23 de junho de 2026

Basta de linchamento virtual! Por Dora Incontri

O que me preocupa é que não é só a direita que depreda a reputação de alguém. A esquerda tem feito o mesmo.

Basta de linchamento virtual! Por Dora Incontri

Já falei aqui sobre o tema, mas ando tão inconformada com as notícias que tenho lido a respeito, que penso não ser demais trazer outras ponderações neste blog. Falo do linchamento virtual, do cancelamento – ou melhor dizendo – da morte simbólica de uma pessoa na rede. Na verdade, trata-se de uma morte infamante, em que as pessoas têm de apagar suas contas, perdem empregos, não podem mais dar as caras na sociedade. Será que alguém realmente merece isso?

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Os casos podem ser supostamente “justos” ou claramente “injustos”, porque equivocados quanto à ação da pessoa cancelada. Entre esses últimos, li na semana passada o caso de um norte-americano Emmanuel Cafferty, que estava voltando do trabalho e estalou os dedos dentro do carro, fazendo supostamente um sinal (de OK), que agora foi apropriado pelos suprematistas brancos – ele não sabia, nem eu! E ele nem estava fazendo sinal nenhum. Alguém fotografou, colocou nas redes, em menos de duas horas, Cafferty estava com a vida destruída. Acabo de assinar um abaixo-assinado para devolverem o emprego a esse homem, pai e avô, que aliás, é filho de imigrantes mexicanos.

No Brasil, houve recentemente aquele caso no Leblon, em que um casal desacatou o fiscal sanitário e a mulher foi arrogante e grosseira. Passível de críticas, sim. Mas não de terem ambos suas vidas profissionais destruídas e sofrerem humilhações públicas e uma avalanche de apedrejamento virtual. Não é um tanto desproporcional?

Um dos aspectos que nos separam da barbárie é o império da lei, com a garantia de que todo e qualquer cidadão, em caso de acusação e suspeito de ter cometido um ato ilícito, ainda que suspeito de ter cometido o pior crime, tem o direito à defesa, a contar a sua narrativa dos fatos e ser julgado por uma instância imparcial. Mas o linchamento, seja físico, seja virtual, é uma avalanche de ódio despejada sobre uma pessoa silenciada à força. Mesmo se ela for culpada de algo, como racismo, homofobia, discurso de ódio, ou mera arrogância de classe (que é lamentável, mas não é crime), o linchamento é desproporcional ao ato. Por uma frase infeliz, por uma mentalidade elitista, racista ou o que for, tem a vida inteira destruída. Lembrando que alguém, cujo nome me recuso a escrever, que está ocupando o cargo de presidente no Brasil, fala o tempo inteiro tudo o que pode ser considerado crime e está lá tranquilo.

Falo do império da lei, com todas as restrições e críticas que temos em relação ao campo jurídico no Brasil, em que os privilégios de cor, de classe e de gênero comprometem a necessária equidade de tratamento diante da Lei. Imagine-se então se nos afastarmos de um mínimo que seja de legalidade para voltarmos ao circo romano, com a multidão pedindo a morte do pobre coitado na arena!

O que me preocupa é que não é só a direita que depreda a reputação de alguém. A esquerda tem feito o mesmo.

Quando abandonamos a possibilidade de diálogo, quando deixamos nos contaminar por uma fúria cega diante de qualquer palavra, de qualquer manifestação errada, equivocada, criminosa que seja – sem averiguarmos, sem conversarmos, sem nos inteirarmos – assumimos a posição de inquisidores cruéis. E sempre seremos injustos.

Ademais, em todas as causas que consideramos justas – na defesa dos direitos humanos, no combate às discriminações e opressões, de gênero, de classe, de etnias, compete-nos educar, conscientizar, convencer, contagiar as pessoas, para que abram os olhos, o coração, a mente e aprendam formas de convivência civilizatória, inclusiva e igualitária. Mas se usarmos métodos odiosos, vexatórios, bárbaros para combater o que consideramos barbárie, estaremos apenas aprofundando as feridas e reproduzindo indefinidamente o ciclo de violência e desumanidade e ainda nos tornando iguais ou piores do que aqueles com os quais não temos misericórdia.

