É urgente discutir e pensar um projeto de país
por Daniel Costa
A gente é torto igual Garrincha e Aleijadinho
Ninguém precisa consertar
Se não der certo a gente se virar sozinho
Decerto então nada vai dar (…)
Qual a cara da cara da nação?
A Cara do Brasil – Celso Viafora / Vicente Barreto
No último domingo, o presidente Lula convocou a cadeia obrigatória de rádio e televisão para realizar um balanço dos primeiros 18 meses de governo. Assertivamente, apresentou as realizações do seu governo, especialmente os avanços em relação à economia. O crescimento do PIB acima do previsto pelo mercado e pelos “analistas” econômicos da imprensa hegemônica, a recuperação do emprego e a retomada da política de valorização do salário mínimo, são fatores que contribuem decisivamente para o aquecimento da economia. Contribuindo ainda para a diminuição da desigualdade e para a sustentação da popularidade do governo, mesmo com as tentativas de desestabilização por parte da oposição.
Como ponto de destaque do pronunciamento, destaco ainda o reconhecido poder de comunicação do presidente. A capacidade de dialogar com diferentes atores, expor suas ideias e realizações do seu governo com clareza é o que faz de Lula um dos protagonistas da política mundial. Apesar da imprensa hegemônica seguir fingindo não ver tais atributos, é notório que em um cenário marcado por líderes medianos e irrelevantes — ante a limitação para leitura de conjuntura — o presidente continua sendo uma das poucas figuras que podem ser considerados estadistas em sua acepção clássica.
Quanto aos pontos negativos da fala do presidente, destaco em primeiro lugar a insistência em continuar comparando seu governo com o do nefasto antecessor. Passados quase dois anos das eleições, o processo de desestabilização e a tentativa de golpe promovida em oito de janeiro, a população tem clareza do que representou o flerte com o fascismo promovido por Bolsonaro e o desmanche neoliberal perpetrado pelo governo Temer. Desse modo, ficar relembrando a herança maldita deixada pelos antecessores serve muito mais à oposição fascista que aqueles que seguem apoiando o processo de reconstrução do país e da democracia promovido pela frente ampla, que em certos momentos de forma atabalhoada segue avançando.
O segundo problema ocorre quando Lula insiste em comparar o atual mandato com seus mandatos anteriores. Uma figura com o estofo político do presidente sabe que a sociedade brasileira e a conjuntura não são a mesma da primeira década do século XXI. E aqui o governo adota uma tática de grande risco, ao preferir governar com os olhos voltados para o passado, recuperando políticas públicas desmontadas após o golpe de 2016 e aprofundadas por Bolsonaro; mas sem apresentar um projeto concreto de futuro, o governo arrisca perecer e perder o apoio popular diante da primeira crise econômica ou política substancial que surgir no horizonte.
Na década de 1990, a dupla de compositores Celso Viáfora e Vicente Barreto perguntavam qual era a cara da cara da nação. Durante os primeiros mandatos do presidente Lula até chegamos a ter um projeto que delineava essa cara. Não foi somente pelo boom das commodities que aqueceu a economia, como alguns críticos à esquerda e à direita gostam de proclamar. O período marcado pelos primeiros governos Lula apresentaram ao Brasil a possibilidade de um projeto concreto de futuro.
Talvez esse período tenha sido o momento ideal para a aplicação de um projeto que seria uma síntese do programa democrático e popular forjado pelo Partido dos Trabalhadores e o velho projeto nacional popular pensado no auge do desenvolvimentismo levado ao máximo. Infelizmente o que fora planejado, ou sonhado não ocorreu; os protestos iniciados em 2013 e tomados pela direita, somado a caça às bruxas promovida pelo consórcio formado pela imprensa hegemônica, setores conservadores do parlamento e a operação lava-jato, além de solapar esse projeto revelou o que parte da sociedade carregava de mais abjeto.
Passado o processo político e jurídico ilegítimo que culminou no afastamento da presidenta Dilma, o desgoverno Temer e o flerte com fascismo vivido nos anos Bolsonaro, o presidente Lula é eleito para um novo governo. Sustentado por uma frente heterogênea, o presidente assume seu terceiro mandato com a premissa de barrar o fascismo e o autoritarismo, e de alguma forma começar a reconstruir o pacto social forjado com a Constituição de 1988.
Porém, em meio a esse processo de reconstrução, o país ainda carece de um projeto concreto de futuro. Um projeto amplo, que abarque um sólido processo de desenvolvimento econômico, cultural e social; projeto que passa pela reindustrialização, cultura e educação. Um projeto que consiga mobilizar o conjunto da sociedade brasileira para barrar naturalmente a penetração de discursos autoritários ou que preguem a solução por fora da política e da democracia — um projeto concreto de futuro poderá dificultar a volta da ascensão do bolsonarismo, o surgimento de novos Moros, ou mesmo um Milei tropical.
Agora fica a questão: para a construção desse projeto, é fundamental que o presidente traga para sua órbita figuras que possam auxiliá-lo nessa construção; e infelizmente quase a totalidade do seu ministério se mostra incapacitada para tal empreitada. É urgente que o presidente modifique a estrutura que gravita em torno do seu mandato, tal transformação não significaria romper a frente ampla. O que necessitamos é a substituição desses quadros medíocres por pessoas que, assim como o presidente, tenham o comprometimento real com o país e possam contribuir com a elaboração de um projeto de longo prazo.
Recusar discutir a possibilidade de construção desse projeto significa transformar a figura do presidente Lula em algo semelhante ao visconde Medardo di Terralba, o voluntarioso personagem criado pelo escritor italiano Italo Calvino. Sem um projeto concreto de futuro para o país, o presidente Lula correrá o risco de em breve se ver dividido em dois: de um lado, a figura ovacionada ao fazer discursos fortes na ONU, no G20 e em fóruns internacionais, o corajoso estadista que, quando necessário, coloca o dedo na ferida. Do outro, um personagem acovardado que segue refém de figuras como Arthur Lira, Rodrigo Pacheco, o centrão e o “poderoso” mercado da Faria Lima.
Resta ao presidente Lula decidir o rumo que dará ao Brasil, ao povo brasileiro e ao seu próprio futuro. A perspectiva da construção de um projeto concreto de país ou uma solução temporária, que ao fim e ao cabo, seguirá nos deixando à mercê de figuras fascistas, autoritárias e oportunistas.
Daniel Costa é historiador, pesquisador, compositor e integrante do G.R.R.C Kolombolo Diá Piratininga.
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