Carta ao presidente Lula, por Lygia Jobim

Nós não vamos esquecer o que lhe fizeram, portanto, não esqueça o que nos fizeram. Não nos menospreze, pois o ajudamos a eleger.

Foto: Memórias da Ditadura

Carta ao presidente Lula, por Lygia Jobim

Prezado Presidente Lula,

Para usar um adjetivo suave, devo dizer que a entrevista que concedeu ao Sr. Kennedy Alencar na data de ontem, 27.02.2024, me causou profunda estranheza.

Nela, ao lhe ser perguntado sobre como trataria o aniversário de 60 anos do golpe militar de 1964, afirma que o irá tratar da maneira mais tranquila possível, até porque está mais preocupado com o ocorrido em 08.01. Prossegue dizendo que já faz parte da história, já causou o sofrimento que causou.

Em ato falho diz: “os generais que estão hoje no poder” não tinham nascido. Me desculpe, Presidente, mas quem está no poder é o senhor e estou esperando que o senhor os tire do poder.

Mais adiante reconhece que não temos todas as informações sobre o que aconteceu durante os longos 21 anos em que os militares nos jantaram, porque tem gente desaparecida ainda. Se sabe que tem gente desaparecida reinstale a Comissão Sobre Mortos e Desaparecidos Políticos, instituída por lei e cancelada por uma canetada daquele que o antecedeu na Presidência e, com cujo nome, prefiro não sujar nem minha boca nem os olhos de quem vai me ler. Aliás, Presidente, todas as noites agradeço a Deus que o senhor o tenha tirado da Presidência.

Sou uma pessoa que obedece a quem respeita, mas me recuso a seguir seu conselho de que devemos construir o futuro e não ficar apenas remoendo o passado. O futuro é sempre resultado do passado. Ou ele é fruto do esquecimento do que aconteceu ou ele é fruto daquilo que com ele aprendemos. O que aconteceu em 08.01 é consequência direta da impunidade do que nos fizeram há 60 anos.

O Brasil tem que aprender que não pode haver desaparecidos, que a uma filha, como é o meu caso, não lhe pode ser negado ver o corpo de seu pai por ter sido barbaramente torturado e que a um irmão, como no seu caso, não pode ser negado o direito de velar seu irmão nem de se demorar no enterro do neto.

Nós não vamos esquecer o que lhe fizeram, portanto, não esqueça o que nos fizeram. Não nos menospreze, pois o ajudamos a eleger. Não nos menospreze, pois somos a resistência.

Resumindo, Presidente, mostre sua grandeza e nos peça desculpas criando a Comissão que tanto queremos. Será uma retratação à altura de suas palavras tão descuidadas e infelizes. Não fale para os generais, Presidente, fale para nós.

Respeitosamente,

Lygia Jobim

Filha de José Jobim. Integrante do Coletivo Filhos e Netos por Memória e Verdade e do Coletivo Memória, Verdade, Justiça e Reparação.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

Redação

5 Comentários

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

  1. Texto perfeito e posicionamento mais ainda.
    Como escreveu, não se trata de remoer o passado, mas sim lembrar que com ele construímos o presente e levaremos o futuro.
    O que aconteceu em 64 e nos anos que se sucederam não pode, não deve e não será esquecido.
    Nosso Presidente recentemente equiparou o que ocorre em Israel, com o Holocausto, de forma justíssima, então nada mais justo, lembrar e dar voz aos que foram calados na Ditadura brasileira.
    Justiça é memória por José Jobim e todas as demais vítimas desse período sombrio e devastador que mancha nossa história.

  2. Sem perdão para os MILICANALHAS; sejam os de 1964, sejam os de 8.1… TODOS os golpistas fardados devem ser punidos com penas pecuniárias (sem soldo), expulsão das ffaa e perda da liberdade. Para os civis pena minima de 15 anos em prisão de segurança máxima.

  3. Parabenizo a Lygia Jobim que escreveu e descreveu toda a minha tristeza e espanto com a entrevista do Lula sobre os 60 anos do golpe de 64. Estou enfronhada na organização de 4 lançamentos no estado do Rio de Janeiro do nosso livro coletivo de sessenta autores sobre a nossa participação nas lutas contra essa maldita ditadura civil, militar, juridica, midiática e empresarial que tanto mal fez ao nosso pais, em especial aos trabalhadores. Estava feliz por ver que meus companheiros e companheiras mantêm a coerência e continuam lutando pela ampliação e fortalecimento da democracia. Jamais poderia esperar, eu, uma das fundadoras do PT, ativista sindical e que acompanhei e lutei por todo o tempo – e haja tempo, pois estou com 80 anos de idade – ouvir o que ouvi nessa entrevista. Presidente Lula instaure a volta da Comissão da Verdade e coloque recursos nessa rúbrica para que ela desenterre tudo que falta desses anos de chumbo e trabalhe arduamente para acabar com o que ficou de entulho autoritário nas legislações e que todos os torturadores, perseguidores, tidos os malvados e doentes patológicos sejam punidos e ai sim vamos virar essa pagina e começar outra história.Que tristeza. Sandra Mayrink Veiga

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor.

Apoie e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Seja um apoiador