Um bom exemplo de uma prática saudável recente nesse sentido foi o que se deu com o grupo humorístico Porta dos Fundos, que fez um quadro com Fabio de Luca, considerado gordofóbico. A produtora de conteúdos Bianca Barroca veio a público, com um vídeo educado e esclarecedor, alertando que o vídeo produzido pelo Porta estava praticando gordofobia. Porchat a chamou para uma live, eles conversaram sobre o tema. O Porta dos Fundos retirou o quadro e o gravou numa nova versão, com o ator Rafael Portugal.

Todos dialogaram, todos aprenderam e o público teve a oportunidade de entender como se dá a gordofobia na sociedade.

Estamos aqui para isso mesmo! Todos temos preconceitos, conceitos distorcidos, analfabetismos políticos… precisamos estar dispostos a ensinar e a aprender, a falar de forma não violenta e a ouvir de forma acolhedora. Chega de sermos aqueles que queimam bruxas na fogueira. Amanhã, podemos também nós, sermos acusados de bruxaria. Lembremos das palavras de Jesus: aquele que estiver sem pecado, atire a primeira pedra!

 

Conexões – espiritualidade, política e educação - Dora Incontri

Dora Incontri é paulistana, nascida em 1962. Jornalista, educadora e escritora

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2 Comentários
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  1. JP

    27 de julho de 2020 8:49 pm

    Diante desta pandemia, em vez de ficarmos na pretensao de zoar todo mundo, por que nao se ocupar de nos preparar para o desencarne?
    Quem pensa ser eterno, esta totalmente enganado. Quantos nomes de pessoas bem de vida, morreram nos ultimos meses por causa de um virus, alem dos mal de vida? Essa pandemia e bem democratica. Voce sai a ir ao mercado, a farmacia, levar o cao la fora e nao sabe se vai pegar o tal virus.
    Entao, e uma oportunidade unic pra preparar seus negoios, testamentos, fazer um perdao virtual (use o webex do cisco o mais seguro) ou numa email geral ( se os entes queridos e nao queridos estam longe), ou visitar mesmo.
    Tempo pra se recolher, refletir, aumentar o objetivo de reforma intima.
    Foi isso que o Budha pregou, Jesus pregou e muitos dos Orixas nos aconselham a nos conectar com o Eu interno.
    Huberto Rohden tem 3 liros que me auxiliaram muito pra descobrir a necessidade premente de trabalhar na reforma intima:
    Sabedoria das Parabola, O Sermao da Montanhs e O Quinto Evangelho.
    Para os Umbandistas: Rubens Saraceni escreveu alguns dos mais contundentes livros:
    O Cavaleiro da Estrela Guia, O Dominio dos Sentidos da Vida, Capa Negra, Dialogo de um Executor, Guardiao dos Caminhos a Historia do Senhor Tranca Rua das Almas, O Guardiao dos sete portais de Luz.
    Carlos Castanheda (todos).
    Assim iremos estar preparados para a passagem e nao gastaremos tempo destruindo as vidas de qualquer pessoa. se nao podemos contribuir para o amor, por que para a dor?
    Somos todos devedores da lei maior. Se assim nao fosse nao estariamos no planeta e muito menos no Braisl aonde temos um governo tao dificil.

  2. AMORAIZA

    27 de julho de 2020 9:15 pm

    Se a recomendação espírita deixada por Chico Xavier fosse respeitada à risca, não teríamos linchamentos virtuais.
    Dizia ele: “Devemos ser o terminal da fofoca” Isto é, chegada a nós a fofoca termina, não deve ser repassada.
    Não temos que estar repassando nada. Cada um recebeu uma vida própria para cuidar dela. A vida dos outros é a vida dos outros.
    Assim como somos enganados todos os dias com o conforto da comida gostosa que matam, inflam a nossa vaidade os elogios baratos, a apreciação de opiniões, a roupa da moda, o salto mais mortal, a fama e a influência, quando até ontem nada disso existia e nem nos fazia falta. Estamos viciados numa coisa tão perigosa quanto as drogas alucinógenas, e ninguém se dá conta disso. Pagamos para falar mal da vida alheia, pagamos para nos expor e pagamos para receber influências danosas. Quando todos estiverem sob domínio de uma só fonte de controle da informação será tarde demais para acordar. Daí para o estado totalitário é um passo, e isso pode ser global.

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