Respirar, Andar, Viver: Desafios da Existência Negra na Cidade
por Viviane Almeida
Há alguns anos, me perguntei o que é ser negra neste país. Confesso que a resposta foi dolorosa e não caberia nestas breves palavras. Por isso, escrevo apenas o que posso para este 20 de novembro, diante do atual cenário político, social e urbano, ainda imersa entre perdas, ganhos e demasiadas reflexões
Primeiramente, é necessário voltar algumas semanas, durante as eleições municipais de 2024, quando tivemos um aumento significativo de pessoas negras no legislativo. Uma importante representação de cerca de 50%, com 26.789 pessoas entre pretas e pardas nas casas legislativas. Porém, ao mesmo tempo, presenciamos um crescimento expressivo do chamado Centrão e da extrema-direita, formando uma conjuntura assustadora para os movimentos populares e antirracistas nos próximos quatro anos. Eu me pergunto: quantos dos outros 50% de brancos nessas bancadas se comprometerão com a luta antirracista? Quando essa pauta será considerada de extrema relevância dentro desse espaço?”
Exatamente um ano atrás, tendo em vista esse contexto, o presidente Lula sancionou a lei 14.759/23, que torna o dia de hoje feriado. Com certeza, um pequeno avanço de uma pauta política que, aos poucos, tem sido difundida em sua gestão presidencial. Mas, se vamos falar de consciência negra, precisamos ampliar a escala e olhar de rua em rua, cidade em cidade. É muito comum associar corpos negros a bairros periféricos, afinal, também é inegável que nossa história é marcada pela segregação, favelização e extrema pobreza
Porém, o que realmente precisamos é nos desprender desses rótulos para avançarmos na discussão sobre a raça na cidade. Como bem disse Kabengele Munanga, “é pela geografia dos corpos que somos vistos e percebidos antes de descobrir nossas classes sociais”. É a maneira como somos vistos que dita por onde podemos andar, o que devemos usufruir e até mesmo onde podemos morar, independentemente de nossa condição financeira. E justamente na cidade é onde nos deparamos veementemente com os altos índices de desigualdades, incoerências e desprazeres. É nela que nos tornamos objetos do capital, força de trabalho explorada, esquecida, subjugada e maltratada pela cor de nossa pele. Mesmo após tantas lutas, ainda é assustadora a quantidade de crimes contra corpos negros inocentes noticiados semanalmente em mercados, postos de gasolina, shoppings etc. Muitas vezes, simplesmente por estarem no lugar errado e na hora errada — quer dizer, no lugar e na hora do homem branco.
Andar de madrugada com capuz é privilégio deles.
Respirar, é privilégio deles.
Mas é preciso enegrecer pra resistir, pois é preciso respirar.
“Só tenha cuidado por onde você vai respirar!”, eles nos dizem. Será?
Diariamente, somos ditados a andar por caminhos restritos, a não nos opormos a ninguém ou a levantar nossas vozes estridentes. Este país, que por muito tempo acreditou na democracia racial — “afinal, somos todos miscigenados” —, esqueceu-se de que, ao longo da história, apenas alguns poucos de nós tivemos a oportunidade de ocupar um lugar de destaque.
A educação tem aberto novas portas para jovens como eu, que conseguiram chegar à graduação e pós-graduação, mesmo desacreditados por muitos. As cotas são uma medida fundamental nesse processo, pois garantem a entrada de pessoas negras e periféricas em espaços historicamente embranquecidos e elitizados, como a arquitetura que nos cerca. Entretanto, ainda vivemos em um país regido por racistas, que pactuam em uma conjuntura violenta, temerosos de que adentremos onde eles andam e passemos a morar onde moram
É necessário tomarmos de volta o que é nosso, pois foi nosso sangue e suor que construíram este país e nossas cidades. Cidades essas marcadas por espaços e modos de viver embranquecidos, dominadas pelo capital e pelas formas violentas de reprodução do espaço, que expulsam famílias — a maioria negras — de territórios que elas mesmos construíram ao longo de toda a vida
A vida toda é o que precisamos para podermos ser mais.
Viviane Almeida é mulher negra, aracajuana, arquiteta, urbanista, mestranda FAU-USP e membro da Rede BrCidades.
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