Daniel Costa
Daniel Costa é graduado em História pela Unifesp, instituição onde atualmente desenvolve pesquisa de mestrado. Ainda integra o G.R.R.C Kolombolo Diá Piratininga onde além de compositor, desenvolve pesquisas relacionadas a História do samba de São Paulo e temas ligados a cultura popular participando das atividades e organização do centro de documentação da entidade (CedocK - Centro de Documentação e Memória - José e Deolinda Madre). Possui especializações na área de museologia (IBRAM), arquivologia (Arquivo Nacional), Educação Patrimonial (IPHAN) e História Oral (FGV/CPDOC).
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A desarticulação do governo segue a todo vapor, por Daniel Costa

Caso insista no erro, quando acordar poderá ser tarde, sem os apoiadores históricos, sem o poder de barganhar com os achacadores do poder

Ricardo Stuckert

A desarticulação do governo segue a todo vapor

por Daniel Costa

Segunda-feira, 10 de junho, em coletiva dada a jornalistas, o ministro da Secretaria de Relações Institucionais, Alexandre Padilha, afirmou que o governo federal atuaria para que a pauta de votações do Congresso Nacional. Especialmente vetos presidenciais e os projetos de lei (PLs), não servissem para acentuar a beligerância e violência política observada nos últimos dias.

Além disso, a distensão proposta pelo ministro seria fundamental também para evitar que temas secundários ganhassem maior espaço, paralisando o processo de votação daqueles temas que são considerados prioritários para o governo.

A fala de Padilha aos jornalistas ocorreu após encontro, onde o presidente Lula reuniu os líderes do governo na Câmara, no Senado e no Congresso Nacional, além dos também ministros Rui Costa e Fernando Haddad. Naquele momento, Padilha afirmou aos repórteres que: “O governo vai entrar em campo para que a pauta da Câmara não sejam projetos que atiçam a beligerância, atiçam a violência política, projetos que se concentrem em desafios econômicos e sociais do nosso país”.

Em meio ao sol inclemente do Planalto, as declarações de Padilha prometia à população que acompanha os acontecimentos de Brasília, uma perspectiva de voo em céu de brigadeiro. Ainda segundo o ministro: “O Congresso deveria se concentrar na pauta econômica e social, com divergência, com projetos de autores da oposição, da base, isso independe, mas concentrar nesse tema para gente reduzir esse grau de beligerância, de intolerância, que ficou explícito na semana passada”.

Porém, o céu límpido daquela segunda-feira, daria lugar a mais uma tempestade na noite da última quarta-feira, quando liberados por Artur Lira, que aos moldes do esquecível Eduardo Cunha, manobra o regimento da Câmara a seu bel-prazer, diante de uma minúscula bancada governista combativa — é doloroso ver a minúscula bancada de esquerda ter boa parte de seus membros com uma atuação medíocre. Saudades da época em que tínhamos uma figura do porte de José Genoíno, figura que como poucos conhecia as entrelinhas do regimento da Câmara.

A blitzkrieg da extrema-direita imposta nos últimos dias, além de tocar em pontos fundamentais como o direito das mulheres vítimas de estupro interromperem a possível gravidez; o avanço na criminalização da posse e porte de pequenas quantidades de drogas, além de medidas que poderiam beneficiar o inelegível Jair Bolsonaro, também é mais um sinal que o parlamentarismo de fachada imposto por Lira segue a pleno vapor.

Em um governo acossado pelo centrão e sua incessante sede por emendas e cargos; e pela bancada fascista que após o recuo tático realizado após o fatídico 08 de janeiro, tem buscado sua rearticulação ganhando terreno, seja pela atuação no parlamento ou por alguns governadores. A articulação política é fundamental, e aí o governo tem falhado miseravelmente.

A falta dessa articulação, levará o governo cedo ou tarde a uma encruzilhada: dando as costas para sua base histórica em nome da governabilidade, o governo Lula III tem atendido quase todas as expectativas do lado de lá. E quando por algum motivo não cede, acaba sofrendo derrotas vergonhosas, fruto de uma composição vacilante, lastreada muito mais em abstrações que um projeto real.

Ao contrário dos tempos do governo Lula II e Dilma I quando tínhamos um projeto de país, hoje o governo de turno falta apenas pedir soberbamente para aqueles que questionam seu rumo agradecer, afinal, foi Lula quem venceu Bolsonaro.

Enquanto não for construída uma articulação política de verdade, com figuras confiáveis e que tenham a política pulsando nas veias — para quem acompanhou a trajetória de um Zé Dirceu, ficar satisfeito com um Padilha ou Rui Costa é quase impossível — o governo continuará sendo emparedado pelo centrão e sua tropa de achacadores; pelo fascismo bolsonarista em franca reorganização e agora pela minúscula, porém ruidosa esquerda radical, que ao deflagrar uma greve nas instituições de ensino federais também contribui com sua gasolina para o aumento da fogueira.

O momento é oportuno para o presidente Lula reconstruir essa articulação política e curar fraturas com sua base social. A organização quase instantânea capitaneada por mulheres contra o PL 1904/24, com atos que lotaram as ruas do país na quinta-feira e no sábado, mostram ser possível o governo partir para o embate, nem que seja no início de forma pontual.

Caso insista no erro, quando acordar poderá ser tarde, sem os apoiadores históricos, sem o poder de barganhar com os achacadores do poder, a grande frente que prometia reconstruir a democracia poderá terminar em uma melancólica antessala para a volta do fascismo.

Daniel Costa é historiador, pesquisador, compositor e integrante do G.R.R.C Kolombolo Diá Piratininga.

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