Não podemos mais dourar a pílula!
por Daniel Costa
O governo capitaneado pelo presidente Lula deveria encerrar a semana acendendo velas para os santos de devoção, orixás, entidades protetoras ou o que valha, pelo feriado prolongado. Afinal, se com uma semana de apenas três dias o governo acumulou uma série de derrotas e trapalhadas, imaginem se tivéssemos uma semana cheia.
Na última quarta-feira acompanhamos um acirrado debate nas redes e na imprensa discutindo se a derrubada de vetos em série promovida pelo Congresso, teria sido ou não uma derrota para o governo. Não devemos ser incautos e tentar enxergar no gato a figura de um leão.
A derrota claramente foi do governo Lula e da sua cambaleante articulação. Por mais que tenhamos um governo de frente amplíssima, onde o dissenso em determinados cenários é esperado, se torna inadmissível para um governo que entrega ministérios, cargos e emendas a rodo para “aliados”, consiga amealhar pouco mais de cento e cinquenta votos em momentos decisivos.
Para deixar o cenário um pouco mais turvo, no horizonte temos as eleições municipais, e aqui os radares não apontam céu de brigadeiro para o campo progressista, pelo contrário. Com o espaço dado para partidos como Republicanos, Progressistas e o famigerado centrão, a conjuntura posta é de mais uma goleada contra nosso campo. A vitória quase certa de um aliado como Eduardo Paes no Rio, e a possibilidade de retomada da prefeitura de São Paulo seriam momentos de breve ilusão.
Afinal, em capitais médias e no interior do país; sabemos quem levará as prefeituras, aí teremos o resultado concreto da chuva de emendas secretas, dos acordos com Liras e cia em nome de uma governabilidade manca.
Para completar a curta semana, ainda assistimos o governo apresentar um comportamento indefensável ante a greve de servidores e docentes das universidades e institutos federais. Por mais que acredite que o momento para a eclosão de tal movimento foi inoportuna, e que os sindicatos envolvidos na condução da greve aproveitem a situação para desgastar o governo pela esquerda (quem conhece a postura do ANDES-SN entenderá o que digo). É inadmissível o governo prestigiar apenas um sindicato (Proifes) com pouca representatividade, inclusive alijando do processo negocial o sindicato dos técnicos e fechando um acordo por cima que de cara tem sido rechaçado pelas bases.
O desgaste com trabalhadores e docentes do ensino superior é apenas mais um do governo que prefere ceder todos os anéis para aliados de ocasião ignorando aliados históricos. Já vimos esse cenário em 2015 e o resultado não foi positivo.
Por fim cabe destacar o discurso de parte da militância, de articulistas e jornalistas do campo progressista que costumam apontar que se o governo segue determinado rumo, ou toma tal decisão, com certeza o presidente Lula não estaria ciente.
Não podemos dourar a pílula e mascarar a realidade, adotar esse discurso é como invalidar toda a perspicácia acumulada por Lula ao longo de sua trajetória política, é negar que estejamos diante da grande figura política brasileira surgida após Vargas.
É nossa tarefa parar de dourar a pílula e apontar que temos um governo sem um projeto concreto de desenvolvimento, que prefere afagar aliados que no momento do abraço estão com o punhal escondido aguardando apenas o momento ideal para desferir o golpe.
Seguir dourando a pílula é aceitar que o atual governo é apenas um interregno para a volta do fascismo em 2026, com ampla maioria na Câmara, no Senado e algum sujeito nefasto na presidência. Aí será tarde demais…
Daniel Costa é historiador, pesquisador, compositor e integrante do G.R.R.C Kolombolo Diá Piratininga.
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Rabuja
31 de maio de 2024 8:20 pm“sindicatos envolvidos na condução da greve aproveitem a situação para desgastar o governo pela esquerda”
Este governo se desgasta sozinho. Não precisa de esforço de ninguém.
Curioso um mestrando, graduado em História de uma universidade pública, reduzir a pauta de servidores da educação a um mero “desgastar o governo pela esquerda”. Será que é ligado ao sindicato fake que nem base tem e que faz acordos a portas fechadas com o governo em nome de quem ele não representa?
Os sindicatos deveriam fazer o que? Verem as universidades e as carreiras de servidores da educação afundando permanentemente e ficarem só olhando?
Este governo de “conciliação” (metáfora para não dizer direita) está fazendo suas escolhas.
O presidente (vamos dar nome pra não parecer algo abstrato) LULA, uma figura importante na democracia do Brasil, gosta de falar em Educação só discurso de época de eleição. Puro papo furado. Para ele policiais federais, penais e rodoviários são mais importantes, síndrome de Estocolmo. Universidades e institutos federais para LULA precisam apenas serem criados, não precisam de orçamento para funcionarem decentemente.
Nelson Viana dos Santos
1 de junho de 2024 12:32 pmDaniel, parabéns pela reflexão.