ganhou um aspecto macabro. Digo isso pensando especificamente em algumas relíquias: os pregos utilizados para crucificar Cristo, espinhos da coroa infame que ele foi obrigado a utilizar, a ponta da lança usada pelo soldado que perfurou o corpo do filho do homem e a imensa quantidade de pedaços dos esqueletos dos mártires e santos do catolicismo conservados nas igrejas católicas. 

Cada civilização lidou com essa questão à sua maneira. E nem mesmo aquela que tentou exterminar os povos que considerava inferiores deixou de produzir relíquias após ser derrotada. É possível comprar quinquilharias nazistas antigas verdadeiras ou falsificadas pela internet. Elas fazem muito sucesso nos EUA, mas causam uma repugnância intensa em Israel.

A inevitável vitória eleitoral de Lula e a queda do bolsonarismo provavelmente também criarão um novo mercado de relíquias. Algumas delas serão engraçadas e inofensivas: a máscara contra COVID que Bolsonaro usou para cobrir os olhos, a camisa dele suja de farofa, a cueca do imbrochável com resíduos de seu esperma, a embalagem do macarrão miojo que ele comeu no dia da posse e, é claro, o quadro de Jesus preferido do capitão terrorista. Outras são perigosas:  a pistola que o ex-presidente exibiu orgulhosamente na cintura, o fuzil que ele testou para tentar intimidar seus adversários. 

Assim como o próprio Bolsonaro tentou difundir um fascínio fúnebre pelo coração de D. Pedro I, devemos imaginar que alguns de seus seguidores irão tentar encontrar e comercializar a verdadeira bolsa de colostomia que ele encheu de fezes após ser operado de câncer. O bisturi descartável que o médico usou durante a operação dele será vendido a um preço muito elevado.

Bolsonaro é uma relíquia da Ditadura Militar. Mas não creio que ele mesmo possa se transformar num objeto de culto do Exército. Afinal, nas próximas décadas aquela corporação terá que se esforçar muito para recuperar a credibilidade que perdeu nos últimos quatro anos. Vários militares foram responsáveis pelo genocídio pandêmico e alguns deles são beneficiários da corrupção bolsonarista. É evidente que os generais e coronéis corruptos tentarão conservar os objetos preciosos que adquiriram de maneira desonesta, mas eu suponho que alguns deles terão que ser confiscados pela Justiça e leiloados para cobrir os prejuízos que eles deram à União.  

Pressionado pelo resultado desfavorável, o futuro ex-presidente só pode fazer quatro coisas: aceitar o resultado e suas consequências, correr o risco de ser morto numa guerra civil, cometer suicídio ou fugir do Brasil. Qualquer que seja a decisão de Bolsonaro, uma coisa é certa: quem quiser ganhar dinheiro nos próximos anos deve começar agora a colecionar e/ou a falsificar quinquilharias antigas relacionadas ao bolsonarismo.  

Fábio de Oliveira Ribeiro, 22/11/1964, advogado desde 1990. Inimigo do fascismo e do fundamentalismo religioso. Defensor das causas perdidas. Estudioso incansável de tudo aquilo que nos transforma em seres realmente humanos.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected].

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Fábio de Oliveira Ribeiro

Fábio de Oliveira Ribeiro, 22/11/1964, advogado desde 1990. Inimigo do fascismo e do fundamentalismo religioso. Defensor das causas perdidas. Estudioso incansável de tudo aquilo que nos transforma em seres realmente humanos.

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